Misericórdia do Porto censura peça em exposição sobre o Conde de Ferreira

20 de maio 2023 - 12:38

Em plena inauguração, uma sala da exposição que continha uma peça dos artistas Dori Nigro e Paulo Pinto com referência ao passado esclavagista do Conde de Ferreira foi encerrada. Instituição justifica-se com o "potencial desconforto" que a obra poderia poderia gerar.

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Paulo Pinto e Dori Nigro
Paulo Pinto e Dori Nigro. Imagem Encontro de Artes Cênicas do RN/Facebook.

A edição deste sábado do jornal Público dá conta do episódio insólito ocorrido na sexta-feira à tarde, quando se inaugurava a exposição "Vento (A)mar", integrada na Bienal de Fotografia do Porto, no antigo panótico do hospital Conde de Ferreira. Meia hora depois de ser inaugurada, uma das salas foi encerrada por ordem do administrador executivo do centro hospitalar tutelado pela Santa Casa da Misericórdia do Porto (SCMP), Ângelo Duarte.

O administrador não terá gostado de uma das obras da instalação "Adoçar a alma para o inferno III", em particular dos espelhos com inscrições alusivas ao passado esclavagista de Joaquim Ferreira dos Santos (1782-1866), o primeiro Conde de Ferreira que deixou em testamento as verbas que serviram para construir o hospital e mais 120 escolas primárias.

“Quantas pessoas escravizadas valem um hospital psiquiátrico? Quantas pessoas escravizadas valem 120 escolas? Quantas pessoas escravizadas valem os títulos de nobre e benfeitor?”, são as perguntas inscritas um dos espelhos que poucas pessoas tiveram a oportunidade de ver antes que um funcionário da SCMP aparecesse com tábuas e um berbequim para selar a porta da sala.

“Não percebo nada de arte, mas esta obra aqui, não!”, terá dito Ângelo Duarte segundo uma testemunha do ocorrido citada pelo Público. A SCMP disse ao Público que a decisão de ocultar as obras “resultou do facto de aquando da visita pré-inaugural se ter constatado que um dos espaços expositivos continha ‘peças de arte’ com referência ao passado esclavagista do Conde de Ferreira, componente não apresentada na proposta preliminar da exposição.” E assegura que “o curador e o artista foram sensíveis aos argumentos apresentados, particularmente naquele contexto hospitalar, e ao potencial desconforto que tal poderia gerar na comunidade daquela que é a casa de muitos doentes”.

Dori Nigro e Paulo Pinto são uma dupla de artistas pernambucanos radicados no Porto. E foi precisamente em Pernambuco que desembarcou boa parte da mão de obra escrava que os navios do Conde de Ferreira transportavam a partir de Angola. Os artistas não quiseram por enquanto comentar o sucedido, preferindo reagir através de uma tomada de posição conjunta com a direcção da bienal.

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