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Morreu José Manuel Esperto, uma vida de combate

Morreu José Manuel Esperto, 88 de idade, enfermeiro. Residia há bastantes anos no Montijo. Foram intensos e ricos os caminhos de vida e de luta que percorreu. Por João Madeira.
José Manuel Esperto – Foto retirada da página do facebook de A Comuna (https://www.facebook.com/AComuna/)
José Manuel Esperto – Foto retirada da página do facebook de A Comuna (https://www.facebook.com/AComuna/)

Nasceu em Grândola, a 25 de Janeiro de 1932, vila onde laborava uma indústria corticeira de pequenas fábricas e fabricos.

Como a generalidade das crianças de famílias operárias, andou descalço até aos 12 anos, altura em que, com distinção, concluiu os primeiros estudos.

Jovem operário corticeiro

Tornou-se cedo operário corticeiro. Tinha 12-13 anos. Começou por ganhar vinte e cinco tostões por dia. E cedo ganhou consciência da exploração vivida na fábrica e da opressão sentida na vila. Nunca esqueceu o valor da solidariedade que os jovens de Grândola lhe manifestaram, quando aos 18 anos, por efeito da exposição ao pó da cortiça, teve a primeira crise de suberose. A solidariedade operária em Grândola, como em muitas localidades era activa, fosse em relação às famílias dos presos políticos fosse em relação aos trabalhadores doentes num tempo em que não havia quaisquer mecanismos estatais decentes de protecção social, como foi o seu caso.

Por essa altura frequentava a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, a “Música Velha”, onde tocou barítono e frequentou a biblioteca, e acompanhou a fundação do Clube Desportivo Grandolense, assim como ajudou a fundar o Comércio e Indústria. Os jovens que frequentavam essas colectividades constituíam “Os Amigos da Cultura”, um grupo informal que chegou a ter cerca de 100 jovens e que era alimentado pelo Movimento de Unidade Democrática Juvenil, o MUD Juvenil, uma organização nacional promovida e apoiada pelo PCP.

José Manuel Esperto aderiu ainda muito jovem ao MUD Juvenil. Foi preso pela primeira vez em 8 de Dezembro de 1952, tinha 20 anos. Na manhã desse dia, recolhia com outros jovens pelas ruas da vila, assinaturas em defesa da paz, uma das muitas iniciativas promovidas pelo MUD Juvenil naqueles tempos de guerra fria. A GNR interpela-os e prende seis deles, um é José Esperto, como era conhecido. A população concentra-se frente ao quartel. São centenas. Reclamam a libertação dos jovens e desfilam em manifestação pelas ruas estreitas da localidade. A cavalo e de sabre desembainhado, a Guarda persegue-os e reprime impiedosamente. São feitas mais 21 prisões.

Desses, 13 são transferidos para Lisboa, para a cadeia do Aljube. São quase todos jovens. Têm entre 19 e 25 anos. São sapateiros, empregados no comércio, corticeiros, barbeiros. Isolados, metidos nos curros, pequenas celas individuais de dois metros por um, fechadas com portas de ferro, onde a única abertura é um postigo minúsculo raramente aberto e, dentro, um bailique basculante a servir de catre. É daí que após meses de isolamento total, são levados à sede da PIDE para os interrogatórios. José Manuel Esperto é vilipendiado e espancado.

Do Aljube são enviados para o forte de Caxias, colocados numa sala colectiva, a aguardar julgamento. São seis meses de intenso convívio com outros presos, onde funcionam cursos de alfabetização, de línguas e de outras matérias. É a “universidade” de Caxias, um microcosmos de solidariedade, onde, a par da formação pessoal, presos políticos antifascistas de diferentes condições sociais se desenvolvem e consolidam cultural e politicamente. José Manuel Esperto é libertado em 20 de Junho de 1953. Levado a tribunal é condenado a 15 dias de prisão. Mas já tinha cumprido efectivamente mais de seis meses.

De Grândola a Lisboa

Quando regressa a Grândola é já militante do PCP. Casa e nasce-lhe o primeiro filho. Integra nesta altura o Comité Local de Grândola, controla um vasto grupo de simpatizantes, distribui a imprensa partidária e são reuniões de noites inteiras, apresentando-se invariavelmente às 8 da manhã de cada dia ao trabalho na fábrica. Participa na campanha presidencial de 1958. Apoia Arlindo Vicente, mas percebe o entusiástico apoio popular em torno do Humberto Delgado. Com a desistência daquele, lança-se no apoio ao general Delgado, candidato único da Oposição, preparando a sua recepção em Grândola. São centenas de pessoas nas ruas a ouvir o candidato.

