Para ganhar a eleição em 30 de outubro, Jair Bolsonaro (PL) precisa conquistar 368 mil votos por dia. A meta nunca foi alcançada: nenhum candidato que terminou o 1º turno em segundo lugar se elegeu como presidente do Brasil. Porém, os aliados do atual mandatário estão engajados e apostam que ligar o candidato de oposição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao crime organizado pode ajudar a garantir uma eventual reeleição de Bolsonaro.
A Agência Pública analisou os posts que buscam vincular Lula às fações criminosas nas últimas semanas em redes como Facebook, YouTube, Twitter, Telegram e WhatsApp e identificou um aumento do uso dessa narrativa.
O próprio presidente tem auxiliado a divulgar informações falsas que buscam ligar o seu oponente ao crime. Durante os primeiros dias de outubro, na primeira semana de campanha para a segunda volta, Jair Bolsonaro fez pelo menos cinco tuítes que citavam as palavras “crime” e “Lula”. Para comparação, apenas um tuíte tinha sido feito com as duas palavras nos 47 dias de campanha para a primeira volta e três nos 226 dias anteriores ao início da campanha eleitoral em 2022.
“É preciso estar atento aos sinais. O apoio maciço de presos e de chefe de fação ao Lula não é mera admiração. Eles sabem que o PT no poder representa vida boa para o crime. E essa é a fórmula perfeita para a violência voltar a crescer, porque bandido só respeita o que teme”, disse um dos posts desinformativos, feito em 8 de outubro. O tuíte chegou a 79.547 curtidas e 16.638 retuítes. Foi o mais retuitado com os termos “crime” ou “PCC” entre 2 e 10 de outubro.
O mesmo texto foi replicado na página oficial de Jair Bolsonaro no Facebook, onde foi acompanhado de um vídeo com o áudio supostamente de Marcola, chefe da fação criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), dizendo que prefere Lula à Bolsonaro. O conteúdo chegou a 894 mil visualizações, 67,4 mil curtidas e 10 mil comentários.

O áudio publicado pelo presidente tinha sido difundido nas vésperas da votação da primeira volta. Naquele final de semana, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, ordenou que as informações fossem retiradas do ar por serem desinformativas. Quando foram excluídos do YouTube, vídeos da Jovem Pan sobre o tema já somavam mais de 1.7 milhão de visualizações, de acordo com artigo feito pelo Aos Fatos e Núcleo Jornalismo em parceria com a Pública.
Na decisão, Moraes argumentou que “a divulgação de facto sabidamente inverídico, com grave descontextualização e aparente finalidade de vincular a figura do pré-candidato a organização criminosa, indicando suposto apoio explícito do PCC à sua campanha, parece suficiente a configurar propaganda eleitoral negativa”. Contas como a do senador Flávio Bolsonaro (PL) e a da deputada federal Carla Zambelli (PL) deveriam apagar o conteúdo.
Ainda assim, o áudio continua a circular – inclusive a partir das contas do próprio presidente.
Em resposta a esta reportagem, o Twitter afirmou que tem cumprido com as ordens advindas do TSE e que “deu o devido cumprimento à decisão judicial em questão, que não inclui o Tweet enviado pela reportagem [tuíte em que Jair Bolsonaro compartilhou o áudio de Marcola]”. “O referido Tweet não fere as regras do Twitter, que não preveem atuação em conteúdos como declarações polarizadas sobre candidatos, partidos e seus apoiantes. Casos dessa natureza são matéria para o Judiciário”, acrescentou.
A Pública também questionou o TSE sobre a circulação de conteúdos com informações que já foram barradas pelo tribunal, além de todas as outras redes citadas, mas eles não responderam.
Aumento de menções
No Facebook, os dois posts com maior número de interações com a palavra-chave “crime organizado” entre 2 e 10 de outubro sustentam a narrativa de que Lula estaria a ser apoiado pelo crime, que veria em Bolsonaro um empecilho à ilegalidade. Um deles foi feito por Bolsonaro e o outro, pelo deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).

