José Martins Júnior faleceu esta quinta-feira aos 86 anos.
Nascido em Machico, a 16 de novembro de 1938, foi ordenado padre a 15 de Agosto de 1962. Foi também professor em várias escolas e capelão durante dois anos na guerra colonial.
Uma voz incómoda para o ultra-conservadorismo
Em 1969 será nomeado pároco da Ribeira Seca. O seu empenho social enfrentará o conservadorismo da Igreja local. O que leva até a 5 de novembro de 1974 o bispo do Funchal, Francisco Antunes Santana, a ordenar a polícia que o expulsasse da sua paróquia. O povo de Ribeira Seca irá durante mais de duas semanas impedir a ação policial. Continuará oficialmente à frente desta paróquia até ser suspenso pelo mesmo bispo. Apesar disso, mantendo o apoio do povo, vai continuar a celebrar missas.
O bispo seguinte, Teodoro Faria de Alberto João Jardim, vai ordenar novamente que a polícia intervenha. A 27 de Fevereiro de 1985, 40 polícias ocuparam a igreja da Ribeira Seca e a casa paroquial. O padre Martins continuou a celebrar missas no campo.
O Ministério, em 1991, o Ministério Público instaura-lhe por isso um processo crime por “abuso de designação, sinal ou uniforme”. A outubro de 2001, a mesma acusação é repetida pelo Procurador da República Orlando Ventura. O julgamento, em julho de 2008, acaba por ser suspenso porque a acusação se baseava num artigo da Concordata que tinha deixado de existir.
Mais recentemente, em junho de 2019, o bispo do Funchal Nuno Brás levanta uma suspensão que durou 42 anos.
A diocese lançou uma nota na sequência do falecimento em que considera que este “foi um sacerdote que, ao longo da sua vida, defendeu o seu projeto para a Madeira e para o povo madeirense, e no qual muitos se reviram” e saúda “a sua vontade de regresso à comunhão eclesial em 2019, bem como a transição pacífica realizada na paróquia da Ribeira Seca”.
Uma vida de luta pela justiça social
Ao mesmo tempo, tem uma intensa intervenção cultural e política. Depois do 25 de Abril, funda organizações como o “Centro de Informação Popular”, a “União das Bordadeiras” e a “Cooperativa Povo Unido”. Mais tarde, fundou o Grupo de Folclore do Porto Santo, a Tuna de Câmara de Machico e o Grupo "Cantares da Ribeira", tendo estado ainda envolvido em muitos mais projetos cívicos e culturais como o lançamento dos álbuns musicais ‘Machico, Terra de Abril’ (2004), ‘Viva a Vida!’ (2008) e ‘Terra da Minha Saudade’ (2012)”,
Chegou a ser presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Machico, no período antes das primeiras eleições autárquicas. Em 1989, candidata-se a esta autarquia pela União Democrática Popular tendo vencido. Volta a vencer em 1993 mas desta vez à frente de uma lista do Partido Socialista.
Para além disso, foi eleito sete vezes deputado regional na Madeira. Num primeiro período, entre 1976 e 1988 pela UDP, depois entre 1996 e 2008 pelo PS.
O município do Machico decretou três dias de luto numa nota em que lamenta “profundamente a partida do Pe. José Martins Júnior, que foi um líder incontornável, pensador, padre, orador, músico, político, mestre – uma figura insubstituível que deixa um legado imensurável na vida e na História do povo de Machico, do arquipélago da Madeira e de Portugal.”
"Que o exemplo do Padre Martins continue a inspirar quem, na Madeira e fora dela, se recusa a desistir da dignidade, da justiça e da Liberdade"
O Bloco de Esquerda da Madeira também manifestou o seu “profundo pesar” pelo falecimento do Padre Martins Júnior. Numa nota à imprensa, considerou-o uma “figura incontornável da vida pública madeirense, cuja ação ultrapassou largamente os limites da pastoral religiosa”.
Realçou como durante décadas foi “um exemplo de coragem cívica e de compromisso” com a Liberdade que com “a sua voz, firme e incómoda para os poderes instituídos, ergueu-se sempre em defesa dos Madeirenses e contra todas as formas de opressão”.
O partido escreve que “num arquipélago onde o silêncio muitas vezes se impôs como regra, o Padre Martins escolheu a palavra livre como forma de resistência e solidariedade. Foi um nome marcante na construção de uma consciência social crítica e atenta na Madeira, intervindo com lucidez em debates públicos e nunca se deixando domesticar pelas conveniências políticas ou institucionais. O seu legado é também político, no sentido mais nobre do termo: o da intervenção consequente e ética na vida de todos os Madeirenses”.
Nesta tomada de posição, o Bloco de Esquerda da Madeira presta homenagem à sua memória e transmite sentidas condolências à sua família, amigos e a todos os que com ele, partilharam lutas por um mundo mais justo e solidário. Escrevendo ainda: “ue o exemplo do Padre Martins continue a inspirar quem, na Madeira e fora dela, se recusa a desistir da dignidade, da justiça e da Liberdade”.
O Bloco de Esquerda ao nível nacional e o Esquerda.net associam-se a esta homenagem.