Está aqui

Mulheres de Abril: Testemunho de Maria Luísa Cabral

O convite do esquerda.net representou uma oportunidade de passar ao papel as experiências vividas num tempo muito sombrio e sem esperança, dando uma ideia de como era então o quotidiano. Até que o “dia perfeito, inteiro e luminoso” nos empurrou para o futuro.
Foto de Maria Luísa Cabral, final dos anos 60.

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


O convite do esquerda.net representou uma oportunidade de passar ao papel as experiências vividas num tempo muito sombrio e sem esperança, dando uma ideia de como era então o quotidiano. Como me formei, como aprendi a democracia, a resistir, a dizer não. Na família, na escola, nos empregos, manter a firmeza mesmo nos pequenos gestos ou nas intervenções mais modestas, sempre convicta que um dia seria diferente. Até que o “dia perfeito, inteiro e luminoso” nos empurrou para o futuro. As pessoas que refiro, foram todas importantes para mim. Também, à minha maneira, presto uma pequenina homenagem à minha mãe.

De Lisboa a Macau

Sou lisboeta. Nasci no final de 1946, no Hospital Militar da Estrela. Registada, assim, como natural da freguesia da Lapa, apesar de os meus pais viverem na Venda Nova, às portas de Benfica. Um paradoxo bem curioso.

Maria Luísa Cabral no seu primeiro aniversário

Os meus pais, ambos farmacêuticos, tinham uma farmácia em cujas traseiras ficava a nossa casa. A farmácia era um complemento, ambos trabalhavam também na CRCB (Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau), na parte de análises químicas. Quando vinham de manhã para Lisboa traziam-me numa alcofinha – na altura não existiam carrinhos de bebés – e deixavam-me em casa dos meus avós paternos, nos Navegantes. Os Navegantes foram sempre a minha casa e os Navegantes provocavam a imaginação. Uma casa enorme e antiga, cheia de segredos, alçapões, estantes que escondiam passagens secretas ou janelas que davam directamente para a capela mesmo ao lado. Esgueirando-me pelas janelas das águas furtadas, subia pelas telhas, sentava-me bem lá em cima para ver o Tejo. Não foi em vão que ali cresci até ir para Macau. No regresso acabaria mesmo por viver nos Navegantes. Guardo memórias muito queridas dos espaços e da sua magia, das pessoas, dos serões musicais, da lufa-lufa.

Macau sempre presente

Vivi em Macau durante três anos. A família do meu pai tinha raízes no Oriente e ele teve sempre muita vontade de conhecer Macau. Quando em 1949 Mao-Tse-Tung tomou o poder, o governo português organizou um recrutamento especial para reforçar a praça de Macau. Anunciaram o recrutamento de um farmacêutico para o hospital militar, o meu pai candidatou-se, tendo sido destacado como tenente miliciano. Eu e minha mãe fomos ao seu encontro no princípio de 1951. O meu irmão nasceu lá. Ao fim de três anos, a minha mãe, que ainda chegou a dar aulas no liceu de Macau, decidiu regressar. Ela comentava que o ambiente não era bom para educar os filhos, as pessoas não ganhavam hábitos de trabalho, não tinham um objetivo na vida, alimentavam um estilo de vida colonialista. Eram outros os ideais da minha mãe, cortou cerce, regressámos a Lisboa.

Os anos nas Portas do Cerco foram de imensa liberdade. A casa tinha jardim à volta, terrenos imensos sem dono, árvores tropicais com poderosas raízes que desenhavam castelos, fortificações, esconderijos. Com outros putos também filhos de militares, brincar às guerras ou construir abrigos com as folhas de bananeira ou utilizar as trincheiras na parte de trás da casa para correr, eram desafios imperdíveis. Como acontecera nos Navegantes, espaço era o que não me faltava com a vantagem de, em Macau, ter companhia para as brincadeiras.

De Macau lembro-me bem dos aromas, dos passeios na Baía da Praia Grande ou dos banhos de mar em Areia Preta. E também das viagens de ferryboat que fazia sozinha até Hong Kong onde ficava temporadas em casa da irmã do meu pai. Incutido pela minha mãe, aprendi em Macau esse sentido de autonomia e responsabilidade. Podia ir até HK, sim, mas essa viagem de cerca de 4 horas, sozinha com cinco ou seis anos apenas acompanhada pela Joana, uma boneca de louça, ensinou-me a ser muito responsável. Rodeada por uma multidão de passageiros chineses, as instruções eram no sentido de apenas sair do meu assento quando visse os meus tios no cais em HK.

O regresso a Lisboa, a bordo do Quanza, quase três meses oceanos fora, passando por Ceilão, Moçambique, Angola, um tufão, muitas focas, baleias, cruzar a linha do Equador, acordar nas Canárias. Finalmente, a entrada no Tejo, o encontro com a família primeiro com o meu avô subindo a bordo para se certificar da inexistência de doenças contagiosas, depois com primos e tios na Rocha de Conde de Óbidos. Com a minha mãe e irmão fomos viver para os Navegantes, o meu pai só regressou dois anos e tal mais tarde. Instalámo-nos nas águas furtadas. A minha mãe comprou uma telefonia Philips para ouvirmos a BBC e os campeonatos internacionais de hóquei em patins. Ouvir fossem as notícias fossem os relatos de hóquei, tornava-se absolutamente indispensável. Por motivos diferentes ambos alimentavam um sentimento de liberdade e fortaleciam uma vontade muito férrea contra o regime. A BBC punha-nos em contacto com o exterior; os relatos do hóquei, faziam-nos acreditar que, como país, podíamos ir bem mais longe. Pelas nove da noite, depois de jantarmos e de nos despedirmos do meu avô, subíamos. A minha mãe puxava-me para ela e, juntas, ficávamos penduradas a ouvir a BBC. Silêncio absoluto. Comecei então a perceber que havia mais vida para além das brincadeiras, do ar livre onde corria, da escola. Foi-se construindo aqui uma profunda camaradagem entre nós as duas.

Maria Luísa Cabral em Macau, Fevereiro de 1952.

