Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, o diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos, Jorge Moreira da Silva afirmou ter ficado impressionado com “o número de crianças feridas que estavam em trânsito para fora de Gaza”. “Crianças amputadas, crianças desfiguradas e com um olhar resignado, crianças de seis anos com um olhar como se tivessem 80 e muitos anos”, descreveu.
Moreira da Silva fez referência à destruição massiva das habitações no enclave, que faz com que 85% da população não tenha para onde ir no momento em que a guerra terminar, bem como à ausência absoluta de escolas a funcionar. Conforme relatou, a escassez de água em Gaza é gritante, com as crianças a terem uma média diária de um litro de água, quando o necessário para satisfazer necessidades básicas são 15 litros. Acresce que um quarto da população já está a passar fome e o acesso a cuidados de saúde é cada vez mais difícil: dos 40 hospitais de Gaza, só 16 estão a funcionar parcialmente.
Lembrando que “morreram mais crianças nos últimos 100 dias do que em todos os conflitos a nível mundial nos últimos cinco anos”, o representante da ONU não tem qualquer dúvida que se trata de “uma catástrofe humanitária sem precedentes”.
Em entrevista ao Hora da Verdade, da Renascença e Público, minutos depois de chegar de Gaza, o sub-secretário-geral das Nações Unidas alerta que a população daquele território “está em risco de uma diminuição brutal”, descrevendo uma “catástrofe humanitária sem precedentes”. pic.twitter.com/R5OQR4ctCn
— Renascença (@Renascenca) January 22, 2024
“Não quero poupar nas palavras. É uma catástrofe humanitária sem precedentes porque, ao contrário de outras catástrofes humanitárias, as pessoas não têm para onde fugir. As pessoas fogem da guerra para salvar a vida. No caso de Gaza, não há refugiados porque não podem sair”, frisou.
Jorge Moreira da Silva enfatizou que a população de Gaza “está presa num triplo sentido”: “A população está cercada por causa dos bombardeamentos e está cercada por falta de acesso a ajuda humanitária porque a ajuda não consegue entrar. Por outro lado, já se notam surtos de doenças do foro diarreico porque não há água potável, não há medicamentos, e muitas doenças do foro respiratório”. O representante da ONU realçou que “esta guerra está a revelar uma enorme falta de sentido de humanidade”.
Durante a entrevista, mencionou os ataques de Israel contra estabelecimentos da ONU e seus funcionários, que já mataram 150 dos seus colegas, e descreveu as condições “ultrajantes” em que se encontra a populações concentrada nos abrigos geridos pela ONU: Há uma casa de banho para cada 400 pessoas e um chuveiro para cada 1850 pessoas (...) Temos 50 mil grávidas sem qualquer tipo de cuidado que vão dar à luz. Eu já nem sei que adjetivos usar porque nos últimos 100 dias utilizei todo o dicionário de adjetivos”.
Jorge Moreira da Silva denunciou ainda o “processo quase kafkiano” imposto por Israel para a entrada de ajuda em Gaza, que leva a que “75% de toda a ajuda que entra em Gaza não consegue ser distribuída”.
“As dificuldades que estão a ser colocadas a ajuda humanitária tornam esta guerra ainda mais indigna e ainda mais imoral, ainda mais ultrajante quanto aos direitos básicos”, vincou.
O representante da ONU apontou que nem as “regras da guerra” estão a ser cumpridas, mediante o bombardeamento de civis e de infraestruturas civis e o bloqueio à ajuda humanitária.
Jorge Moreira da Silva considera que os ataques do Hamas não justificam “uma punição coletiva da população inocente civil em Gaza”, e defende um cessar-fogo humanitário, o respeito pelo direito internacional humanitário e a libertação incondicional dos reféns israelitas que estão em Gaza. Assim como entende que “a solução dos dois Estados continua a ser a solução mais válida”.
"Situação dramática em Gaza não poderia ser pior"
O Alto Representante da União Europeia Josep Borrell reiterou esta segunda-feira que a situação humanitária na Faixa de Gaza “não podia ser pior”, e alertou que “a forma como [Israel] está a tentar destruir o Hamas […] está a fomentar o ódio por várias gerações”.
Nesse sentido, avançou que “a paz e a estabilidade não podem ser construídas apenas por meios militares e não desta forma específica de usar meios militares”, e que urge “deixar de falar do processo de paz e começar a falar mais concretamente sobre o processo de solução de dois Estados porque a paz pode ser muitas peças diferentes”.
