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Mulheres de Abril: Testemunho de Joana Terlica

A minha origem de classe e o ambiente em que passei a minha infância moldaram a minha visão do mundo. Desde cedo, os meus heróis foram todos aqueles que, lutando pela sobrevivência própria e da família, estenderam a solidariedade a muitos outros. Por Joana Terlica.
Joana Terlica e o seu filho.

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Nasci em Castro Verde, em 1952. Os meus pais trabalhavam como empregados numa alfaiataria. Naquela altura, o meu pai estudava, por correspondência, na Academia de Corte Maguidal, onde veio a diplomar-se como mestre alfaiate e, a partir daí, estabeleceu-se por conta própria.

A minha origem de classe e o ambiente em que passei a minha infância moldaram a minha visão do mundo. Desde cedo, os meus heróis foram todos aqueles que, lutando pela sobrevivência própria e da família, estenderam a solidariedade a muitos outros, conhecidos ou desconhecidos, que sabiam necessitados de auxílio. Em tempos de fome e desamparo, a solidariedade era, para muitos, um dever praticado em condições de grande dureza, arriscando a liberdade, arriscando a própria vida. E aqui entram os relatos de pessoas que haviam conseguido escapar à onda de fuzilamentos franquistas e que era preciso proteger e alimentar, debaixo de um rigoroso sigilo.    

Mulheres e homens que, possuindo nada mais que a sua força de trabalho e a sua dignidade, de cabeça erguida, conduziam a sua vida familiar nos princípios de entreajuda, lutando contra a ignorância, a dependência económica, a subserviência face à arrogância  dos poderosos  e procurando esquivar a miséria que permanentemente espreitava.

Gente valente, quase heroica, que, na calma aparente do seu dia a dia, ia lutando, resistindo e repartindo o precioso pão, em casa ou bem longe de casa. Gente serena e sofrida que sabia de solidariedade, ajudando quem mais precisava - fosse um fugitivo da ditadura de Franco a cujo esconderijo era preciso fazer chegar, noite dentro, um pouco de pão com conduto ou fosse reunindo alguns escudos para assistência aos familiares de presos políticos.

Total desamparo social, gente com muita força

O meu avô paterno, que ficou viúvo muito cedo, era mestre sapateiro e o meu avô materno trabalhador rural, à jorna. Quando a saúde lhes faltou e sem poderem trabalhar, ficaram dependentes da família, sem cuidados médicos para recuperação, sem reforma nem qualquer tipo de rendimento ou de apoio social.

Com cerca de quarenta anos e com quatro filhos por criar, a minha avó materna ficou só na gestão da casa de família, seis pessoas à mesa e um único adulto a trabalhar.

A casa de morada da família que ainda estava em processo de acabamento, permaneceu sempre incompleta, a partir da doença do meu avô. Na altura, havia um total desamparo em termos sociais. Não havia reformas, não existiam apoios na doença ou no desemprego. Quando muito, poderíamos pensar que haveria alguma pequena e amarga esmola... (mas, creio que nem isso, os ex-patrões, latifundiários desta região, não são adeptos da caridade cristã, nem especialmente tementes dos castigos divinos).

A minha avó sabia tecer, tecia mantas de lã e de retalhos, para vender, criava no quintal duas ou três espécies de animais - uma ou duas ovelhas com os seus borreguinhos, coelhos e galinhas. No quintal havia uma oliveira e uma parreira, talvez um ou outro pé de couve. Tudo ajudava nesta economia mínima. Desde antes do amanhecer, era preciso estar em actividade - acender o lume, preparar a comida para seis pessoas, cozer o pão de semana a semana, acarretar água desde o poço da vila, lavar as roupas, ir ao mercado comprar algum alimento. Casa e quintal varridos, tijoleiras lavadas, louças no seu lugar, camas bem feitas.

Joana Terlica com 3/4 anos e a avó materna.

A minha avó (nascida no século XIX) sabia ler e escrever, e tinha nisso muito orgulho. Contra todos os obstáculos, conseguira frequentar a escola, talvez a única de uma dezena de irmãos, obtendo, com distinção, o seu diploma do ensino primário. Ao longo da sua vida, valorizou educação, não se poupando a sacrifícios para garantir a máxima escolarização aos filhos, que, para o seu meio e estrato social, significava concluir o ensino primário. Os filhos, sempre integrados no seu agregado familiar, desde sempre ajudavam no desempenho de tarefas úteis e imprescindíveis ao dia a dia - recolher água, lenha ou alimento para os animais. Cedo terão começado a trabalhar nos campos, esporadicamente contratados, ao dia, para a apanha de azeitona, monda e ceifa, únicas actividades oferecidas nesta economia de latifúndio.

Concluída a escolaridade básica (elementar), era frequente que as famílias colocassem as suas crianças (com 11 ou 12 anos) numa oficina para aprenderem algum ofício - ferreiros, caldeireiros, carpinteiros, sapateiros, alfaiates. Foi deste modo que os meus pais se conheceram, crianças saídas da escola, aprendizes de alfaiate. Levavam de casa a sua cadeirinha, uma tesoura, agulhas e dedal, começando, assim, a vida de adultos - aprendizes, não remunerados, numa primeira fase.

