A cantora e fadista Mísia faleceu este sábado aos 69 anos em Lisboa na sequência de um cancro de que padeceu durante vários anos. Modernizadora do fado, introduzindo por exemplo novos instrumentos, foi também cantora de outros estilos. E não deixou, ao longo de décadas, de aliar a melhor poesia à sua música.
Uma mulher afirmativa, resistente, que cantou o feminismo em forma de fado
Numa entrevista dada ao Expresso, em 2010, classificava-se como “uma resistente”, explicava que cantava “letras que cortavam com o discurso da tragédia iminente, da marginalidade e da subalternização da mulher. Sempre cantei a mulher afirmativa” e que não teve medo da rutura que introduziu “pelo discurso, pela postura social, pela imagem. E por uma transformação dos parâmetros do fado”.
Nesse campo avançou “sem medo, sem pedir licença aos opinadores do fado, às "forças" fadistas”. A propósito desse caminho inovador, recuperou então as palavras de Bette Davis “Quando eu morrer ponham no meu epitáfio – Fez tudo da maneira mais difícil”, sublinhando que “se for fácil e evidente não me interessa”
Salientando “os índices da violência familiar” como um flagelo social, e não escondendo ter sido ela própria vítima de violência doméstica, dizia então que, porém, sempre teve o cuidado “em não utilizar a imagem da mulher maltratada e infeliz, ou de um Portugal miserabilista”.
O desafio aos cânones manteve-o em novembro de 2022 numa conversa no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas” quando não teve medo de voltar contestar um certo estilo que parecia tornar-se dominante no fado: “a Celine Dion é que começou com essa coisa do virtuosismo da voz. No fado, o texto, o poema, é importantíssimo, e fica esvaziado e banalizado por aquela performance quase circense para ver quem é que grita mais no fado. Há uma banalização que faz perder o sentido trágico do destino que há no fado”.
A artista também se expressou politicamente apoiando o Bloco em diversas ocasiões. Atuou na cerimónia de homenagem a Miguel Portas e não hesitou em juntar-se à “campanha” dos lábios vermelho quando o líder da extrema-direita portuguesa atacou Marisa Matias gerando uma onda de solidariedade.
Intrépida e ousada sublinha Sérgio Godinho
Numa reação à notícia da sua morte, Sérgio Godinho, que fez o poema “Liberdades Poéticas” em 1993 para ela cantar, entre vários outros, escreveu nas suas redes sociais “muito ela lutou contra o grande mal, de várias formas. Mas fale-se da vida dela, e sobretudo da sua ousadia permanente, um traço de caráter criativo e nisso inigualável”.
Acrescentando ainda: “interpelava-me muitas vezes, queria mais. Era intrépida pela forma como se atirava a novos projetos, muitas vezes de figurinos diferentes, sem medo de errar, de ‘fazer diferente’. Uma intrépida na vida e na criação. Gostava muito disso, gostava muito dela”.
Uma carreira feita de poesia
Mísia era o nome artístico de Susana Maria Alfonso de Aguiar. Nasceu no Porto em 18 de junho de 1955, filha de pai português e mãe catalã.
Vive no Porto até se mudar para Barcelona, com quase 20 anos, e depois para Madrid, tendo sido bailarina. É quando regressa a Portugal, em 1991, para viver em Lisboa, que se estreia-se nas gravações musicais com um álbum com o seu nome artísticos que contém canções de Ary dos Santos, José Niza, Carlos Paião e Joaquim Frederico de Brito. Há quem diga que este nome foi retirado de uma personagem de García Lorca e quem diga que o descobriu ao ler a biografia de Maria Zofia Olga Zenajda Godebska, que por sua vez tinha adotado o nome de Misia Sert, sendo este o apelido do pintor catalão Josep Maria Sert com quem casou. Esta Misia foi pianista e uma figura destacada dos salões artísticos parisienses do final do século XIX e início do século XX, privando com grande parte da comunidade artística da época.
Dois anos depois, assina a obra “Fado”, produzida por Vitorina, com canções e letras assinadas por Sérgio Godinho, António Lobo Antunes, Vitorino, José Saramago, António Vitorino de Almeida. Mais dois anos depois, o disco “Tanto menos, tanto mais” deu mais uma vez a sua voz a António Lobo Antunes mas também a Fernando Pessoa.
Este poeta volta a ser musicado em “Garras dos Sentido”, de 1998, junto com outros como Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Natália Correia e António Botto e nomes contemporâneos como José Saramago, Mário Cláudio, Agustina Bessa-Luís e Lídia Jorge. Imediatamente no ano seguinte chega uma colaboração com a pianista Maria João Pires em “Paixões Diagonais”. Depois “Ritual” com canções de Carlos Pares e poemas de Vasco Graça Moura em 2001. Mais tarde “Canto”, em 2003, “Drama Box”, em 2005, “Ruas” em 2009, “Senhora da Noite” em 2011, “Delikatessen Café Concerto, em 2013, “Para Amália”, em 2015, “Do primeiro fado ao último tango”, uma coletânea, em 2016, “Pura vida” em 2019, e “Animal Sentimental” em 2022, os dois últimos já depois de ser afetada pela doença, uma vez que tinha sido em 2016 que, nas suas palavras, “me caiu aquele Boeing 747 na cabeça”. Este último disco foi lançado a par com um livro autobiográfico intitulado “Mísia. Animal Sentimental”.