It is our moral obligation to try to find a solution, said HR/VP @JosepBorrellF ahead of the #FAC, where he will discuss a comprehensive approach towards a 2-state solution, as presented to Members states pic.twitter.com/rwCKhOjjqU
— European External Action Service - EEAS (@eu_eeas) January 22, 2024
Israelitas intensificam ataques no sul
O Ministério da Saúde de Gaza atualizou o número de vítimas palestinianas. Pelo menos 25.295 palestinianos foram mortos e 63 mil ficaram feridos em Gaza desde 7 de outubro. Só nas últimas 24 horas, cerca de 190 palestinianos foram mortos e 340 ficaram feridos.
Esta segunda-feira, o exército israelita bombardeou fortemente Khan Younis, no sul do território.
O médico Ahmed al-Moghrabi, chefe de cirurgia plástica e queimaduras do Hospital Nasser, diz que há bombardeamentos à volta do estabelecimento de saúde. Nebal Farsakh, porta-voz da Sociedade do Crescente Vermelho Palestiniano (PRCS), confirmou à Al Jazeera que este hospital, assim como todos os hospitais no sul de Gaza, está sob intenso ataque.
"Esta não é a primeira vez. [Nas últimas semanas], ocorreram vários ataques e bombardeamentos na área do Hospital Al-Amal em Khan Younis. Fomos alvo de ataques diretos na sede do Crescente Vermelho Palestiniano com bombardeamentos de artilharia, que literalmente destruíram três andares e mataram pelo menos sete pessoas dentro do prédio”, relatou. De acordo com Farsak, as ambulâncias não conseguem responder aos apelos dos feridos na área e “qualquer pessoa que tente sair ou simplesmente andar na rua está a ser atacada”.
Urgent: PRCS ambulances unable to reach the wounded in Khan Yunis. Israeli occupation forces are besieging the PRCS ambulance center, and targeting anyone attempting to move in the area.#Gaza #NotATarget #IHL pic.twitter.com/NXOT2Zzvlv
— PRCS (@PalestineRCS) January 22, 2024
Multiplicam-se os ataques e as detenções na Cisjordânia
Na Cisjordânia, o serviço de segurança interna de Israel, Shin Bet, e as tropas das forças especiais prenderam várias pessoas nas últimas horas. No território ocupado, em média, os israelitas realizam cerca de 40 ataques todos os dias. Só desde outubro, perto de 6.200 palestinianos detidos e cerca de 3.300 mantêm-se sob detenção administrativa. Pelo menos 369 pessoas foram mortas por tropas e colonos israelitas na Cisjordânia ocupada desde esse mês, incluindo 95 crianças.
Os relatos de ativistas dos direitos humanos, e dos próprios detidos, revelam todo o tipo de abusos aquando destas detenções, com o recurso a inúmeros métodos de tortura, incluindo choques elétricos, queimaduras de cigarros e isqueiros, espancamentos, posições de stress e privação de sono, entre muitos outros.
Benjamin Netanyahu sob contestação interna
Durante a noite, familiares dos reféns e outros manifestantes reuniram-se perto da residência oficial de Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, para exigir um acordo para a sua libertação. Entretanto, esta segunda-feira, um pequeno grupo de manifestantes conseguiu entrar na reunião do comité de finanças que acontecia no Knesset.
Existe uma pressão crescente interna sobre o primeiro-ministro para tentar chegar a um acordo com o Hamas. Gadi Eisenkot, um membro-chave do gabinete de guerra de Israel, disse que a campanha militar não é a melhor forma de trazer os reféns de volta. E o parlamento de Israel reunir-se-á em breve para discutir uma moção de censura contra Netanyahu e o seu Governo. A moção foi apresentada pelo Partido Trabalhista em reação ao fracasso do Governo em trazer de volta os reféns detidos em Gaza.
Um comunicado do partido refere que “sob este Governo, eles foram abandonados e sequestrados”.
“É este Governo que não está a tomar as decisões necessárias para salvá-los e trazê-los todos para casa agora. Esperamos que todas as facções da oposição apoiem a moção de censura e exijam que o Governo responda às perguntas que não permitem que nenhum cidadão do estado de Israel durma em paz”, lê-se na missiva.