Sempre os conheci empenhados num trabalho exigente, de artesão, peças únicas requerendo profissionalismo no corte e perfeição na execução. Costas curvadas horas e horas a fio. Durante largos anos, dias e dias, a inalar excesso de dióxido de carbono dos pesados ferros a carvão que tinham que manusear e estavam permanentemente acesos. 

Naquelas décadas de salazarismo e miséria não faltava trabalho nas quatro alfaiatarias da vila. Muito trabalho, por pouco dinheiro. As calças vincadas e um fato completo eram indumentária imprescindível a qualquer elemento do sexo masculino – desde o exame da quarta classe, à inspecção para recrutamento militar ou a fatiota de casamento. Qualquer acto público, oficial ou privado, obrigava à vestimenta única, formal e feita por medida.

Desta norma, estavam excluídas as mulheres. Curiosamente, para elas, era socialmente malvisto o uso de calças. Indo ao ponto de haver regulamentos que proibiam o seu uso, às meninas. Sobre este assunto, a situação mais marcante que vivi foi no Hospital de Faro, em 1959, onde fui com a minha mãe para tratar de intervenção cirúrgica às amigdalas. Seria hospital distrital, público, gerido por ordem religiosa. A enfermeira/administrativa coberta no seu longo hábito de freira dirigiu-se a mim, sem cumprimentos ou simpatia, apenas com ar reprovador: “Tu não tens vergonha de usar calças, sendo uma menina?”

Eu tinha sete anos e usava calças durante todo o inverno e não tinha com isso qualquer problema. Pelo contrário, sentia-me confortável. Não, não tinha de que ter vergonha.  Com aquela senhora de vestimenta comprida e complexa acabava de aprender que no mundo havia pessoas muito estranhas.

Aquela mulher pareceu-me má ou estúpida. Comentei com a minha mãe e, não sei se por aquele feio cartão de visita da instituição ou por outra razão, a minha mãe tratou da minha operação com um cirurgião, em clínica particular. Que pesadelo teria sido, ficar entregue a pessoas daquelas.

Gostar de ler e de ouvir ler. Gostar de conversar sobre o que se lê

Tanto na casa dos meus pais como na casa dos meus avós maternos, sempre se lia. Depois da jornada de trabalho, à luz do candeeiro a petróleo, a família reunia-se à volta de uma mesa redonda e um dos meus tios, lia em voz alta. Ainda hoje me lembro de ouvir partes de A lã e a neve, que retrata o quotidiano dos trabalhadores na Serra e na indústria dos lanifícios, na década de 1940.  De ouvido atento à narrativa, ia absorvendo os comentários que eram feitos pelos restantes ouvintes, sobre o paralelismo de situações e personagens retratados com outras do nosso quotidiano. Nesta família, o espírito crítico estava muito presente.

O meu pai havia sido preso, pela primeira vez, em 1947, nas grandes redadas de prisões de jovens organizados no MUD. Embora eu ainda não fosse nascida, desde sempre, me lembro dos relatos e comentários em torno da situação por ele vivida na prisão, referências aos inúmeros personagens que os meus pais citavam com admiração e, no meu dia-a-dia, se iam incorporando no meu imaginário com um selo de confiança outorgado pelos meus pais – Salgado Zenha, Júlio Pomar ou Mário Soares, Alberto e Mário Vilaça, Manuel Cabanas ...

No dia do meu aniversário, a PIDE levou o meu pai

Eu estava a completar os meus nove anos, em outubro de 1961. Estava na rua e vi os vampiros, os dois PIDES a aproximar-se da porta da alfaiataria, assim começa o filme na minha cabeça. Os episódios, algo rocambolescos, que se seguiram, com a busca e a apreensão de livros e documentos foram-me relatados pela minha mãe que, em corrida, se antecipou à chegada da polícia ao nosso domicílio. A nossa pequena casa de bairro camarário foi revirada de ponta a ponta e apreendidos livros, documentos e outros objectos pessoais.

Com a ajuda de uma vizinha amiga, a minha mãe tentou queimar alguns exemplares de jornais clandestinos – grande tentativa de fazer desaparecer o significativo número de exemplares dos ultrafinos Avante e Militante – boa tentativa, mas a PIDE levou a melhor, topou o cheiro e recuperou a papelada meio queimada que se tornou parte integrante e característica do processo que levou o meu pai a Tribunal Plenário.

Foram dias e noites de angústia. Não tínhamos notícias, mas eram conhecidos os procedimentos da PIDE e não tínhamos dúvidas que o meu pai estaria no isolamento, a ser interrogado, a ser maltratado.

Além do meu pai, foram presas mais duas pessoas amigas e residentes em Castro Verde. Mais de vinte dias de isolamento no Aljube, interrogatórios na António Maria Cardoso (sede da PIDE), tortura de sono e espancamento. Foram transferidos para o Reduto Norte da prisão de Caxias.  Sete meses de prisão, até ao julgamento que sentenciou a absolvição dos três réus. A minha mãe também foi interrogada pela PIDE, no posto da GNR de Castro Verde, mas não ficou detida.

