Ministro holandês que se opôs a resposta solidária à crise apanhado nos Pandora Papers

05 de outubro 2021 - 9:35

Wopke Hoekstra, que queria investigar os países do Sul da Europa por não terem "margem orçamental" para responder à emergência de saúde pública, investiu mais de 26 mil euros num paraíso fiscal.

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Foto EPA/BART MAAT, LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

De acordo com o Financieele Dagblad e o Trouw, citados pelo Dutch News, Wopke Hoekstra investiu 26.500 euros através de uma empresa sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. Neste negócio, o ministro das Finanças holandês tornou-se acionista da Candace Management Ltd, uma empresa de fachada que desvia capital de investimento através do país caribenho.

Hoekstra vendeu a sua participação em 2017, uma semana antes de ser nomeado ministro das Finanças do governo de Mark Rutte. À época, era senador do partido Apelo pelo Democrático Cristão (CDA), e vice presidente desta bancada. Na câmara alta da Holanda, integrou, entre outras, a comissão de Finanças, Segurança e Justiça. No seu currículo já contava com uma passagem pela petrolífera Shell, tanto em Roterdão como na Alemanha, e pela consultora McKinsey.

Na sua conta de Twitter, o governante alegou que não sabia que a empresa estava registada nas Ilhas Virgens Britânicas ou que era administrada por um escritório fiduciário na Ilha de Man. Hoekstra disse que, em retrospetiva, deveria ter prestado mais atenção à configuração financeira da empresa.

"Eu não era um investidor ativo e não li os relatórios anuais", afirmou em declarações ao RTL Nieuws.

Tom de Zwaan, presidente do conselho fiscal do banco ABN Amro, detido em 50% pelo Estado holandês, também foi apanhado no escândalo dos offshores, e já afirmou que se vai desfazer da sua participação na Candace Management Ltd e doar os lucros às pessoas que a criaram.

Hoekstra opôs-se a resposta solidária europeia à crise

Recorde-se que Wopke Hoekstra se opôs a uma resposta solidária europeia à crise provocada pela pandemia e queria investigar os países do Sul da Europa por não terem "margem orçamental" para responder à emergência de saúde pública.

À saída de uma cimeira extraordinária que reuniu os líderes de governo dos 27 estados-membros em março de 2020, o primeiro-ministro português recorreu a palavras fortes para descrever a discussão: António Costa considerou “repugnante” o pedido de Hoekstra para que Espanha fosse investigada por não ter capacidade orçamental para responder à crise de saúde pública que atravessa.

Para Costa, tratou-se de uma afirmação que “mina completamente aquilo que é o espírito da UE”, que voltava a ser incapaz de mostrar solidariedade em tempos de crise.