“No caminho de Lula o crime organizado cresceu e se fortaleceu monstruosamente. A legalização das drogas, que destroem famílias e que fazem pais e mães enterrarem seus filhos, é uma questão de tempo. No caminho de Bolsonaro, recorde de apreensão de drogas e prejuízos ao tráfico”, disse Bolsonaro no post com mais interações do recorte analisado, 196 mil. O programa de governo do PT não prevê a legalização das drogas.
Os dois dias com maior número de interações em posts com a palavra-chave no Facebook foram 4 e 7 de outubro, com um total 198,6 mil e 146,6 mil interações, respetivamente. A semana entre 2 e 8 de outubro representou o ápice de interações nos últimos 30 dias sobre o tema, com 368,1 mil – o segundo recorde se deu entre 17 e 23 de julho, com 298,8 mil interações.
No YouTube, dados da consultoria Novelo Data indicam que os ápices de vídeos que citavam “Marcola” e “PCC” nos primeiros dez dias de outubro se deram nos dias 7 e 8, quando foram registados pelo menos 91 e 112 ocorrências. Um dos vídeos do levantamento afirma que “O CÁRCERE OBEDECEU MARCOLA E VOTOU MONOLITICAMENTE EM LULA”, em caixa alta do original. Foi publicado pelo canal RISTALVOX Leudo Costa em 10 de outubro e alcançou 3.829 visualizações, 63 curtidas e 46 comentários.
Já no Telegram, o ápice de menções às palavras “crime” e “Lula” nos últimos 30 dias se deu em 6 de outubro, quando os termos foram citados em pelo menos 93 mensagens – no dia 17 de setembro apareceram em 85, segundo maior número. Os dados são da base mantida pelo Sentinela Eleitoral, da Agência Pública.
Os números do projeto Eleições Sem Fake, da Universidade Federal de Minas Gerais, seguem na mesma linha. O relatório sobre citações ao crime organizado no Telegram indica que a prevalência do tema nos grupos chegou ao ápice na primeira semana de outubro. Foram analisadas as mensagens e ficheiros enviados entre o início da campanha, em 16 de agosto, e o dia 10 deste mês. No total, o projeto monitorizou 63 grupos ativos, somando um conjunto de 370 mensagens enviadas por 159 usuários.
A mensagem mais compartilhada da amostra dizia que o governo Bolsonaro teria levado a um “prejuízo de R$ 30,7 bilhões ao crime organizado, incluindo tráfico de drogas”. A mensagem foi identificada pela primeira vez logo no início da campanha eleitoral, em 19 de agosto, e apareceu ao menos 14 vezes em dez grupos na rede.
Já a terceira corrente mais compartilhada apareceu pela primeira vez no dia seguinte à votação e traz parte do discurso replicado em busca da reeleição de Bolsonaro. O texto traz 14 orientações para garantir a virada no resultado: “AMIGOS POR FAVOR REPLIQUEM Vamos formar opinião e não, simplesmente, repassar mensagens viralizadas ou requentadas”.
Uma delas é “manter vivas as denúncias incontestáveis”, como os “vínculos [do PT] com o crime organizado (áudios do Marcola)”. A mensagem apareceu 12 vezes em oito grupos distintos monitorados pelo projeto, enviada por oito usuários.
No WhatsApp essa foi a mensagem mais partilhada entre 16 de agosto e 7 de outubro: foi enviada 26 vezes por 24 utilizadores distintos e apareceu em 23 grupos, de acordo com dados do Eleições Sem Fake na rede.
Metade das 12 imagens mais partilhadas da amostra no Telegram também aborda o tema e pelo menos quatro citam o áudio de Marcola, cuja reprodução foi proibida pelo TSE. Também foi compartilhada a mentira que afirma que Alexandre de Moraes foi advogado do PCC. No WhatsApp, pelo menos cinco das 12 mensagens mais partilhadas buscam ligar o PT ao crime organizado.
Após a publicação da reportagem, o WhatsApp disse que “as conversas trocadas em grupos específicos não representam a totalidade das conversas dos utilizadores brasileiros ou a forma pela qual o WhatsApp é maioritariamente utilizado no país”.
