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Memória dos sítios e História: a propósito do Estado Novo e sua museologia

Num país com parcos recursos, não se devem multiplicar os museus históricos de âmbito nacional, cada um referente à sua época. É tempo de pensar nisso. Artigo de Miriam Halpern Pereira
Pólo Museológico, Vilar Formoso Fronteira da Paz – Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes (imagem exterior)
Pólo Museológico, Vilar Formoso Fronteira da Paz – Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes (imagem exterior)

A memória dos sítios é indelével. Nem a destruição voluntária ou involuntária ligada a guerras e acidentes naturais impede a sua recuperação pela arqueologia e pela história. Fica para sempre inscrita nos locais. Ainda este ano abriu em Vilar Formoso um lugar de memória sobre os refugiados da II Guerra Mundial e, mais recentemente, foi colocada uma placa evocativa de saída clandestina de exilados políticos num trilho da região. Excelentes iniciativas que se vêm juntar à musealização de antigas prisões do Estado Novo ou ao centro interpretativo de Aljubarrota.

É no edifício da ex-Escola-Cantina Salazar, sediada junto à antiga casa do ditador, em Vimieiro, concelho de Santa Comba Dão, que se tem vindo a propor a instalação de um centro interpretativo do Estado Novo. Mais tarde, os objectos ligados à memória pessoal do ditador seriam expostos na casa onde nasceu, facilmente transformada em lugar de romagem política. Ambos os edifícios ficam próximos, na Av. Dr. António Oliveira Salazar.

A memória do sítio, a escola primária hoje desactivada, estará sempre vinculada ao contexto educativo da época. Recorde-se: a substituição de professores primários formados em Escolas Normais de Educação, então extintas, por regentes escolares, transformadas em freiras laicas por força do celibato obrigatório, a diminuição do ensino obrigatório de cinco para três anos durante algumas décadas, a imposição da educação religiosa católica e introdução de manuais únicos politizados e eivados de ideologia retrógrada, a redução do critério de alfabetização ao saber ler e a proibição das escolas e bibliotecas-móveis. Para não referir o trabalho infantil, o pé descalço e a miserável vida da maior parte da população rural naqueles tempos. É com esta memória que se pretende atrair turistas ao Vimieiro? Como se pode pretender instalar aqui um centro interpretativo “independente” do Estado Novo? É verdadeiramente incompreensível.

Surpreendente também é esta iniciativa ter partido da aquisição de um espólio de Salazar pela Câmara Municipal de Santa Comba Dão, cujas caixas, decorridos dez anos, ainda não tinham sido abertas, nem o seu conteúdo documental depositado e colocado à consulta pública no Arquivo Municipal de Santa Comba Dão.

Por vezes, a historiografia tem dificuldade em lidar com épocas históricas recentes que afectam o orgulho nacional. Foi o caso em França, onde foi preciso o historiador americano Robert Paxton (1972) quebrar o silêncio sobre o regime colaboracionista de Vichy e a figura do Marechal Pétain. Mas, apesar disso, a ADMP, que reúne os seus admiradores, nunca conseguiu levar por diante o projecto de um museu dedicado a Pétain em Vichy. Na Alemanha, a obliteração inicial, ligada à própria desnazificação, só nos anos 90 deu lugar a uma preservação dos lugares de memória da repressão nazi e ao erguer de memoriais às suas vítimas, como o imenso cemitério simbólico no centro de Berlim. Houve uma oscilação entre a destruição, a reconversão e a conservação dos locais de memória desta época. Mas a proibição da musealização da casa de Hitler manteve-se.

Derrubado o Estado Novo, em Portugal, também houve um manto de silêncio inicialmente em relação às guerras coloniais, em contraste com uma forte vontade de conhecer esse período, ligada à necessidade das novas gerações de compreender as origens do Estado Novo e as razões da sua durabilidade. Sucederam-se colóquios e debates sobre esta época. Historiadores de variada conotação ideológica e política estão na origem de uma rica e diversa historiografia sobre este longo regime político, cobrindo as principais vertentes, políticas, ideológicas, económicas, sociais, diplomáticas e culturais, e os vários géneros, livros temáticos, de síntese e biografias. Actualmente, a história colonial e as guerras coloniais tornaram-se igualmente objecto de estudo e debate científico.

Estamos bem posicionados para avançar com uma musealização do Estado Novo. A questão que se coloca é a sua topografia. Há necessidade de outra dimensão. Um museu ou centro interpretativo sobre o Estado Novo, e não sobre Salazar, não deve estar ligado a um sítio de memória. Isto conduz-me a levantar uma questão mais ampla, a necessidade de um museu de História de Portugal. Os principais países europeus têm este tipo de museu, que se encontra sediado nas suas capitais.

Em Berlim, além do antigo museu de ex-Leste, foi construído um edifício novo. Em 2013, quando o visitei, tinha uma notável exposição evocativa dos 80 anos da ascensão de Hitler em 1933, que se espraiava não só pela conexa praça da Catedral (aí dedicada a pessoas perseguidas de diferentes quadrantes da sociedade), como em diferentes sítios de memória na capital (por ex. na paragem de autocarro junto à Casa da Orquestra, onde existiu o hospital psiquiátrico das experiências nazis sobre “deficientes e degenerados”, para purificar a “raça”, há muito demolido). Com dimensão nacional, a exposição abrangia também lugares de memória espalhados pelo resto do país.

Porventura, poderíamos também nós ter evocado criticamente a institucionalização do Estado Novo nesse ano, se tivéssemos um museu dedicado à História de Portugal. Num país com parcos recursos, não se devem multiplicar os museus históricos de âmbito nacional, cada um referente à sua época. É tempo de pensar nisso.

Artigo publicado no jornal “Público” a 26 de setembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Historiadora e professora catedrática emérita, CIES/ISCTE-IUL
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