Os meus avós paternos e a casa dos Navegantes

Os meus avós paternos viviam nos Navegantes, uma zona bastante elitista de Lisboa. Era uma casa enorme, do século XVIII-XIX, com vários andares. Filho de um alto funcionário da Alfândega de Macau, o meu avô nasceu por lá e, na metrópole, licenciou-se em Medicina. Nunca mais voltou ao Oriente. Os Navegantes transformaram-se numa referência para muitos macaenses que, uma vez na metrópole para estudar ou apenas de passagem para estudar em Inglaterra, agradeciam o acolhimento que recebiam em casa do Dr. Fernando Cabral. Chegaram a ser tantos como duas equipas de futebol acomodados nas águas furtadas transformadas para o efeito em camaratas! Na cozinha existiam copos de alumínio, numerados de 1 a 22, um por rapaz, sendo lavados uma vez por dia. Ainda me lembro de ver alguns desses copos lá na cozinha muito mais tarde quando a minha mãe adoptou o mesmo esquema comigo e com o meu irmão. No tempo antigo, a casa tinha para além do quintal com capoeiras e um jardim, nos terrenos que ficavam por trás, um court de ténis e um campo de futebol. O meu avô acolhia os estudantes, mantinha serões musicais, recebia muitos amigos, dava consultas pro bono a pessoas doentes do bairro, sem recursos económicos. Tudo junto, o movimento era imenso.

Não sendo afecto ao regime, o meu avô não se manifestava. A minha avó muito católica, doméstica como a maior parte das mulheres da altura, mas com o curso superior de piano, assegurava o serviço dominical na capela dos Navegantes, paredes meias. Esta tarefa passou depois para o meu avô que, para além de piano, tocava violino. Lá em casa, todos tocavam e a música ocupava um lugar muito importante nos tempos livres, nos serões, no convívio fosse com a família fosse com os amigos. O meu pai com um grupo de amigos formou a primeira orquestra (amadora) de jazz em Portugal, tocava clarinete. Toda a vida o ouvi tocar esse instrumento, as melodias de Benny Goodman estão profundamente registadas no meu coração. A minha mãe que também tinha o curso superior de piano, participava como ouvinte, não me lembro de alguma vez a ter ouvido tocar. Foram os serões e as conversas, sim, sobre música mas os meus pais alimentaram-me o gosto musical em casa primeiro e prosseguiram depois levando-me com regularidade a concertos. Para mim, a música tornou-se uma segunda pele e, ao longo da vida e em momentos mais complicados, aprendi a recorrer às melodias que guardo na memória.

Do lado paterno, não ganhei formação social ou política, constituía uma preocupação distante. O meu pai tinha vários irmãos, todos muito conservadores, ele seria o menos conservador, o mais aberto. Para além das listas do MUD ou de alguma participação na CDE, aquando das eleições em 1969, não lhe identifico qualquer outra actividade. Contudo, ao contrário da maior parte dos pais da altura, nunca me impediu de participar fosse no que fosse. Preocupava-se, tinha muito medo que a PIDE me apanhasse mas apoiou sempre o meu activismo.

Do lado materno, todos contra o regime

A formação democrática e política veio do lado materno. A minha avó, lisboeta e doméstica, profundamente anticlerical. Sempre que se referia aos padres ou à igreja usava a expressão “padralhada”, reveladora q.b. Tendo apenas a escola primária, lia imenso, participava em qualquer discussão, não desistia de opinar e creio que teve uma profunda influência nos netos. Não encaixava no conceito de doméstica tradicional. Aceitava ser doméstica porque não tinha habilitações, mas não tolerava que as pessoas achassem que o destino das mulheres era serem domésticas.

Já o meu avô era militar de carreira. Não sei muitos pormenores, acho que começou pela tarimba. Natural de Lagos, deve ter entrado para a tropa por razões de ordem económica. Em 1895, ainda muito novo, participou no ataque a Chaimite e na captura de Gungunhana. Depois, durante a I Guerra Mundial, esteve na fronteira de Angola com a Namíbia (colónia alemã), foi baleado e evacuado. Com cerca de quarenta anos, extraíram-lhe um rim, passou à reserva. O meu avô era, verdadeiramente, o chefe do clã, conhecido como “O Capitão”, pulso forte. Superiormente inteligente, impunha um respeito inquestionável, tudo girava à volta do que dizia ou propunha. Quando íamos jantar lá a casa, na Defensores de Chaves, ele presidia à mesa e, no final da refeição, ficava tudo sentado a conversar. As crianças não podiam participar na discussão, se optavam por ficar à mesa, ouviam (e aprendiam). Não nos passava pela cabeça interromper os adultos, mesmo que fosse só para fazer perguntas. Se queríamos estar à mesa podíamos ficar, mas tínhamos de estar calados. Guardo dele uma imagem de rectidão e de exigência, de capacidade de ouvir e argumentar. O ambiente era talvez um pouco tipo escola militar, mas não intimidava. Discutia-se política, sempre, com a família e com os amigos que ao serão vinham “conspirar” com o Capitão. Os mais novos, entre os quais me incluía, ganhavam disciplina, aprendiam o que era a solidariedade e a fraternidade, uns com os outros iam equacionando outras perspectivas, ganhando outros horizontes. À volta da mesa, fosse em Lisboa ou na casa da praia, aprendíamos a antecipar o futuro.

A determinada altura do liceu, eu era muito má aluna, só me interessava por algumas disciplinas entre as quais não se incluíam nem a matemática nem o português, uma chatice. O meu pai nessa altura desempregado, com muito pouca paciência para o meu desinteresse e ignorância, ficava fora dele e ameaçou que não vendo progressos me mandaria para a costura. Uma das últimas imagens que guardo do meu avô, é dele na nossa casa para falar com o meu pai, deixando claro que os seus netos seriam todos licenciados. Não havia mais nada a dizer. Para o meu avô, era uma coisa muito simples: não se andava para trás, o caminho fazia-se para a frente. O meu pai abandonou a peregrina ideia da costura e, ao longo da vida, lembrei-me sempre do empenho e determinação do meu avô na construção de um futuro melhor. As três filhas dos meus avós eram licenciadas, nem pensar que os netos não chegassem ao mesmo patamar.