Foto de Joana Terlica à esquerda e, ao lado, desenho de Joana feito por Alberto Lima Gomes, preso em Caxias, e oferecido a António Terlica.

Dias marcantes

Só em Dezembro de 1961 pudemos visitar o meu pai. Foi a primeira vez que vi Lisboa. A viagem entre a casa dos familiares que nos alojaram e o forte de Caxias (reduto Norte) implicava vários meios de transporte e uma longa caminhada a pé por veredas e descampados. Em pleno inverno, era frequente chover e os caminhos ficarem carregados de lama. Contudo, logo no primeiro dia, encontrámos muitos outros familiares de presos políticos que, como nós, se dirigiam para a visita. Rapidamente se estabeleceu comunicação entre todos. Nos dias que se seguiram aquele carreiro de pessoas carregadas de angústia e de sacos a chapinhar na lama havia-se transformado, aos meus olhos. O grupo era constituído quase exclusivamente de mulheres que se consideravam com simpatia. Conversava-se muito. Ao longo do caminho e nos longos minutos de espera pela abertura dos portões.

Conhecia o nome de todas aquelas pessoas, as suas histórias, o nome do seu familiar prisioneiro. Partilhávamos episódios e descrevíamos a brutalidade e as manhas da polícia, nos casos que nos haviam tocado.

Num daqueles dias, tivemos também uma experiência inédita – uma grande surpresa. Chegámos a Caxias e aquele grande portão de entrada estava rebentado, foi após a extraordinária fuga dos presos, no dia 4 de dezembro.

A fuga tinha sido um êxito, usando o potente automóvel blindado que Hitler oferecera a Salazar. Em escassos segundos, um número significativo de presos, altamente vigiados, havia-se escapulido mesmo nas barbas da polícia e dos guardas do Forte.  

Para nós houve uma profunda alegria, rejubilámos quando nos chegaram confirmações e pormenores. A partir daí, o controlo policial às visitas ficou, ainda, mais apertado.

Normalmente, a visita era feita em parlatórios separados por vidro, grade e um corredor de permeio. Atrás os guardas vigiavam, escutando as conversas.

Apenas no dia de Natal pudemos beneficiar da chamada visita em comum. Numa sala, gradeada e guardada, todos os presos daquela cela, recebiam, à mesma hora, as visitas dos respectivos familiares.

Esta visita foi a única em que pude aproximar-me do meu pai e o pude tocar, pudemos falar em proximidade.

Cá fora, conheci muita gente, os familiares dos outros presos, algumas das pessoas de Castro com quem nós não convivíamos muito, mas com quem, a partir daí, se formaram redes de solidariedade. Enfim, sentia que não estávamos sós. Aquela tenebrosa injustiça que tinha caído sobre a minha família era sofrida por muitas outras pessoas boas. Ao longo daqueles sete meses que durou a prisão do meu pai, a minha vida foi sacudida por emoções fortíssimas e enriquecida por uma imensidão de aprendizagens.

Desse Natal, dos meus nove anos, também lembro Lisboa com o brilho dos enfeites natalícios, árvores de natal vislumbradas através de algumas vidraças em casas bem iluminadas e no meu coração uma pesada angústia, sem lágrimas.

Durante os sete meses em que o meu pai esteve preso, a alfaiataria fechou. A minha mãe concluiu, até Dezembro, as obras que já estavam adiantadas. Depois, veio pedir emprego num alfaiate em Lisboa para poder garantir a nossa sobrevivência. Era preciso fazer face às despesas fixas, era preciso garantir o pagamento das rendas da oficina e da casa de habitação. Por outro lado, estando em Lisboa, a minha mãe tinha mais possibilidades de visitar o meu pai. Embora os meus pais não fossem formalmente casados, a minha mãe conseguiu uma autorização para o poder visitar. Ficou alojada em casa de pessoas amigas, em Lisboa, enquanto eu fui viver para a casa da minha avó materna, a dita casa de autoconstrução, inacabada.

Vizinhas e amigas, familiares mais ou menos próximas, aquelas que costumo designar de “boa gente, não indiferente”

Tenho muito orgulho nestas mulheres corajosas, trabalhadoras muito ciosas da sua dignidade. Da minha mãe, recordo a doçura e a abnegação, lutadora persistente e sem nada alardear. Da minha avó, recordo a força, as sentenças, as regras, a organização e a capacidade de decisão. Apesar dos quase sessenta anos que nos separavam, recordo-me imenso dela. Contava-me histórias do passado, coisas terríveis, que me faziam perceber que era uma pessoa muito forte. É muito complexo saber como construímos as nossas atitudes e posturas, mas creio que a minha avó teve um importante contributo para que me tornasse feminista.

