Ministro diz que há “substituição étnica” em Itália

20 de abril 2023 - 20:46

Francesco Lollobrigida, cunhado de Meloni e ministro da Agricultura, proferiu declarações do tipo da teoria da conspiração da “grande substituição”. A oposição responde que “são palavras repugnantes”, “reminiscentes do regime fascista de Benito Mussolini”.

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Ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, de costas, com Francesco Lollobrigida, ministro da Agricultura, durante a votação de um voto de confiança ao novo governo em outubro de 2022. Foto de Riccardo Antimiani/EPA
Ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, de costas, com Francesco Lollobrigida, ministro da Agricultura, durante a votação de um voto de confiança ao novo governo em outubro de 2022. Foto de Riccardo Antimiani/EPA

Francesco Lollobrigida, cunhado da atual chefe do governo italiano, militante do seu partido, os Irmãos de Itália, e ministro da Agricultura e Soberania Alimentar, declarou esta terça-feira num encontro com sindicalistas: “os italianos têm menos filhos e por isso substituí-mo-los por outros? Sim à ajuda aos nascimentos, não à substituição étnica. Não creio que seja esse o caminho para avançarmos”.

A frase, vinda de um responsável de um partido herdeiro da tradição fascista, implica que os italianos seriam uma única “etnia” e ecoa a teoria da conspiração da extrema-direita da “grande substituição” impulsionada em primeiro lugar pelo escritor francês Renaud Camus mas que se tornou um tópico comum neste espaço político. É igualmente a continuação da política de estigmatização dos migrantes que recentemente teve outro episódio na declaração do estado de emergência para poder expulsar mais rapidamente quem chegue ao país indocumentado vindo do sul.

A nova secretária-geral do maior partido da oposição, o social-liberal Partido Democrático, Elly Schlein, respondeu a isto dizendo que “são palavras repugnantes”, “de supremacismo”, que “recordam a década de 1930”, “reminiscentes do regime fascista de Benito Mussolini” e lembrando que “são pronunciadas precisamente no dia em que o presidente da Itália, Sergio Mattarella, visita o campo de concentração de Auschwitz na Polónia”. A referência é sobretudo às “leis raciais” aplicadas por Mussolini em 1938 que seguiram a perseguição nazi aos judeus com consequências trágicas.

Mas a declaração do governante neofascista insere-se também na disputa interna do governo entre Meloni e Salvini, que viu ser-lhe roubado o protagonismo no campo da extrema-direita. Este e o seu partido, a Liga, depois de ter concordado com as medidas sobre imigração anunciadas em Cutro dois dias a seguir a um naufrágio em que morreram 80 pessoas, acabou por tentar voltar a ultrapassar o governo pela direita propondo medidas ainda mais duras.

Sobre as palavras do ministro, Gian Marco Centinaio, vice-presidente do Senado, tem a dizer que este utilizou “palavras realmente feias, errou a forma, e muitas vezes a forma é a substância”. Indica com isto que, para além dessa “forma” existirá uma concordância profunda sobre o tema.

Também pouco incomodado com estas palavras está o Força Itália, o partido do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi tornado parceiro menor da coligação governamental. Este escolheu tentar minimizar as declarações racistas, lamentando o uso de “uma expressão que se presta à controvérsia” mas avançando que são “palavras que já ouvíamos antes”, “em comícios”, “em campanha”, “e não nos escandalizámos”.

E tem razão: a direita liberal tão pouco se escandalizou que acabou no governo com dois partidos de extrema-direita. A líder dos “Irmãos de Itália”, em 2019, por exemplo, tinha ela própria invocado a teoria da grande substituição ao acusar o Governo de procurar “destruir a nossa identidade europeia e cristã com migração em massa sem controlo”.