Contrastando com o ambiente nos Navegantes, na minha família materna, era a oposição instalada. O meu avô era profundamente republicano e laico, talvez maçon, nunca apurámos, tias e tios, a minha mãe e o meu pai, os netos, todos e todas, antifascistas. Entre os diversos membros da família, alguns do Partido Comunista o que até ao 25 de Abril nunca foi problema já que o denominador comum era o antifascismo. Depois do 25 de Abril, o ambiente tolda-se.

Foi no convívio e nos exemplos com o lado materno da família que me formei social e politicamente. Revejo nas longas tertúlias, fosse numa ou noutra casa, muito do que aprendi. Qualquer data servia de álibi para nos encontrarmos e termos uma refeição em comum. Tudo se passava à volta da mesa. Ouvindo, primeiro, participando mais tarde, não há nada que substitua o cadinho que a família foi. Discutíamos, zangávamo-nos, trocávamos informação, opinávamos sobre leituras, buscávamos novos argumentos e no apoio que dávamos uns aos outros ganhávamos força. Se me perguntarem hoje de que tenho mais saudades, eu revisito toda esta história com mais de 70 anos e há duas coisas absolutamente inultrapassáveis: os convívios em família e a cumplicidade com a minha mãe.

Era a única menina que ia calçada para a escola

A minha mãe preparou a chegada do meu pai do Oriente, alugando um andar na Avenida Rio de Janeiro para onde nos mudámos, mesmo ao pé do actual estádio 1º de Maio, à época terras baldias, pasto para ovelhas. Foi então que o meu pai ficou desempregado quase três anos. Como tinha assinado as listas do MUD (Movimento de Unidade Democrática), não conseguia arranjar emprego. Foram tempos difíceis, quando olho para trás percebo muito bem como me marcaram. Assistente na Faculdade de Farmácia e no início do doutoramento, a minha mãe abandonou esse projecto para assumir a direção técnica de uns laboratórios de produtos farmacêuticos procurando melhorar o orçamento familiar.

Eu e o meu irmão sentimos de imediato a mudança. Fomos tirados da escola privada, eu segui para a escola da Câmara, o meu irmão foi admitido pro bono num colégio particular perto de casa, um favor entre antifascistas como acontecia frequentemente. Terá sido a primeira vez que percebi como a falta de dinheiro estigmatiza. Do Lar da Criança, talvez o melhor colégio particular à época na capital, para a escola da Câmara, ao lado da igreja de São João de Brito. No colégio tinha música, trabalhos manuais e ballet; na escola nº 111, era a única menina que ia calçada. De um dia para o outro, o meu mundo ganhou outros contornos. Ainda hoje isso me perturba. Saía de casa de bibe, muito engomado e levava um pãozinho para o meio da manhã. Quando pegava no pãozinho para comer, tinha várias crianças à minha volta a olhar. Essa terá sido mesmo a primeira vez que interiorizei o alcance do meu pai estar desempregado. E em casa não me cansava de questionar a minha mãe sobre aquela que era uma situação completamente nova e incompreensível para mim.

O despertar para a política

Praticamente todos os serões, eu e a minha mãe íamos até casa dos meus tios, do outro lado do estádio da FNAT (Federação Nacional para Alegria no Trabalho), ouvir a BBC e a Voz Livre emitida a partir de Argel. Um luxo dispor de um aparelho de telefonia assim potente! Era uma hora sagrada para nós, ouvintes. O silêncio pesado era apenas quebrado pelas interferências constantes provocadas pela polícia. Todo o cuidado era pouco, na rua estacionavam os Volkswagen pretos da PIDE munidos de antenas poderosas tentando identificar quem escutasse as rádios estrangeiras. Mal o programa terminava, a telefonia era desligada e ficávamos a discutir as notícias. Convivíamos muito, tudo era motivo para longas conversas: estudos, dificuldades e vitórias, problemas, zangas, actualidade política. Era um ritual importante, de iniciação e formação. Portanto, o primeiro choque com o mundo para lá da malha protectora da família, foi com a mudança de escola, o contacto com pessoas de meios sociais e económicos que eu desconhecia existirem. O segundo abanão veio da informação que o convívio diário com a minha família materna proporcionava.

Depois, foi uma sucessão de acontecimentos. Tudo quanto abalava o regime, ou poderia ter abalado, era escrutinado e discutido no ambiente familiar e as minhas primeiras memórias levam-me à chegada de Humberto Delgado a Lisboa, à manifestação na Praça José Fontana, no Outono de 1958. Os meus pais foram até lá depois de forma taxativa se recusarem a levar-me, não era coisa para crianças (eu ainda não fizera 12 anos). Lembro referências à PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), sigla que me dediquei a decifrar. Mais tarde, explicaram-me de que se tratava.