Neste período em que o meu pai esteve preso, desenrolaram-se significativos acontecimentos políticos: a tomada de Goa pela União Indiana, em Dezembro de 1961 e que permitiu a libertação de um companheiro de cela, intelectual indiano com quem o meu pai criou laços de amizade e de grande admiração; a tentativa de tomada do Quartel de Beja; a fase inicial da luta nas colónias com o início das grandes mobilizações dos jovens portugueses para combater (morrer e matar) na guerra.

O julgamento do meu pai, António Terlica, e dos seus dois camaradas – Gilberto da Conceição Maruta e Joaquim Semião Baião, realizou-se em Maio de 1962. As nossas famílias viviam angustiadas na incerteza do veredicto do Tribunal Plenário – a possibilidade de condenação com aplicação de "medidas de segurança” era o cenário mais temido, já que tais medidas significavam poder permanecer indefinidamente nas mãos da PIDE. Assim, quando recebi o telegrama da minha mãe a anunciar que todos haviam sido absolvidos, senti uma alegria tão forte que me parecia poder voar.

Joana Terlica em Janeiro de 1962.

Uma vez em liberdade, os meus pais regressaram a Castro Verde retomando o seu trabalho na alfaiataria. O meu pai era um grande conversador, e ou longo de toda a vida, se referia às pessoas e episódios vividos na cadeia onde fez grandes amizades. Tinha a capacidade de escutar e aprender de pessoas que não tinham exactamente a sua visão do mundo. Tendo princípios e valores bem firmes, não era dogmático e era algo refractário a disciplinas partidárias. Na juventude, acreditou no estalinismo como o único caminho para a vitória da revolução e vitória sobre o nazismo. Posteriormente, veio a grande desilusão, os inacreditáveis relatos do que se passava na realidade da União Soviética. A queda dos ídolos é sempre dolorosa, para quem neles alguma vez acreditou.

Nos meus catorze ou quinze anos eu tomei contacto com amigos ditos M-L que liam e divulgavam a propaganda do partido comunista chinês, que tinham como ídolo máximo o “camarada” Mao e estavam firmemente convencidos da justeza da revolução cultural em marcha. Nessa altura, o meu pai falava longamente comigo, nada me proibindo, mas apelando ao relato do seu percurso, aos acontecimentos históricos e à minha reflexão crítica sobre os cultos de personalidades.

Tentava que não me tornasse uma fanática e pusesse as coisas em perspectiva. Dizia-me que não podíamos ser cegos e sectários, acreditando que só existem pessoas boas no partido x e pessoas más no partido y. Com 15-16 anos fui para Faro estudar. Em Castro, andei cinco anos num externato misto, até ao 5º ano. No último ano, houve um prémio, que já tinha sido atribuído no ano anterior. Foi criado por um benemérito, industrial de Amarante, e consistia numa determinada quantidade de libras de ouro, atribuída ao aluno que tivesse melhor resultado naquele ano. No ano anterior, fora atribuído à minha amiga Aurora Rodrigues. No meu ano, fui a contemplada. Isso permitiu-me pedir uma bolsa de estudo da Gulbenkian que me deu margem para ir continuar a estudar para fora, pagando o quarto e a alimentação.

A farsa das eleições

Com 16 anos, fui, então, para Faro. Fiquei em casa de uma senhora que era contínua. Viviam lá várias raparigas, das quais sou amiga, até hoje. Não se discutia política. Eu tinha a sensação de que vinha de uma bolha e que precisava de me proteger. Uma pessoa tem de saber viver na “clandestinidade”, sem se expor desnecessariamente. Há coisas que não se dizem. Estávamos em 68/69. Lembro-me que o meu pai não podia votar e que em Castro Verde só algumas pessoas, seguramente apoiantes do regime, é que podiam ir votar. Mas à Sra. contínua, como servidora do Estado, iam a casa, directamente, entregar o boletim de voto para votar na Assembleia Nacional, lista única. Entregavam-lhe o boletim de voto porque era uma servente do Estado e era preciso garantir papéis.

Quando me matriculei no Liceu escolhi Economia, por ter facilidade e gosto pela Matemática e pela História e acreditar que me daria melhor perspectiva de estudo das sociedades. Já no Liceu, era uma área que tinha bastantes rapazes. Tínhamos aulas em conjunto, rapazes e rapariga, tal como eu tinha no externato. Contudo, ali, éramos obrigados a sair da sala por diferentes corredores e usar escadas distintas. Os campos de recreio eram separados por altas redes. Para mim aquilo era muito esquisito. As meninas tinham bata branca. Já os rapazes não tinham bata. Não existia espaço de convívio comum entre rapazes e raparigas. Em Faro fiz amizades para a vida mas também era mais evidente, no Liceu, o reaccionarismo de alguns programas e das normas a que estávamos sujeitos. Criei, com uma das miúdas com quem vivia uma maior cumplicidade. Gostávamos ambas de ler, íamos buscar livros à biblioteca. Comecei a incutir-lhe as minhas ideias sobre política. Começámos a ter mais confiança, a comentar os acontecimentos. As nossas fontes de ânimo eram o suplemento semanal A Mosca, do Diário de Lisboa, que tinha sempre coisas muito interessantes, sempre contra o regime e com muito humor, que tínhamos de ler nas entrelinhas. Foi também o tempo do Zip Zip, de programas que já tinham um ar progressista. Em termos de literatura, eu estava em economia, portanto, não tinha qualquer abordagem. A minha amiga que estava em direito tinha literatura com um bom professor e partilhava comigo o que estava a dar. Havia um programa na televisão, do Joaquim Manuel Magalhães, sobre literatura que ajudou bastante à nossa formação. No meu último ano de Liceu, gerou-se uma onda bastante bonita. Organizou-se uma festa de final de curso com muito interesse. Outra acontecimento importante foi a mudança de Reitor. De uma pessoa rígida, passámos para um Reitor aberto, amável, culto, de uma bondade enorme. Era um homem de letras que fez a passagem a escrito de muitas das coisas do António Aleixo – o Professor Joaquim Magalhães. Foi tudo no último ano do Liceu. Creio que a queda da cadeira de Salazar possa ter tido alguma influência.