Acometido de novas crises de suberose, referenciado pela PIDE, apesar das habilitações elementares de que dispunha sujeita-se ainda em 1959 a uma prova para admissão na Escola de Enfermagem Artur Ravara e é aceite. Apenas com uma magra bolsa de mérito proporcionada pela escola e a trabalhar à noite numa clínica, conclui o curso com distinção. Porém, quando concorre a um lugar de quadro nos Hospitais Civis de Lisboa, é-lhe vedado o acesso por determinação da PIDE. Subsiste graças à solidariedade de um camarada que lhe proporciona trabalho informal como enfermeiro particular.

Nesta fase mantém a ligação ao PCP e já como estagiário de enfermagem nos Hospitais Civis de Lisboa integra o organismo de direcção dos enfermeiros do Comité Local de Lisboa do PCP. Vive as grandes jornadas do 1º de Maio de 1962 em Lisboa, momento em que entre muitos quadros e militantes do PCP se critica a direcção do partido e se desenvolve a ideia de que o regime só cairá de forma violenta.

Volta a ser preso em 18 de Dezembro de 1962, transferido para o forte de Caxias, submetido à tortura do sono durante dozes dias e doze noites consecutivas, é libertado em 8 de Junho de 1963. Durante o tempo de prisão entra em divergência com a organização partidária e de novo em liberdade, numa altura em que se abateram sobre o PCP fortes cargas repressivas, em que são presos muitos dirigentes e desmanteladas organizações, José Manuel Esperto suspende actividade por precaução conspirativa, ainda assim a PIDE ronda-lhe os passos e procura prendê-lo em casa, mas não o encontra.

Do longo exílio em Paris ao 25 de Abril

É então que, em 1966 parte para Paris, onde se mantém, exilado, até ao derrube da ditadura em 1974, trabalhando sempre como enfermeiro. Já fora do PCP, em divergência, vive o Maio de 68 francês, aproxima-se de elementos, alguns de Grândola, emigrantes económicos uns, exilados e desertores do exército colonial outros, fundando em finais de 1968 o grupo O Comunista, que se reclama do marxismo-leninismo e defende a via revolucionária armada para o derrube do fascismo em Portugal e que constitui núcleos quer em França, principalmente nos arredores de Paris quer noutras cidades europeias, desenvolvendo uma importante acção de dinamização cultural junto da emigração económica, designadamente através do Teatro Operário, e de apoio e enquadramento aos jovens desertores da guerra colonial. Em 1971 pertence à Direcção da Liga Portuguesa do Ensino e da Cultura Popular

Nas vésperas do 25 de Abril, preparava, através já da Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa, que resulta da fusão de O Comunista com o grupo O Grito do Povo, acções armadas, havendo vários grupos preparados para entrar no país para esse efeito. Foi com extraordinária alegria e comoção que teve conhecimento, através da rádio francesa, da queda da ditadura.

Viveu os anos vertiginosos que se seguiram ao 25 de Abril de modo entusiástico e empenhado. Foi fundador e dirigente da UDP, defendeu com ardor a unificação dos pequenos grupos marxistas-leninistas, e mesmo contra a opinião da direcção do grupo a que pertencia foi dos primeiros a aderir ao congresso fundador de um Partido Comunista revolucionário, assente na reconstrução do que seria o PCP e o seu património revolucionário, de que foi dirigente durante vários anos. Presidiu em 1974-75 à AEPPA, Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas e em 1978 foi um dos promotores do Tribunal Cívico Humberto Delgado, movimento que congregou dezenas de personalidades de vários sectores políticos que alertaram para a necessidade de julgar a Pide e o Fascismo.

Tanto intervinha em comícios para grandes audiências como participava em longas reuniões de direcção partidária, tanto falava com desenvoltura em conferências de imprensa como colava cartazes e contactava as populações das mais pequenas localidades ou vendia jornais porta a porta.

José Manuel Esperto nunca pertenceu ao Bloco de Esquerda, mas foi com homens como ele, dedicados e voluntariosos, radicais, que se construiu à esquerda o vasto património de luta e de combate, desde os tempos da ditadura à grande esperança revolucionária dos anos setenta do século que passou, de que somos herdeiros. Que a memória do seu percurso de vida e dos seus combates possa ser uma alavanca carregada de futuro.

Artigo de João Madeira

Correcção

Corrijo um erro grosseiro que o texto contém, para qual me chamaram a atenção e com razão. José Manuel Esperto não foi fundador da UDP. Em Dezembro de 1974 era ainda dirigente da OCMLP. Só um ano mais tarde, com um pequeno grupo de camaradas seus, é que se desliga dessa organização e adere ao PCP(R), organização que apoiava a UDP.

JM

Nota de correção publicada a 5 de julho de 2020, às 15h

Sobre o/a autor(a)

Investigador do Instituto de História Contemporânea
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