Entretanto, com 12 ou 13 anos, comecei a acompanhar a minha mãe à manifestação que se realizava sempre no 1º de Maio, ao final do dia, no Rossio. Tenho ouvido muitas pessoas apoucarem este ritual, até depreciarem. É uma atitude profundamente injusta por várias razões. Começa que qualquer análise tem de ser feita com base na conjuntura da época, caso contrário está viciada à partida. Depois, sendo a repressão muito grande à época, a celebração desta data assumia um enorme simbolismo e, finalmente, se nos lembrarmos quantas vezes a nossa indignação e luta, no pós 25 de Abril, se tem ficado por manifestações percebemos facilmente e sem indulgência o que representava a manifestação do 1º Maio naquele tempo. O meu pai ficava em casa, muito nervoso. A minha mãe decretava que íamos às compras, passávamos pela Rua de São Domingos cheia de armazéns onde ela comprava umas miudezas, por exemplo, uns sabonetes, e metia-os na carteira. Caso fosse apanhada pela polícia, podia comprovar como tinha ido às compras. Depois, coladas uma à outra, íamos para o Rossio, onde se juntava este mundo e o outro, oposicionistas, polícias à paisana, pides e informadores. Impunhamo-nos silêncio total, nada de comentários, nada de apontar. Tenho uma imagem muito nítida da cenografia: uma multidão na Praça da Figueira e outra no Rossio, os cafés apinhados, os centros das praças com muitos transeuntes, um movimento desusado. A polícia de choque concentrava-se na entrada do Rossio, entre o Teatro D. Maria e a Estação, apoiada pelo carro da bomba de água com o azul de metileno. A Guarda Nacional Republicana também não faltava, montada a cavalo. Não me lembro de cães, julgo que só apareceram anos mais tarde. A multidão começava a cantar “A Portuguesa” na Praça da Figueira e a polícia investia nessa direção. Correrias, talvez algumas bastonadas. Quando a polícia estava bem na Praça da Figueira, começava a multidão do Rossio a cantar, e a polícia rodava sobre si própria e desembestava para cá. E isto repetia-se várias vezes, num desafio aos regulamentos, à polícia, ao regime em suma. Talvez fosse pouco mas era um protesto feito com muita gana e uma enorme vontade de deixar claro o quanto se estava contra o regime. Lembro-me de uma vez ter entrado num café por uma porta e ter saído por outra com os cavalos atrás. Um cavalo atiçado contra nós, a relinchar e patas da frente no ar, mete medo ao mais destemido. Quando a confusão estava no auge, surgia o carro da bomba de água e fugia-se como se podia. Não se tratava apenas de evitar a água a altíssima pressão, derrubando tudo e todos, capaz de partir a coluna. Na água tinha sido diluído azul de metileno que manchava de forma indelével onde acertasse facilitando a denúncia e a identificação posteriores.

O ritual repetia-se: a minha mãe e eu fugíamos em direção aos Restauradores, começávamos a subir a Avenida da Liberdade, passado o Condes, encostadas ao edifício da Companhia das Águas, virávamos ao Largo da Anunciada, olhos no Ascensor do Lavra. Era um mar de gente a tentar entrar no elevador, qual cacho humano. O guarda-freio punha o elevador em marcha no último momento possível. A minha mãe e eu nunca fomos apanhadas nestas correrias mas havia ali pano para mangas para os próximos serões. Entretanto, o meu pai esperava em casa doente de tanta ralação.

No 5 de Outubro, também acompanhava a minha mãe e os meus avós maternos na romaria à estátua de António José de Almeida. Mas aí eram os velhos republicanos que se juntavam e, mau grado a presença da polícia e algumas correrias, o ambiente era bem menos exaltado.

A pró-associação dos liceus

Frequentei três liceus: o Maria Amália, o Rainha D. Leonor e o D. João de Castro. No Maria Amália era objecto de perseguição por parte da Guardiola, professora de Religião e Moral, vigilante dos bons costumes, membro graduado da Mocidade Feminina. Do ponto de vista dela com razão pois eu, que não fora baptizada, gozava de dispensa das aulas de Religião e Moral, uma possibilidade prevista na lei e que a minha mãe não perdeu a oportunidade de accionar. Mas foi no D. Leonor que me integrei na pró-associação e passei a ir às reuniões da RIA (Reunião Inter-Associações) na Associação de Estudantes do Técnico. Consigo visualizar algumas pessoas que, duma forma ou doutra, fui encontrando nas lutas do antigo regime mas também do novo, uns mais outros mais distantes…Fernando Rosas, Filipe Rosas, Alfredo Caldeira, Jorge Sampaio... Por essa altura, teria entre os 15 e os 16 anos, as reuniões, as assembleias gerais, os plenários, os jornais de parede, toda aquela efervescência buliu comigo.

Os liceais colavam-se aos universitários e tudo se planeava na Associação dos Estudantes do Técnico. Se não ia lá todas as tardes, pouco menos seria. Não só os liceais de Lisboa se encontravam uns aos outros, como era ali que se aprendia. No D. João de Castro, no sexto e sétimo ano, já tínhamos mais iniciativa, fazíamos frente ao reitor José Hermano Saraiva. A frente foi tanta ou tão pouca que, a certa altura, ele tentou expulsar-nos começando por suspender alguns de nós: a mim, à minha amiga Ana Casquilho com quem tinha vindo do D. Leonor, ao Vítor Oliveira Jorge e ao Luís Filipe Castanheira Lopes. O objetivo dele era que perdêssemos o ano por faltas impedindo-nos de entrar na Faculdade. A minha mãe e a mãe da Ana foram ao liceu pôr “os pontos nos iis” ao Hermano Saraiva. Ignoro o teor da conversa mas fomos readmitidos com excepção do Castanheira Lopes. Ainda hoje não sei porquê.

Maria Luísa Cabral em 1967.

Estes anos anteriores à entrada na faculdade foram decisivos. As pessoas, as conversas, as horas esquecidas a ouvir long plays, a decifrar e a decorar as letras de intervenção em francês (a segunda língua de então), as leituras, os filmes no Cine Clube Universitário, ali à Alameda Afonso Henriques, enfim, todas as escolhas. E a minha mãe sempre atenta, impedindo que eu desleixasse os estudos. Primeiro os estudos, depois o activismo estudantil era a regra. Desde que eu a cumprisse, a liberdade era total.

Em 69/70, a ambiente aqueceu em Letras

Não me recordo muito bem quando comecei o activismo na pró-associação de Letras mas deve ter sido em 1968 já que antes a Pró-Associação estava em estado comatoso. A minha especialidade era a secção de propaganda, pintar cartazes, assegurar a tiragem de comunicados. Mas vem de 1967 o estabelecimento de laços de proximidade e solidariedade. Aquando das grandes inundações, os estudantes auto organizaram-se e foram ajudar. Experiência terrível, lembro-me bem de ir de carro até Alverca com o Jorge Silva Melo, o Luís Miguel Cintra. Depois, julgo que em 68, aparece o Grupo de Teatro de Letras, antecessor da Cornucópia, com a representação de “O Anfitrião” que nos marcou a todos pela inovação, pela qualidade da iniciativa, pela representação, pelos figurinos, inesquecível. De repente, o Anfiteatro 1 ficava repleto de gente, a faculdade tornava-se um local onde aconteciam coisas inesperadas, inspiradoras, extra-curriculares, que nos ajudavam a pensar e questionar, a estabelecer elos de solidariedade.