Entrada na Universidade - 1970

Em 1970, matriculei-me no primeiro ano de Economia, no ISCEF – Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, posteriormente designado por ISE e, actualmente, por ISEG.

Quando vim para Lisboa, no ano letivo de 70/71, entrei num ambiente de excepção. Foi fantástico. Económicas era uma casa arejada e inovadora nos métodos e na própria organização do ensino. Naquele ano estava a iniciar-se uma reforma do curso. Nada de livros únicos. Tínhamos textos de apoio diversificados, listas bibliográficas amplas. Possibilidades de formação de grupos de trabalho. Provas escritas de exame e possibilidade de realização de exames em prova oral. Naquela casa muito era contestado, havia frequentes RGA's [Reuniões Gerais de Alunos]... Fiquei pasmada com o à vontade dos estudantes mais velhos, com todo aquele frenesim. Era uma efervescência de gente. As associações de estudantes promoviam sessões de poesia antifascista e sessões de boa música. Era um paraíso. Como vim para Lisboa com as minhas amigas algarvias, tinha um núcleo de confiança. Contudo, nunca me senti segura para me incorporar no trabalho associativo, admirava o à vontade e as capacidades argumentativas daqueles líderes associativos, como o Ferro Rodrigues ou os irmãos Vasco e Francisco Cal, por exemplo. Eu era a menina que vinha da casinha inacabada, do Alentejo baixo. Quando consegui ir para a universidade, o meu pai disse-me: “Tu não te esqueças que és a primeira pessoa da nossa família a pôr um pé na universidade. És a neta do mestre Manuel sapateiro”. Portanto, eu também vinha condicionada pela minha origem de classe. Não tinha o à vontade e sabia o que me aconteceria se me envolvesse em lutas de grande exposição. Sabia o que tinha acontecido ao meu pai. A minha família não tinha a proeminência social para que alguém intercedesse por mim, para me tirarem das garras da PSP, PIDE, e por aí fora. Quem tinha alguma relevância social podia usar essa pressão. Um exemplo que o meu pai sempre referia era que, logo no MUD, quando foram presos, o tratamento que alguém como o Mário Soares teve foi totalmente diferente do tratamento dado aos pés descalços. Se a PIDE apanhava um desgraçado de um camponês esfacelavam-no. Se era um filho de um intelectual com capacidade para divulgar o caso, a situação já era diferente. Eu tinha noção disso, por isso tinha algumas reservas. Estava com eles mas protegia-me. Acabei por ser muito espectadora. Até àquela altura, ainda havia uma percentagem muito elevada de homens em Económicas e existiam intensas disputas entre a UEC [União dos Estudantes Comunistas], que eu já considerava revisionista, a linha dos ML, o MRPP [Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado], que era demasiado aguerrido... Reconhecíamos a tendência pelas palavras de ordem nos cartazes. O grupúsculo de ML's em que me integrava era ultra clandestino. Para mim, éramos “a linha justa”. Na altura, nem sequer sabia a designação do grupo a que pertencíamos. O que nos enquadrava na época eram as circunstâncias da vida. Calhou conhecer aquelas pessoas do ML e assim passaram a ser os bons. Tinha amigos do PCP de quem gostava. Tinha amigos católicos, alguns padres e outros ex-seminaristas, tinha alguma dificuldade em afastar as pessoas que sendo antifascistas não apresentassem “puro perfil” M-L.

Passagem por Paris

No período de verão de 1971, durante a interrupção das aulas, fui a Paris, conjuntamente com a minha mãe, para tentar uma possível mudança da vida dos meus pais. Lá trabalhámos durante alguns meses. Nessa viagem, tivemos o apoio de pessoas amigas que nos ofereceram alojamento. Entre essas pessoas, existiam membros do PCP, que tentaram recrutar-me. Recusei. Já estava muito imbuída de marxismo dito ML. O que não quer dizer que não reconhecesse a qualidade de toda aquela gente, que estava a fazer trabalho nas fábricas da Renault, em Boulogne-Billancourt.

