A sentença do processo Hells Angels, que julgou 87 pessoas por tentativa de homicídio, associação criminosa, detenção de arma proibida, extorsão, roubo, tráfico e consumo de droga, resultou na condenação de 82 acusados a penas de prisão efetiva entre os 12 e 15 anos, quatro penas suspensas e uma absolvição.
Agora, o Ministério Público entregou o recurso para o Supremo Tribunal, pedindo a aplicação de uma pena única de prisão entre os 15 e os 19 anos para cada um dos arguidos "Full Colours/membros dos Hells Angels", sendo "mais elevada para os que exercem cargos dirigentes". Quanto aos arguidos que "estão a fazer o caminho para se tornarem membros dos Hells Angels, denominados de ‘hangaround’ e ‘prospect’", a procuradora Paula Santos pede uma pena única de prisão, em cúmulo jurídico, entre os 14 e os 15 anos e três meses de prisão.
Segundo a agência Lusa, o Ministério Público diz neste recurso não compreender "como é que a pena única aplicada a cada um dos arguidos (...) foi fixada entre o 1/3 e ligeiramente acima de 1/2 da moldura abstrata aplicável", comprimindo, na sua opinião, "de forma inaceitável a concreta pena em que cada um deles foi condenado" em primeira instância.
Os factos julgados ocorreram em março de 2018, quando o gangue Hells Angels organizou um ataque ao restaurante Mesa do Prior, no Prior Velho, onde estava reunido o grupo do neonazi Mário Machado com elementos do gangue Los Bandidos. Este grupo rival dos Hells Angels pretendia estabelecer-se em Portugal através de Machado e o encontro deveria selar essa intenção, mas a invasão do restaurante frustrou a iniciativa com as agressões a provocarem feridos graves entre os comensais e Mário Machado a escapar ileso ao refugiar-se numa das casas de banho do restaurante, que é propriedade do seu irmão.
A investigação da Polícia Judiciária permitiu detetar as ligações do grupo e identificar os seus membros, tendo a operação de detenção decorrido em julho de 2018, nas vésperas da realização da concentração motard de Faro. Entre os Hells Angels detidos estavam antigos parceiros de Machado em grupos criminosos neonazis, como Nuno Monteiro, condenado a 18 anos de prisão pelo homicídio de Alcindo Monteiro em 1995, ou Eduardo Pereira, antigo hammerskin e líder dos Hells Angels na margem sul. Na origem dos conflitos, segundo a Polícia Judiciária, estaria a disputa violenta pelo poder e pelo domínio do território da segurança de bares e discotecas, que encobre operações de tráfico de armas, droga e mulheres, uma disputa transferida dos gangues de skinheads para os gangues de motards.