A determinada altura, na época 69/70, o ambiente estudantil aqueceu muito em Letras. Eu pertencia à Direção da Pró-Associação e, das lutas por questões de ordem curricular, rapidamente radicalizadas, assumiram contornos políticos, o governo agitou-se, a Assembleia Nacional também. Dezembro de 69 atinge o rubro, a corda estica, a Direcção da Pró-Associação é suspensa e, em resposta, a Faculdade entra em greve. Nem um aluno nas aulas. Esse confronto com as autoridades viria a terminar com a demissão de Hermano Saraiva. A contestação estudantil tinha como pano de fundo exigências de ordem curricular mas agudizou-se inesperadamente e politizou-se quando se descobriu que o professor catedrático de Germânicas, António Gonçalves Rodrigues, estava a montar um instituto particular de línguas tirando partido das fracas condições que a Faculdade oferecia, depois de montar para o efeito uma negociata com instalações e financiamento. A Direcção da Pró-Associação envolveu-se empenhadamente, eu estive muito activa e esta terá sido, porventura, a fase mais interessante e combativa da minha vida associativa.

À falta de melhor, a Direção da Pró-Associação e outros elementos da sua confiança, reunia à noite no meu quarto. Sentávamo-nos no chão e a minha mãe, por volta das 22h30/23h, trazia uma ceia. Preparávamos os dias seguintes, havia debate político, discutíamos o que era preciso fazer. Eu, o Paulo Mota Liz, a Anabela Baptista, o Zé Barreiros, a Maria da Encarnação Lopes, o Carlos Pessoa, o João Santa Clara, o João Serra … incrível! Estas reuniões produziam sempre um comunicado, feito numa máquina de escrever Underwood Portable do meu pai e que não estando identificada tornava muito difícil para a polícia descobrir a origem dos panfletos. As tarefas estavam cuidadosamente divididas. O Carlos saía mais cedo, ía dormir. Depois da reunião, eu ficava a bater o stencil. Só quem usou stencil percebe o alcance do que aqui registo. No final, enrolava-o (mas não muito para não partir a cera!) e sentava-me na beira da cama evitando adormecer à espera que o Carlos tocasse à porta, o que acontecia aí pelas 7 da manhã, para apanhar a cera. Ele tinha descoberto uma janela por onde conseguia entrar na Faculdade e passar à secção de propaganda, pondo a rotativa a trabalhar e imprimindo os comunicados. A produção e distribuição faziam-se, portanto, a partir do coração da Faculdade, iludindo a presença da polícia, dos gorilas, dos contínuos bufos.

Face ao ambiente, o ministro Hermano Saraiva decidiu suspender a Direção da Pró-Associação. A Faculdade respondeu entrando em greve e assim permaneceu durante quase três meses. Ninguém ia às aulas. Os protestos, as reuniões, os boicotes, as sessões culturais, como contribuíram para a politização dos estudantes! Quero recordar aquelas sessões em que o Miguel Serras Pereira declamava poesia. O Anfiteatro 1 era pequeno para ele, o entusiasmo explodia. Declamava Eugénio de Andrade com um tal sentimento que era impossível ficar indiferente. Momentos de emoção inesquecíveis.

Outubro de 69 foi de campanha eleitoral, uma farsa mas durante a qual se podia falar, distribuir alguma propaganda, organizar sessões públicas e muitas reuniões. Uma oportunidade que a oposição não deixou escapar. Alinhada com a CDE (Comissão Democrática Eleitoral), recordo episódios de “toca e foge” com a PIDE. Não esquecerei aquela noite em que pinchámos o viaduto de Entrecampos com nitrato de prata. Não só a pintura, mas a fuga Campo Pequeno fora com os baldes de nitrato de prata que não podiam ser entornados porque o nitrato é indelével como o azul de metileno, e sem poder regressar à sede da CDE (no Campo Pequeno a fazer esquina com a Avenida da República onde hoje fica o Santander) porque a PIDE tinha montado guarda. Nem a tarefa requeria muita elaboração nem o risco era colossal mas a tarefa tinha de ser executada e certamente não se esperava que fossem os grandes quadros a assumi-la. Era sobre a estudantada que recaíam estas incumbências. Mas, incumbência a incumbência, acabei mesmo a vigiar a mesa de voto em Alvalade onde Marcelo Caetano exerceu o seu direito de voto.

Recorte de jornal: Eleições, Outubro de 1969. Na parte superior esquerdada foto aprecem três mulheres: a de trás é a mãe de Maria Luísa Cabral que, por sua vez, aparece à sua frente.

Quando a PIDE levou o meu irmão

Em plena crise houve um grande comício na cantina da Cidade Universitária durante o qual o meu irmão, membro do MAESL (Movimento Associativo do Ensino Secundário de Lisboa) fez uma intervenção arrebatadora. A PIDE foi buscá-lo a casa na manhã seguinte e, não escondo, assustei-me. Ao clarear do dia, a nossa cadela começou a dar sinais de inquietação, a ganir baixinho. Pouco depois, bateram à porta. Foi o meu pai a abrir e ao ser confrontado com o agente da PIDE, chamou a minha mãe. A PIDE entrou, enquanto um pide fazia o auto de detenção com o meu pai, o outro vasculhou o quarto do meu irmão onde, num rodapé falso, a minha mãe tinha escondido Avantes. Eu tinha uma agenda com muitos dados, muitos nomes, que fui esconder no congelador, por trás das cuvetes de gelo. Grande ingenuidade! Depois, sentei-me na sala longe da vista dos pides, a tentar deixar de tremer, enquanto a minha mãe se mantinha de pé encostada à parede do rodapé falso. Um terceiro pide, mais encorpado, barrava a porta da casa de banho enquanto vigiava o meu irmão. Quando acalmei um pouco, fui até à porta da casa de banho, expliquei ao pide que queria lavar os dentes, entrei e consegui perguntar ao meu irmão se ele precisava de alguma coisa. Ele tirou do bolso do pijama uma soqueira, considerada uma arma branca, que escondi no bolso do meu roupão. A PIDE levou o meu irmão e manteve-o na António Maria Cardoso durante cerca de três semanas. O objectivo da PIDE era a intimidação o que conseguiu. O meu irmão era um miúdo, teria 16 anos, depois desse episódio nunca mais se voltou a meter em nenhuma atividade política. Creio que aquele momento foi decisivo na vida dele.