Nessa estadia em Paris tive o privilégio de poder participar na grandiosa manifestação convocada pela libertação de Ângela Davis. Foi lindo! Paris estava cheia, foi maravilhoso! O meu espanto ao ver que a polícia estava a ajudar a regularizar o trânsito, não estávamos ali a ser zurzidos! Numa marcha encabeçada por grandes nomes das letras e cultura francesa a exigir a liberdade daquela negra, intelectual proeminente e lutadora pelos direitos cívicos. Só graças às amplas manifestações e mobilização internacional ela viria a ser libertada.

A questão colonial era o centro da nossa luta

De regresso a Lisboa e retomando o estudo de Economia.

Tínhamos colegas e amigos oriundos das colónias que veiculavam informação mais actual e fidedigna sobre a situação nos territórios em guerra. Por outro lado, o espectro da mobilização para a guerra era o pesadelo maior da nossa geração.

Nesta importante questão havia divergência entre a posição que se dizia ser do PCP, que advogaria a importância de participar na guerra, desenvolvendo trabalho político no terreno, junto dos soldados, e, do outro lado, a posição daqueles que se esforçavam por organizar todo o apoio à fuga ao embarque e ajudavam na travessia das fronteiras aqueles que se viam forçados ao exílio.

Fotografia de Joana Terlica tirada em 16 de Maio de 1972, antes de ser espancada pela polícia de choque.

As sessões de esclarecimento e ”meetings” sobre a questão colonial eram, por vezes, convocados para espaços nas faculdades. Foi o que aconteceu em 16 de Maio de 1972, quando tendo sido encerrado o Instituto Superior Técnico, o encontro foi transferido para Económicas. Antes da hora prevista para o evento, a polícia de choque cercou as instalações e os portões foram fechados. Os muitos estudantes que se encontravam no espaço aberto do Instituto não se contiveram e invectivaram a polícia gritando palavras de ordem contra a guerra. A polícia forçou a entrada e acompanhada de cães e bastões espancou todos os estudantes que encontrou pelo caminho até ao interior do edifício nas salas reservadas a docentes e à direcção. Entrou na cantina e espancou brutalmente quem se encontrava por lá. Eu que não tinha conseguido fugir na leva dos que se abrigaram no interior do edifício (tinha partido a tira de um dos sapatos) presenciei a sanha com que a polícia actuava, deixando dezenas de feridos a sangrar. Fiquei histérica. Tinha uns sapatitos  sem tira e sentia que não estava em condições de fugir. A minha revolta era tanta que comecei a chamá-los de “bandidos” e “assassinos”. Via as pessoas a cair e a sangrar por todo o lado. A polícia não parava. Os colegas que conseguiram fugir foram para dentro do edifício. Algumas pessoas perseguidas pela polícia atiraram-se por um saguão entre Económicas e o Quelhas, onde funcionava a Emissora Nacional. Um deles ficou muito mal. Com o meu histerismo, fiquei imóvel próximo da porta, mas sem me calar. Um deles agarrou-me pelo braço e levou-me à pancada – fiquei com o braço e partes do corpo completamente pisados. Pôs-me fora do recinto. Continuei a gritar à porta “bandidos” e “assassinos”. Tinha a sensação que parte da minha nádega estava descolada do osso, de tantas dores que sentia. Mas não fui a nenhuma clínica, por receio de ser presa. Foram meses de raiva. Na altura, a polícia entrou até à sala do Senado onde estavam professores, como Francisco Pereira de Moura, e o próprio diretor. Aquilo foi uma coisa horrível. As pessoas acolheram-se lá para escaparam da polícia. Partiram-se vidros com a pressão de tantas pessoas. Na sequência desse episódio, Económicas encerrou durante bastante tempo.

Lembro-me também de ir a uma manifestação do 1ª de Maio com a Aurora Rodrigues. Descemos as escadinhas do Duque e fomos até aos Restauradores, onde integrámos a manifestação. A polícia investiu com os cães, os cassetetes e os canhões de água. Cada uma fugiu para o seu lado. Ela estava ligada ao MRPP. Em Direito, a força do MRPP estava muito mais consolidada.

Comecei a trabalhar no terceiro ano de Economia 1972-73

Naqueles tempos de propagandeada “abertura marcelista”, em Económicas, como em algumas outras faculdades, era imprevisível saber como correriam os períodos lectivos. Por ordem política, executada por forças policiais, as Faculdades e Institutos eram encerrados. Por vezes, ficávamos sem aulas três, quatro, ou cinco meses. Eu estava a viver da bolsa de estudo. Se não tivesse aproveitamento de nível bom, perdia o direito à bolsa. Comecei, então, a procurar emprego. A minha primeira actividade foi numa sala de estudo na Igreja da Graça. Um dos meus colegas de curso era padre naquela Igreja e propôs-me aquele trabalho, em tempo parcial, na ocupação de tempos livres de alunos do ensino primário.

Em Outubro de 1972, teve lugar o assassinato do estudante José António Ribeiro Santos, morto a tiro pela PIDE nas instalações do ISE, no anfiteatro onde se realizava reunião de estudantes de diferentes cursos. Foi um acontecimento muito dramático que pôs a nu a hipocrisia do regime que se apresentava de falinhas mansas nas sonsas “conversas em família”. A arrogância e impunidade da polícia política que não hesitava em exercer toda a sua brutalidade contra o movimento estudantil.

