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Sabra e Chatilla: massacre marcou a causa palestiniana

Prosseguindo a evocação do massacre que provocou a morte de 3000 palestinianos há 30 anos, o Esquerda.net publica em seguida o depoimento de Waldo Mermelstein, que os nossos leitores conhecem de outros artigos. Brasileiro de origem polaca, Mermelstein foi militante sionista na juventude, causa que abandonou quando compreendeu a sua natureza de colonizador implacável.
Pela primeira vez os sionistas começaram a perder a batalha pelos corações e mentes no mundo

O massacre de Sabra e Chatilla marcou profundamente a causa palestiniana. Não porque tenha sido algo excecional na trajetória do sionismo, absolutamente! Antes dele, três quartos da população palestina foram expulsos pelas milícias sionistas, que depois seriam o atual exército de Israel, em 1948, originando os milhões de refugiados palestinos, nunca mais autorizados a voltar às suas casas, terras e propriedades, todas roubadas pelos sionistas.

O caráter extraordinário do massacre dos dois campos de refugiados no Líbano foi que pela primeira vez os sionistas começaram a perder a batalha pelos corações e mentes no mundo. Longe estavam os mitos do pequeno estado socialista que lutava contra os atrasados árabes, continuadores do nazismo... A invasão do Líbano, o bombardeio selvagem de Beirute, e o massacre executado pelas milícias fascistas cristãs libanesas, sob a proteção dos tanques israelitas, foram um momento de inflexão. Não que os sionistas tivessem recuado, muito pelo contrário, continuaram com a sua política até hoje! Mas em alguns anos mais, o coração da Palestina, nos territórios ocupados por Israel na guerra de 1967, conheceria a primeira Intifada, levando ao início da luta contra os usurpadores sionistas no coração mesmo da Palestina.

Na minha vida pessoal também foi um marco. Eu já era marxista e anti-sionista há mais de 10 anos, mas a minha mãe, apesar de apoiar as causas progressistas no mundo, tinha conflitos de consciência porque acompanhou o assassinato dos seus familiares e demais judeus na Polónia onde tinha nascido. Mesmo que eu lhe demonstrasse o que Israel fazia, sempre dizia, “mas eles não tinham outra alternativa após a guerra, meu filho”. Aquele foi um momento decisivo para ela. Dona Fany, como sempre, surpreendia-me e um dia, ao telefonar para ela, disse-me: “hoje vieram as senhoras da Organização Sionista Mundial e pediram-me a contribuição que lhes entregava; eu disse que para gente que fazia o que fizeram em Sabra e Chatilla nenhum centavo mais daria, nunca mais!” E sei que para ela a rutura foi muito mais difícil do que para mim, que vivia noutras condições, na luta contra a ditadura [no Brasil], sem ligações sentimentais com os sionistas.

Muitos anos se passaram, o movimento palestiniano já teve momentos ainda mais difíceis, a esperança dos acordos de Oslo mostrou-se um pesadelo, o sonho dos dois estados cada vez mais anulado pela ação de colonização sionista implacável (eu, por convicções políticas nunca acreditei nessa fórmula, mas sempre respeitei a opção dos palestinianos naquele tempo), cada dia significa uma nova tentativa sionista de roubar terras e expulsar palestinos. Neste exato momento, estão a fazer uma ofensiva contra os beduínos do deserto do Naqab, para construir mais casas para os judeus de Israel.

Um acontecimento muito importante naquela época do massacre de 1982 foi o surgimento de um poderoso movimento pacifista entre os judeus de Israel (chamado Paz Agora), exigindo a retirada das tropas, levando 150 mil pessoas às ruas de Tel Aviv, o que levou à crise do governo e ajudou a forçar a retirada parcial das tropas, coisa que só se concretizou anos depois, pelas mãos do movimento de resistência libanês, comandado pelo Hezbollah. Infelizmente, o movimento pacifista em Israel decresceu, desintegrou-se e deixou de ser uma oposição à crescente ofensiva do estado sionista, o que se pode ver dramaticamente no seu silêncio quando dos ataques ao Líbano (2006) e Gaza (2008) e no facto de que a onda de protesto social entre os judeus israelitas em 2011 não se pronunciou sobre o maior problema social de Israel: a opressão contínua contra a minoria palestina, para não falar da opressão ao conjunto do povo palestino. Muito terá que avançar o movimento entre os judeus israelitas para que compreendam que um povo que oprime outro não pode ser livre, o que se vê na crescente restrição aos que se atrevem a se solidarizar com os palestinos.

Uma palavra sobre as comunidades judaicas do mundo. Durante muitos anos foram uma fiel retaguarda dos sionistas, pois consideravam que essa era uma atitude correta como compensação aos horrores do Holocausto da Segunda Guerra Mundial, ajudados pela manipulação dos média de que Israel era um pequeno estado cercado por agressivos e poderosos países árabes. A partir da agressão ao Líbano em 2006 isso começa a mudar e setores importantes, ainda que minoritários, das comunidades dos que se reconhecem como judeus no mundo, particularmente nos EUA, começam a pronunciar-se contra as barbaridades cometidas supostamente em seu nome.

Após muitos anos, o ano de 2011 marcou uma nova esperança para o povo palestiniano. O processo revolucionário nos países árabes da região estremeceu e estremece os regimes que colaboraram sempre com Israel, em particular o do Egito, e como diz o ditado, “o caminho para Jerusalém passa pelo Cairo”. Já vimos isso parcialmente com o relaxamento do controlo absoluto sobre a fronteira egípcia com Gaza, afrouxando um pouco o cerco estabelecido por Israel. Certamente, o caminho das revoluções árabes não é linear, houve e haverá muitas oscilações, mas abriu-se um momento diferente, em que os palestinianos já não estão sozinhos a enfrentar os sionistas e os governos árabes reacionários. Claro que a cena interna da Palestina é pouco animadora nos últimos anos, com relação à suas direções, com o confronto entre os dois principais movimentos, acomodação de setores com a invasão, mas a resistência aos avanços da colonização continua e uma primavera palestina é algo que não deverá tardar, rompendo os novos muros de betão, arame farpado e políticos erguidos após os acordos de Oslo!

Ao homenagearmos os massacrados de Sabra e Chatilla, cumprimos o nosso dever de honrar a memória daqueles que morreram nas mãos diretas e/ou indiretas dos sionistas, mas fundamentalmente para preparar a luta do próximo período pela libertação da Palestina! Glória aos mártires de Sabra e Chatilla! Abaixo o sionismo opressor! Por uma Palestina laica, democrática e não-racista em toda a Palestina histórica, com direito de retorno dos refugiados às suas terras usurpadas, com Jerusalém unificada como sua capital, libertação de todos os presos políticos e com direitos iguais para todas as crenças religiosas e ateus!

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