Em abril de 1969, tinha acontecido a intervenção de Alberto Martins em Coimbra. Já eram demasiados acontecimentos, Marcelo Caetano demite Hermano Saraiva, substituindo-o por Veiga Simão que mandou arquivar o processo contra a Direcção da Pró-Associação de Letras. Na Faculdade de Direito, a lista do Arnaldo Matos ganhou a Associação de Estudantes com uma lista que nos empolgava completamente subordinada ao mote “Ao trabalho”. Punha em causa toda a disciplina e seguidismo até aí reinantes e tão do agrado dos estudantes comunistas. De repente, outra força política, maoísta, a provocar o status quo. Em Letras, os dias eram agitados, as reuniões intermináveis, os plenários, as manobras que nem sempre eram desmontadas a tempo. Longos dias de uma aprendizagem interminável, surpreendente, e as intervenções de Jaime Gama ou de António Reis, os jogos de poder até então desconhecidos para a maior parte de nós.

Bater o recorde dos cem metros frente à polícia

Durante a crise académica de 69, fiquei uns dias em Coimbra, uma bela de uma experiência! Fui até Coimbra e…não voltei. Arranjei alojamento no Calhabé, em casa de uma pessoa mais ou menos conhecida da família e aceitei a oferta de uma escova de dentes, não tinha dinheiro nenhum. Nada que não se resolvesse depois da conversa telefónica para Lisboa com a minha mãe. Lembro-me de, nas ruas adjacentes à Praça da República e à Associação Académica, ver os jipes da polícia com arame farpado montado numa estrutura vertical sobre o capot a varrerem o passeio para afugentarem as pessoas. Felizmente, corria como um gamo mas o aparato era assustador. Enquanto fugia, só pensava encontrar um vão de escada onde me pudesse meter.

Recordo-me ainda de outra ocasião: uma manifestação contra a Guerra Colonial no Cais do Sodré. Fui para a faculdade de sapatos rasos, porque estava a par do programa da tarde. A Isabel Correia, colega minha de Moçambique, decidiu que queria ir. Olhei para ela e avisei-a que com sapatinhos de salto não era grande ideia ao que ela respondeu que não haveria problema. Acedi e acertámos que, se a coisa desse para o torto e se fosse preciso fugir, não ficaríamos à espera uma da outra. Quando a polícia de choque desembocou na Praça Duque da Terceira, vinda da Rua do Arsenal, e começa a investir, conseguimos passar para o lado da Avenida da Ribeira das Naus. Só me lembro de ver os polícias com as G3 a correrem para cima de nós. Ela disse-me para fugir, não conseguia fazê-lo com aqueles saltos altos. A última vez que olhei para trás testemunhei um polícia a carregar sobre a Isabel. Encostou-se a um muro para se proteger e foi atingida violentamente nas costas. Eu continuei a correr pela Ribeira das Naus e virei à direita para os barcos, pela gravilha. Não sei porquê, mas veio-me à ideia o desenho animado da Pantera Cor-de-Rosa e inverti repentinamente a corrida em direção ao Terreiro do Paço. À velocidade que o polícia ía, carregado com a arma, as botas, o capacete, não conseguiu travar e mudar de sentido para me apanhar. A minha mala de mão estava cheia de manifestos anticoloniais, portanto, só queria sair dali, senão, além de ser espancada, ainda era levada para a PIDE para explicar como tinha arranjado aqueles documentos. Assim que me assegurei que já não vinha ninguém atrás de mim, sentei-me num daqueles bancos virados para o Tejo, ganhei fôlego, larguei os papéis todos debaixo do banco e regressei a casa. Telefonei então à Isabel tendo ido visitá-la. Encontrei-a deitada, a gemer de dores, com as costas completamente negras. O namorado, que a barrava de unguentos para aliviar as dores, comentou: “Ouvi dizer que você hoje bateu o recorde dos 100 metros”. De facto.

A consciencialização para o problema da Guerra Colonial começou quando a mobilização de parentes e amigos nos bateu à porta. Fez-se quando todos os dias sabíamos de mais alguém que tinha dado o salto. Fez-se pela informação escrita que circulava entre nós. E ainda, para alguns de nós, pelo apoio e participação nas iniciativas do CIDAC (Centro de Informação Amílcar Cabral) onde o Luís Moita e a Luísa Teotónio Pereira desenvolviam grande actividade. Também pela participação em manifestações anticoloniais que eram convocadas por grupos m-l, inconciliáveis com o Partido Comunista. Embora não tivesse nenhuma ligação orgânica com aqueles grupos, quando era preciso, ajudava. O recorde dos 100 metros aconteceu num desses momentos.

Um começo de vida difícil

Com o objectivo de juntar uns dinheiros que me permitissem casar, em Outubro de 1970 fui para Alcácer do Sal dar aulas num colégio particular. Dei História e Geografia do 2º ciclo e Português ao 1º ano depois de aprazar com o director do colégio que eu não daria gramática, matéria cabalística para mim, mas garantiria a prática da leitura, interpretação e redacção. A gramática ficava para ele no 2º ano. Na casa onde aluguei um quarto, passava-se muita fome coisa de que nunca mais me esqueci. Três pessoas, partilhavam uma pescadinha marmota cozida. O equivalente ao que em Lisboa transformávamos em pescadinha de rabo-na-boca mas que, numa refeição normal, qualquer pessoa comeria duas ou três. Uma comparação para clarificar. Já o João foi dar aulas para o liceu em Castelo Branco. Vínhamos a Lisboa aos fins-de-semana e o João alternava com idas às Caldas da Rainha para visitar os pais. Quando casámos no Verão de 71 nenhum de nós tinha emprego o que tornou este começo de vida complicado. No final do Verão arranjei umas horas para gravar textos para o Serviço de Cegos da Biblioteca Nacional e comecei a frequentar o Curso de Arquivista-Bibliotecário. Na companhia do nosso amigo Jorge Guerreiro, procurávamos emprego para o João e para a Teresa, mulher do Jorge, enquanto os interessados iam aguentando os empregos que tinham. No Renault deles, que precisava de descansar de vez em quando porque o motor sobreaquecia (!), batemos os liceus de Lisboa à procura de horários de História para o João e para a Teresa. Conseguimos, ambos foram colocados.