Não estive presente naqueles acontecimentos que se desencadearam no ISE. Estive, sim, na manifestação de pesar, homenagem e revolta em que se transformou o funeral do estudante assassinado.

Em Outubro de 1973, iniciei trabalho como professora provisória, no Ensino Preparatório. Matriculada no quarto ano de Economia, continuava a estudar. Desenvolvia, ainda, algum trabalho em duas colectividades populares – na Filarmónica da Amadora, onde então residia, e na Brandoa, com actividades (cinema) para crianças.

A elaboração e distribuição de panfletos em que colaborei, nesta fase, era feita de forma bastante rudimentar – os meios de reprodução de que dispúnhamos eram, por vezes, quase artesanais. A melhor peça que tive por perto foi um duplicador a “stencil” peça que vivia devidamente instalada debaixo de mesa camilha, coberta de boa toalha decorativa.

Quanto à distribuição de panfletos antifascistas e contra a guerra colonial, lembro-me de ter sido contactada por uma colega e amiga para participar numa distribuição nocturna, missão que cumprimos a pares, em bairro degradado da zona da Damaia. Como não estava, ainda, formalmente vinculada a uma organização tinha liberdade para colaborar em qualquer acção que considerasse justa e para a qual fosse convocada.

A notícia do golpe de 25 de Abril de 1974 apanhou-me à saída de casa para mais um dia de trabalho, um dia de aulas na Escola Roque Gameiro.

Desconhecedores do sentido do Golpe, ficámos receosos de que fossem os “reaças”. Esperámos para ver o que acontecia. No dia 25 de Abril fiquei por ali, agarrada à rádio, com o coração aos saltos. Os nossos presos estavam em Peniche: o Chico Martins, o Francisco Martins Rodrigues, os D'Espiney... Foram os últimos a serem libertados, já que no processo deles constava a morte de um PIDE. Como na altura não tínhamos carro, fomos na motoreta do meu companheiro para Peniche na noite em que eles foram libertados (26 ou 27 de Abril). Foi uma coisa delirante! As manifestações do 1º de Maio também foram espantosas, mas lembro-me de ter sempre a sensação de não entender onde estava aquela gente toda antes do 25 de Abril. As pessoas, a esmagadora maioria das pessoas, estavam sufocadas a ver a bola e só pensavam na sua vidinha.

Nas pequenas localidades, onde as pessoas se conhecem de toda uma vida, a questão ainda pode ser mais chocante. Da noite para o dia, emergem inúmeros figurões, até então apáticos ou manhosos que agarram na bandeira mais promissora, põem um autocolante na testa a proclamarem-se revolucionários e, em terras como a minha, inscrevem-se no PCP. Gente oportunista a cavalgar a onda. Este é o lado B da nossa Alegria.

E o lado Tenebroso foi sempre a impunidade da PIDE - continuaram a circular livremente. Não houve autêntico julgamento - o perdão dos torcionários foi imposto através do manhoso silenciamento dos seus crimes. As leis que, pela calada permitem agraciar, remunerar, subvencionar, Pides e respectivas famílias são a ofensa máxima àquelas famílias que tanto sofreram às suas mãos.

Depois de Abril de 1974 – muita euforia, trabalho esgotante

Tempos de alegria e de esperança, mas tempos de alerta permanente. No meio de uma actividade frenética, vem o confronto com a realidade. Os PIDES à solta, os bombistas a assaltarem sedes de esquerda e a matarem gente boa. Desde a criação da UDP que me integrei no trabalho partidário, ao nível do PCP(R) como da UDP.

Continuo a trabalhar como professora, no ensino preparatório e, a partir de 77, no secundário. Continuo a frequentar as aulas no ISE, até à conclusão da licenciatura, em 76. Ano em que nasce o meu primeiro filho.

Joana Terlica e o seu filho.

Trabalho político continuado, actividades de rua – venda de jornais e distribuição de panfletos junto das fábricas e nas estações de caminho de ferro. Reuniões pós-laborais, reuniões ao fim de semana. Fazer cartazes e colar cartazes. Limpar a sede e fazer permanências na sede – em dias de alerta, vigilância nocturna.

Neste período revolucionário, a diferença de papéis entre homem e mulher era subtilmente ignorada nas fileiras da organização em que me integrei. Só aparentemente, havia igualdade plena.

A diferença de classes é que seria decisiva na interpretação das acções e a luta de classes, considerada o único motor da história, estava à frente de tudo. Foram frequentes as “proletarizações” de vários camaradas como fórmula facilitadora de maior reconhecimento no grupo e mais fácil acesso a funções de maior responsabilidade.

Frequentemente, eram os camaradas (homens) que tinham mais responsabilidades políticas, missões mais duras e perigosas, mais reuniões de “alto nível”, enfim, coisas importantes que os dispensavam das rotinas do dia a dia e da criação dos filhos.

“Mais um filho e a mulher que o carregue...”

