Está aqui

Memória de Sabra e Chatila

Único português em serviço naquele verão de 1982, vivi duas semanas em Beirute Oeste coexistindo com uma resistência heterogénea, numa cidade em ruínas e com um cheiro a morte que só a morte extinguirá.
Invadiram os campos de Sabra e Chatila e chacinaram, enquanto tiveram energia e sede de sangue, mais de três mil pessoas

Nesse verão de 1982 vivi duas semanas em Beirute, então uma cidade dividida fisicamente porque dividida estava militarmente e também religiosamente. Do lado que para mim era “de lá”, o lado oriental, estavam as tropas ocupantes israelitas e os seus aliados libaneses, as milícias cristãs falangistas; do lado “de cá”, com as suas lendárias e cosmopolitas corniches arrasadas, fazendo da esplendorosa marginal um escombro único, ruínas e esqueletos de edifícios pulverizando toda a área, um cheiro a morte que só a morte extinguirá, estava a resistência. Era Beirute Oeste.

Beirute Oeste ficou para a história por ter resistido 82 dias a uma invasão e cerco israelitas, operação que o general Sharon – que a história também muito bem conhece – tinha previsto para 24 horas, no máximo 48.

Viver duas semanas em Beirute Oeste era coexistir com essa resistência heterogénea impossível de definir, composta por uma pluralidade de grupos palestinianos, de milícias xiitas laicas como o Amal – o fundamentalismo não aparecera ainda na forma de Hezbollah, os ayatollahs tinham revolucionado o Irão apenas dois anos e meio antes – de agrupamentos sunitas como os Mourabitoun, de cidadãos árabes de vários países que tinham largado o seu quotidiano e pegado em armas, todos unidos na sua diversidade contra um inimigo único, a tropa israelita às ordens de Sharon.

Resistir parecia missão impossível. Israel tinha um objetivo prioritário, expulsar a estrutura política e militar da Organização de Libertação da Palestina (OLP), então sediada em Beirute e olhada como inimiga figadal pelas milícias feudais e fascistas cristãs da família Gemayel. Sharon tinha uma obsessão: liquidar Arafat. Por tudo isso, cristãos e sionistas uniram-se para uma ocupação conseguida por terra à custa de um argumento sem resposta possível, os F-15 da força aérea israelita. Tinham todo o céu da região para fazer o que quisessem e faziam-no logo desde a primeira luz da madrugada de cada dia, pontos brilhantes muito lá no alto largando fogo cego e a eito sobre um nicho territorial de menos de 20 quilómetros quadrados. Tentar fugir era inútil: no mar vigiava a marinha de guerra israelita; nas montanhas envolvendo a cidade em anfiteatro os canhões da aliança invasora e colaboracionista raramente se calavam; do outro lado da “linha verde”, em Beirute Oriental, aquartelavam-se as tropas sitiantes

Mais do que uma guerra foi um massacre, de meia cidade, de uma população indefesa, principalmente naquele dia 12 de Agosto, em que céus e terra se abriram em fogo que parecia uma ofensiva final e irresistível. Chamaram-lhe “a horrenda quinta-feira”. A resistência resistiu, os invasores não passaram, nem assim, a “linha verde”.

Visitei campos de refugiados palestinianos, Sabra, Chatila, alguns outros. Bairros precários e temporários tornados definitivos, mistura de pobreza, desalojamento, efeitos da guerra total. Cada dia de resistência era uma vitória para a vida que, mesmo num quotidiano de horror e abandono, dava alento a quantos – e eram muitos, de todas as idades – continuavam a projetar o futuro entre as figueiras e as oliveiras da sua Palestina natal.

Ao cabo de 82 dias – onde já iam as 48 horas de Sharon! – um mediador internacional, Philip Habib, ao mesmo tempo norte-americano e libanês, conseguiu um acordo: a estrutura da OLP saía do Líbano para a Tunísia; tropas internacionais ficavam a garantir que a tropa de Israel não entraria na zona cercada e começaria a abandonar o território, mais um, onde estava sem lhe pertencer.

Assisti aos primeiros passos de aplicação do acordo. Único português em serviço, partilhei com camaradas brasileiros, espanhóis, franceses, italianos as emoções daqueles desfechos que sabíamos ser apenas de ocasião mas ainda assim serviam de escape à tensão e ao medo que vivêramos, às vezes disfarçados pelo ritmo frenético imposto pela dimensão da realidade e pela aventura que era tentar escrever e mandar trabalho todos os dias. Admitimos sem constrangimentos uns perante os outros, esmagados pela tragédia, o mito que é a “frieza” profissional do jornalista. Depois, porque um jornalista de bolsos vazios em cenário de guerra e em tempos sem portáteis, nem telemóveis nem internet deixa de poder trabalhar, apanhei uma boleia da BBC para Damasco. Não era fácil cruzar tantos e sucessivos controlos militares, mas o peso de algumas siglas ajuda.

Chegou Setembro e havia eleições presidenciais no Líbano. Bachir, o primeiro varão do clã Gemayel, estava em campanha e iria ser eleito quando um atentado brutal o matou e arrasou grande parte do seu séquito. O crime continua por esclarecer, mas sabe-se a quem aproveitou. Em 16, 17 e 18 Setembro, beneficiando da complacência das forças internacionais (francesas, italianas, norte-americanas…), acompanhadas e protegidas pelas tropas de Israel as milícias cristãs entraram em Beirute Oeste, invadiram os campos de Sabra e Chatila e chacinaram, enquanto tiveram energia e sede de sangue, mais de três mil pessoas, refugiados palestinianos, civis, principalmente mulheres, crianças, velhos.

As imagens aterradoras e repugnantes ainda hoje correm mundo, mas nada aconteceu, nenhum responsável pagou pelo crime. O excelente filme israelita “Danças com Bachir” admite que esse episódio libanês abalou com o desencanto e a dúvida sectores de uma geração israelita. No entanto, Sharon tornou-se várias vezes primeiro ministro de Israel liquidando sempre, tal como Netanyahu, as hipóteses de paz; os massacres, as ocupações continuaram e continuam, o bloqueio de Gaza mais não é do que um lento assassínio coletivo. Muita violência presenciei na região desde então mas nenhuma ficou gravada como a daqueles dias tórridos do verão de há 30 anos. Foi uma aprendizagem em carne viva da essência dos problemas do Médio Oriente, tão actual nesses dias como agora. A impunidade da violência arbitrária e sem lei, do desprezo pelas normas internacionais, da perseguição aos direitos elementares de todo um povo persistem hoje como então.

Tal como o cheiro a morte.

José Goulão, 18 de Setembro de 2012

Artigos relacionados: 

Sobre o/a autor(a)

Jornalista
Termos relacionados Internacional
(...)