O Padre Maximino, uma figura entre muitas outras

A lei previa que o curso de Arquivista-Bibliotecário fosse pago mas, na verdade, não era. Quando o ministro da Educação Veiga Simão veio visitar o curso considerado uma grande inovação, organizámo-nos e confrontámo-lo com o problema, falei em nome dos alunos. Conseguimos o pretendido, a partir daí começaram a pagar, inclusive os retroactivos. Eu e o João aproveitámos para comprar um carro, um Honda minúsculo. No ano seguinte, da escola de Campo de Ourique, o João mudou para o Liceu Padre António Vieira (1972-73), onde foi professor de estudantes cujo futuro nos surpreenderia e entre os quais me lembro de Santana Lopes, Francisco Louçã, Miguel Teotónio Pereira, Bernardo Vasconcelos e Sousa. Que experiência! Com esta colocação, ainda travámos conhecimento com o Padre Maximino ou o Octávio Quintela com quem se criaram laços de amizade. O convívio com o Padre Maximino constituía um desafio porque era uma personalidade muito informada e rebarbativa, muito engraçada e bem disposta. O assassinato do Padre Maximino, tão inesperado quanto violento, afectou-nos profundamente revelando uma direita inconformada, um sinal a ter presente.

O Francisco Louçã e o Miguel do Teotónio Pereira aproveitavam os sábados para visitarem o João e com ele discutirem política e reflectirem. Eu ficava estupefacta, os rapazes tinham 15 ou 16 anos. Não me juntava a eles, seria constrangedor, mas da cozinha não perdia pitada. A meio da tarde, o João aparecia na cozinha a perguntar se eu podia arranjar um lanche para os rapazes. Como os pacotes de bolachas de baunilha para o mês se evaporavam em poucos minutos!

Por essa altura, passávamos parte do Verão em Albufeira e houve um ou dois anos em que os pais do Louçã nos convidaram para um dia de praia com eles. Íamos num barco de borracha a partir da praia de Nossa Senhora da Rocha para uma daquelas praias com acesso exclusivo por mar. Longe de mim imaginar o futuro!

Comecei a trabalhar na Biblioteca Nacional

No Serviço para Cegos da Biblioteca Nacional, gravei muitas obras da Literatura Americana do Século XIX mas a minha especialidade eram as Crónicas da Guidinha do Sttau Monteiro. Muito difíceis de ler porque provocavam o riso (uma leitura para invisuais deve ser absolutamente neutral, a interpretação é feita pelos ouvintes), obrigando frequentemente a reiniciar e porque, não tendo pontuação, tinha de controlar a minha respiração sem o deixar perceber. Ganhava assim algum dinheiro enquanto utilizava a biblioteca e ainda conseguia estudar um pouco.

Recorte de jornal. Na imagem, Maria Luísa Cabral durante uma gravação no Serviço para Cegos, Biblioteca Nacional.

Em miúda aprendi a ler muito bem. Como era má aluna, a minha mãe obrigava-me a ler em voz alta, sentada a seu lado certificando-se que eu me mantinha concentrada. Quando a leitura se tornava monocórdica, mandava-me recomeçar. Também aperfeiçoei a leitura quando o meu avô materno cegou. Uma tarde por semana, ía ler-lhe O Século cujos artigos de fundo foram para mim uma escola. Se não estou errada, eram artigos assinados por Walter Lippmann e o meu avô distinguia pelo tom da minha voz se eu estava a perceber o que lia, ou não. Em caso negativo, tinha de recomeçar. Tarefa árdua para os meus 11-12 anos mas o meu avô não tolerava leituras monocórdicas nem distrações ou desculpas.

Entretanto, voltei à Faculdade (Outubro 1971), inscrevi-me no Seminário para terminar a licenciatura. Escolhi Arqueologia e o tema para a tese, o mais simples que encontrei: classificação de um conjunto de moedas romanas provenientes de uma estação arqueológica do Algarve. No Museu Nacional de Arqueologia facilitaram-me a vida, trouxe para casa um saquinho com moedas que classificava ao serão, uma estopada. A nível profissional, terminado o curso de Arquivista-Bibliotecário em Fevereiro 1973, comecei a trabalhar como eventual (pagamento a recibos) tendo passado pelo Arquivo Histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros (onde um dia me caíram no colo fotografias confidenciais do massacre de Wiriyamu), depois Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), hoje Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Perto do Natal de 1973, quando acordámos todos para a globalização com a crise do petróleo, candidatei-me ao Instituto de Alta Cultura (IAC). Tomei posse a 2 de janeiro de 1974, no mandato de Veiga Simão, tendo feito o juramento de que não era comunista. Foi, portanto, no IAC que comecei a carreira de bibliotecária, já no quadro, que terminaria em Julho de 2011.

Uns dias depois do 25 Abril, peguei nas moedas que estava a classificar, na bibliografia que tinha adquirido, nas fichas que já tinha feito, meti aquilo tudo num saco, apanhei um táxi e fui devolver e oferecer tudo ao Museu. O governo tinha determinado que o Seminário concluído concedia o grau de licenciado, eu não precisava de mais nada. O João estava mais ou menos na mesma situação, faltava-lhe fazer Paleografia, uma cadeira do terceiro ano. Fê-la de forma administrativa e atribuíram-lhe também o grau de licenciado.