Casamento, casa e maternidade, sobre um dia-a-dia triplamente preenchido pela política, estudo e trabalho profissional, era desgastante para qualquer pessoa. Com mais frequência eram elas as “acumuladoras” das tarefinhas.


Joana Terlica e o seu cão Kiko, Abril de 2019.

Também naquele meio em que se trabalhava para a construção de um mundo mais solidário e mais igualitário, a indiferença perante as dificuldades era frequente. O homem estava muito mais livre para oferecer tempo à actividade política e ao partido, tivesse filhos ou não, fosse casado ou solteiro. A prioridade ao trabalho partidário podia ser uma bonita maneira de se esquivar à preparação de refeições em família, de preparar as roupas, dar banho aos filhos, limpar e arrumar a casa. As infindáveis reuniões políticas em que se faziam propostas, e debatia e se deliberava até alta madrugada, não se adequavam a quem tivesse obrigações inadiáveis, tanto profissionais como de cuidados a familiares dependentes, séniores ou crianças. Recordarei sempre o sufoco das horas e horas em que permanecíamos envolvidos por uma densa nuvem de fumo das dezenas de cigarros fumados continuamente. Havia uma total falta de sensibilidade para o caso de estar presente uma camarada grávida ou mesmo um bebé.

Um eufórico exercício da maravilhosa liberdade individual, sem dúvida.

A minha desvinculação como militante deu-se por volta 1978.

Em 1978 o aborto ainda era criminalizado. Continuava a praticar-se de forma clandestina

Vivi uma situação de gravidez em que nas primeiras semanas de gestação (desconhecendo que estava grávida) fui submetida a exames de raios X, o feto tinha uma elevadíssima probabilidade de lesões profundas no sistema nervoso central. Mediante a apresentação do quadro apresentado pelo médico, optou-se por fazer uma interrupção da gravidez.

Uma via sacra, encontrar quem, arriscando a sua segurança, realizasse o aborto; arranjar a elevado quantia a pagar, sem testemunhas; ser deixada sozinha nas imediações da casa onde a intervenção tinha lugar; pagar primeiro e ficar nas mãos de alguém que nunca antes se havia visto. Tudo eram dificuldades. Racionalmente, considerava que a interrupção daquela gravidez era a decisão certa. Ia determinada para a operação. Contudo, as circunstâncias carregaram-me de medos e desamparo. Foi uma má experiência.


Joana Terlica, Abril de 2019.

A despenalização do aborto merecia um quadro legal que as mulheres da minha geração acreditaram que seria rapidamente instaurado. Contudo, foi mais uma justa luta que tardou a ser encarada com seriedade pelo poder político. Continuou a manter-se uma situação de hipocrisia social e a sujeição de gerações sucessivas de mulheres a uma situação degradante.

Até determinada altura da minha vida, considerei que a questão da desigualdade de género, sendo real, não era uma questão muito relevante. Contudo, a vida encarregou-se de me mostrar como eu estava errada. É uma marca indelével que, se não tomamos consciência, nos vai corroendo ou, pelo contrário, nos aguilhoa para estarmos em alerta permanente na defesa da nossa identidade, do nosso espaço, da nossa vida como seres humanos autónomos.

A minha passagem pelo interior de um partido político, pelo trabalho sindical, como delegada, por uma associação de professores como dirigente e integrante de estrutura interassociativa, durante vários anos, acrescentaram uma mais ampla perspectiva à minha vida, aprendendo sempre muito nas interacções sociais que nestas circunstâncias sempre se desencadeiam.

A política continua, sempre, a interessar-me. Talvez fruto do avançar na idade ou dos ares destes dias, não só me interessa a política, como me preocupa o generalizado desinteresse pela política.

Memória, Educação e Política são imprescindíveis à nossa vida como seres humanos, creio.


Breves Notas biográficas:
Data de nascimento: 10/10/52
Natural de: Castro Verde
Actividade profissional ligada ao ensino e educação.
Início: 1973/74 professora provisória
Conclusão da licenciatura em Economia: 1975/76
Estágio pedagógico: 1977/78
Acompanhamento da formação contínua de professores, ao longo de vários anos.
Destacamento no Gabinete de Estudos e Planeamento, ME: 1988/89
Coautoria de dois estudos sobre formação inicial de docentes.
Pós graduação em Gestão de Recursos Humanos (ISG).
Destacamento na Direcção Geral do Ensino Básico e Secundário, acompanhamento da reforma curricular e coordenação do Gabinete do 7ºGrupo (Economia).
Membro do CNEES [Conselho Nacional de Exames do Ensino Secundário], em representação do 7ºGrupo.
Parte lectiva do Mestrado em Sociologia Económica e das Organizações (ISEG)
Membro do SIAP, em representação a associação de professores de ciências económico-sociais.
Membro do Conselho Nacional de Educação como representante das Associações Pedagógicas de Professores.
Docente do quadro permanente na Escola Secundária da Quinta do Marquês (430), até à data da minha reforma que antecipei, em 2009.

Termos relacionados Mulheres de Abril, Sociedade
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