A rede também afirmou que “recomenda que comportamentos inapropriados, além de conteúdos ofensivos e ilegais, sejam denunciados às autoridades competentes” e disse que tem colaborado com a justiça eleitoral e mantido ferramenta que leva informações confiáveis para os eleitores — 85,7 milhões de mensagens já teriam sido envidas. Por fim, disse que está aprimorando o seu funcionamento para “conter viralidade” e “resguardar a integridade do processo eleitoral no Brasil”. Confira na íntegra.
Vídeos falsos
Outra estratégia que está a ser utilizada pelos apoiantes do presidente é a divulgação de vídeos que mostrariam pessoas em privação de liberdade a comemorar o resultado da primeira volta. Os vídeos são falsos, como já verificou a Agência Lupa .
Essa foi a estratégia utilizada pelo perfil Paulo Sant’ana – Rio Preto, cujo vídeo ultrapassou 1.11 milhão de visualizações no Facebook. Na gravação, o dono do perfil simula uma conversa com Lula utilizando imagens que se repetem e dão a impressão de que o ex-presidente estaria a ouvir as afirmações sem responder. Sant’ana mostra as imagens falsas dos detidos supostamente a comemorar os resultados da eleição e cenas violentas de roubos armados para insinuar que “Lula defende o crime”.
O dono do perfil diz na publicação ter verificado as informações “junto a amigos meus que trabalham em presídios” e todos teriam confirmado a veracidade das informações. “Te pergunto Lula, por que essas pessoas te idolatram tanto? Presidiários que cometeram algum tipo de crime e estão pagando?”, questiona. O Facebook identificou o vídeo como “sem contexto” e alertou que a “informação pode enganar as pessoas”.

Na avaliação da campanha do candidato do PT, as informações são mentirosas e demonstram “preconceito de classe”. A campanha acionou quatro vezes o TSE para pedir a retirada deste tipo de conteúdo.
Os influenciadores bolsonaristas também têm partilhado conteúdos que indicam que houve uma votação pró-Lula em alguns presídios como uma suposta prova de que o crime organizado estaria a apoiar o candidato. Um dos vídeos com mais interações sobre o tema foi publicado no YouTube e Facebook por Gustavo Gayer (PL-GO), influenciador e deputado federal eleito por Goiás no último pleito.
De acordo com o levantamento da empresa de consultoria Novelo Data, o vídeo disseminou-se rapidamente durante a primeira hora de sua publicação. Hoje tem mais de 68 mil visualizações e 19 mil gostos no YouTube, além de 59 mil visualizações, 7,5 mil gostos e mais de 600 comentários no Facebook.
“Uma coisa que o PT não quer que seja divulgada é em quem os presidiários estão votando, quem os ladrões estão votando, quem os ladrões, os bandidos, quem as piores pessoas do Brasil estão votando”, diz Gayer, que pede para as pessoas baixarem o vídeo para divulgar em outras redes.
O discurso que busca ligar Lula ao crime não é novo no bolsonarismo, mas a apuração da Pública indica que houve um crescimento no uso da narrativa nos últimos dias.
Ainda em março de 2021, verificadores de factos tiveram que desmentir outro vídeo que mostrava pessoas privadas de liberdade supostamente a comemorar a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que anulou as condenações do ex-presidente.
O mesmo conteúdo já verificado foi divulgado novamente na última semana, desta vez como se os detidos estivessem a comemorar os resultados do último domingo de votação.
Laura Scofield é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) com investigação sobre migração indocumentada de brasileiros para os Estados Unidos. Colabora com a OBORÉ Projetos Especiais e é ex-diretora de cultura da Jornalismo Júnior. Começou na Agência Pública em março de 2020 como estagiária de redação do núcleo de política e redes sociais e desde janeiro de 2022 é repórter do núcleo de clima. Trabalhos premiados pelo Prémio Intercom Sudeste 2021 e 12º Prémio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão 2020.
Texto publicado originalmente na Agência Pública. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.