A semana que virou as nossas vidas do avesso

O 25 de Abril foi o dia mais feliz e mais luminoso da minha vida. Tenho dificuldade em encontrar as palavras exactas para traduzir os sentimentos daquele dia. De madrugada, não sei que horas seriam, quando foram transmitidos os primeiros comunicados do MFA (Movimento da Forças Armadas), o telefone tocou. O João levantou-se para ir atender. Como o meu irmão estava mobilizado na guerra colonial, em Moçambique, sentei-me na cama e pensei: “Só pode ser uma notícia sobre o meu irmão, e não é boa!”. Fiquei nervosíssima, olhei para a porta, o João aproximou-se a coçar a cabeça e referiu que havia movimentação de tropas. Dei um salto e afirmei convicta “Só pode ser de esquerda!”. O João estava cauteloso. Liguei para a minha mãe, que ficou numa enorme excitação, e para duas amigas minhas grávidas, para terem cuidado com a confusão nas ruas. Na sala, colei-me à telefonia. Quando ouvi os comunicados do MFA e a música, reforcei a ideia que as movimentações só podiam ser de esquerda. Fui para a rua, da Estrada da Luz para o Saldanha e depois fui ter com a minha mãe. Quando caiu o Carmo, estávamos dentro do carro dela à porta da Suíça, com a telefonia ligada, olhos dirigidos para as ruínas do Carmo. Não tínhamos conseguido passar para a zona do Carmo e estávamos com dificuldades em estacionar o carro. A ansiedade ia num crescendo, as perguntas eram muitas mas em vão. Comprar os jornais ao fim do dia foi outro momento marcante a provar sem margem para dúvida a mudança em curso. As edições sucediam-se livres do exame da censura. Depois, a emoção em acompanhar os chaimites Avenida dos Estados Unidos da América fora. Quando começam a circular zuns-zuns pondo em dúvida o fim da Guerra Colonial, o choque foi tremendo. Entender o 25 de Abril, naquele momento, como um movimento contra a Guerra Colonial era tudo menos garantido e a primeira aparição da Junta de Salvação Nacional em directo na televisão nessa noite deixava sérias dúvidas. A primeira impressão ao olhar para aquele conjunto de militares, fardados, de óculos escuros, semblante fechado, era como uma reincarnação do passado mais odiado. Acabar com a guerra colonial foi, pois, uma conquista imposta ao 25 de Abril. Para quem tinha parentes próximos na guerra, como eu e a minha mãe, representava um passo decisivo, o regresso dos que nos eram queridos. E o fim da angústia para muitos, como o João, na fila de chamada para a tropa.

Como tudo evoluiu desde aquela madrugada! Não vivi nenhum dia, nem antes nem depois, tão importante quanto o 25 de Abril. Estar com a família e os amigos, participar, viver aquele dia na rua não interessa com quem, regressar a casa e ir para a cama a saber que o regime mudou, como é que se pode explicar isto a quem não o viveu?! Mesmo sem se perceber ainda como tudo iria evoluir, a confiança era ilimitada, nada parecia impossível, tínhamos tudo nas nossas mãos. Aquela semana, até ao 1º Maio, virou as nossas vidas do avesso, algo de absolutamente extraordinário começava a marcar o nosso quotidiano e o nosso futuro.

Aderi ao MES (Movimento de Esquerda Socialista) no seu início, empenhei-me na campanha presidencial de Otelo 1976, ajudei a fundar o GDUP das Pescas e o Alador, o nosso jornalinho, cumpriu. Quando o MES implodiu, abandonei qualquer activismo político. Demorei muitos anos até o retomar.


Maria Luísa Cabral em Dezembro de 2018.

Dados biográficos

Nasci em Lisboa (1946) onde ainda vivo, me formei e trabalhei.

Licenciatura em História (Fac. Letras Lisboa, Univ. Clássica, 1970), Pós Graduação em Arquivística e Biblioteconomia (Min. Educação, 1973), MA Library Management (Leeds Polytecnhic, UK, 1983), Mestre em Património (Univ. Nova Lisboa, 2008), Doutoramento em História Moderna (Univ. Nova Lisboa, 2013).

Arquivista (Arquivo Histórico Min. Negócios Estrangeiros, 1973), Bibliotecária (Junta Nac. Investigação Científica e Tecnológica, 1973 e Instituto Alta Cultura 1974-1975). Depois Bibliotecária Chefe no Instituto Nac. Investigação das Pescas (1975-1985), Bibliotecária no Instituto António Sérgio do Sector Cooperativo (1985), tendo transitado para a Biblioteca Nacional ainda em Agosto de 1985. Na Biblioteca Nacional, fui Coordenadora do Núcleo de Planeamento (1985), Subdirectora (1985-1991) e Directora de Serviços de Aquisições, Processamento e Conservação (1996-2007). Reformei-me em Julho 2011.

Entre 1985 e 1991, fui responsável pelo projecto de informatização (PORBASE) da Biblioteca Nacional, a primeira biblioteca portuguesa a ser informatizada, congregando a maior parte das bibliotecas portuguesas, e pela internacionalização da Biblioteca Nacional através da participação em numerosos projectos europeus e em grupos de trabalho internacionais dependentes de organizações profissionais e/ou de organismos europeus.

A partir de 1996, fui responsável pelo Plano de Preservação e Conservação modernizando esta vertente da Biblioteca Nacional, tornando a instituição em referência e escola no domínio da conservação e restauro do papel em território nacional.

Leccionei em vários cursos da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (1975-década de 90) e nas Fac. Letras de Lisboa, na Univ. Évora, na Fac. Letras da Univ. Porto e na Univ. Nova, Lisboa, até 2011.

Fui dirigente de organizações internacionais de bibliotecas nomeadamente a IFLA e a LIBER, dirigi publicações periódicas dessas associações e organizei reuniões internacionais das mesmas.

Publiquei amplamente em revistas nacionais e internacionais, traduzi e editei vários títulos, alguns em co-autoria, sendo da minha exclusiva responsabilidade os seguintes:
Bibliotecas, acesso sempre (Colibri, 1996)
Amanhã é sempre longe demais: crónicas de P&C (Gabinete de Estudos a&b, 2002)
Até Roma: uma viagem com devoção, longa e árdua (Biblioteca Nacional, 2011)
A Real Biblioteca e os seus criadores (Biblioteca Nacional, 2014).

Lisboa, 17 de Janeiro de 2019

 

Termos relacionados Mulheres de Abril, Sociedade
(...)