Obituário

Morreu Carlos Matos Gomes, Capitão de Abril

13 de abril 2025 - 15:11

Faleceu este domingo em Lisboa o coronel Carlos Matos Gomes. Sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, alcançou um lugar destacado na literatura portuguesa através dos seus romances sobre a guerra colonial.

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Carlos Matos Gomes
Carlos Matos Gomes. Foto Casa das Letras/Faceboo

A família do coronel Carlos Matos Gomes deu a notícia do seu falecimento aos 78 anos este domingo num hospital de Lisboa. “Partiu sereno e com as músicas de Abril”, refere o comunicado. O velório realiza-se na terça-feira entre as 19:00 e as 23:00 na Capela da Academia Militar, no Paço da Rainha, onde, na quarta-feira às 11:00, será celebrada missa de corpo presente, seguindo-se o funeral para o Cemitério do Alto de S. João, onde se realizará a cerimónia de cremação.

Nascido em 24 de julho de 1946 em Vila Nova da Barquinha, este oficial do Exército cumpriu comissões em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Experiências na Guerra Colonial que o transformaram nas décadas seguintes numa das principais figuras da literatura portuguesa sobre esta temática. O seu romance “Nó Cego” tornou-se um clássico, sendo objeto de estudo nas universidades.

Entre os muitos romances que publicou sob pseudónimo sobre o tema estão também "A Última Viúva de África”, distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora em 2018, ano em que reeditou “Nó Cego”, e "Os Lobos não Usam Coleira”, adaptado ao cinema por António-Pedro Vasconcelos em “Os Imortais”.

Em nome próprio publicou no ano passado “Geração D”, uma autobiografia da sua geração que "viveu sob um regime de 'doidos do império'" e dele se libertou. E em parceria com outro militar, Aniceto Afonso, publicou os livros “Guerra Colonial”, “Os Anos da Guerra Colonial e “Portugal e a Grande Guerra”.

Em 2017, em entrevista ao Esquerda.net, questionado se a guerra colonial seria assunto suscetível de interessar as gerações que não a viveram, Carlos Matos Gomes respondeu: “Há um ditado africano que diz que a memória passa de avós para netos. Penso por isso que estes vão sentir curiosidade em ir aos baús dos seus avós para repegar neste momento da História e continuar a estudá-la ou a ficcioná-la até com mais sofisticação. O que não foi possível para nós porque a vivemos de ‘chapa’ e tivemos que encetar uma análise muito em cima dos acontecimentos.”

A par da atividade literária e da investigação sobre a História Contemporânea de Portugal, Matos Gomes manteve sempre intervenção cívica, subscrevendo apelos para o fim das PPP na Saúde, de solidariedade com a democracia brasileira nas vésperas da eleição de Bolsonaro, ou à formação de uma maioria parlamentar de esquerda durante a campanha eleitoral em que o PS viria a obter maioria absoluta em 2022.

O coronel Mário Tomé reagiu à notícia do falecimento, considerando-o uma “enorme perda nacional: humana, cultural, política, militar”. Recordou a especial amizade que manteve com Matos Gomes, seu “camarada da revolução de Abril, do PREC e ainda da própria guerra colonial em que tive o privilégio de o comandar na Companhia de Cavalaria 1601, jovem alferes no Niassa, ajudando-o antes dele se fazer à tormenta”.

O Presidente da República, que condecorou Carlos Matos Gomes em 2021 juntamente com mais de duas dezenas de militares de Abril, publicou uma nota de condolências a destacar “uma vida de intervenção cívica e pedagógica muito diversificada e intensa, sempre na defesa dos valores porque se batera há mais de cinco décadas”.

O Esquerda.net e o Bloco de Esquerda endereçam sentidas condolências à família e amigos de Carlos Matos Gomes.