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Marisa e Marcelo: Duas visões do mundo muito distintas

A banca, o Serviço Nacional de Saúde e o papel dos privados, as leis laborais e a precariedade são algumas das matérias em que Marisa Matias e Marcelo Rebelo de Sousa se posicionam em campos opostos.
Debate televisivo entre Marisa Matias e Marcelo Rebelo de Sousa.

Marcelo: O candidato sem programa

"Quem avança é exatamente o mesmo que avançou há cinco anos". A frase é de Marcelo Rebelo de Sousa, e foi proferida aquando da apresentação da sua candidatura. O candidato presidencial anuncia que fará o mesmo que tem vindo a fazer, escusando-se a pronunciar-se sobre como agirá num panorama que é inquestionavelmente distinto daquele que se apresentava ao país em 2016.

Não existem, por parte de Marcelo Rebelo de Sousa, esclarecimentos sobre como enfrentar a crise económica internacional, as consequências sanitárias da covid-19 e o agravamento da crise climática. O candidato Marcelo Rebelo de Sousa surge, como referido pelo dirigente bloquista Luís Fazenda, como um “candidato sem programa”.

Mas conhecemos algumas das suas posições em matérias essenciais, até pelo seu posicionamento durante o seu primeiro mandato na Presidência da República.

Marisa e Marcelo: Duas visões do mundo muito distintas

No que respeita à banca, Marcelo tem “uma bitola para o setor público e outra para o setor privado”. Por exemplo, concordou com a venda do Banif e do Novo Banco, que Marisa sempre defendeu que “seriam negócios ruinosos para o Estado, como se vieram a revelar”. Já no caso dos rendimentos dos gestores da Caixa Geral de Depósitos, Marcelo “quase exigiu a demissão do ministro das Finanças”, lembra Marisa Matias. “Mas nestes cinco anos nunca criticou os contratos abusivos assinados pelo Estado com os privados e que os contribuintes estão a pagar bem caro”, assinala a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda.

Na área do trabalho, Marisa Matias vê a precariedade como “um dos principais problemas do país”. Marcelo não. “Reúne-se com patrões e com ordens profissionais mas menorizou os sindicatos. Apadrinhou o acordo do bloco central para duplicar o período experimental dos jovens mas não esteve com as ex-trabalhadoras da Triumph nem com Cristina Tavares”, aponta a candidata.

Marcelo bate-se por SNS que seja “central de compras ao negócio privado da saúde”

Mas as diferenças entre Marisa e Marcelo Rebelo de Sousa não se esgotam por aqui. Se Marisa encara o SNS como “uma vitória da democracia, que garante a igualdade entre todas as pessoas”, Marcelo "nunca apoiou a criação do SNS e hoje continua a bater-se por um SNS que seja uma central de compras ao negócio privado da saúde". “Quando foi votada a nova Lei de Bases, pressionou para a manutenção dos privados. E na aprovação do Estado de Emergência para que a requisição dos privados fosse feita por acordo, quando deveria ter sido a preço de custo, para proteger o setor público”, recorda a candidata.

Marisa defende que “é necessário mobilizar para atendimentos prioritários “toda a capacidade de saúde existente no país, seja pública, seja privada, seja social”, o que implica “a requisição desses serviços pelo Estado, pagos a preço de custo, e a sua subordinação ao comando e às prioridades definidas pelo SNS”. E alerta que “é imperativo dar resposta aos problemas que já vinham de trás e que se avolumaram em 2020”, seja no que respeita à abordagem adiada das doenças agudas, às doenças crónicas que descompensaram, à doença mental eternamente esquecida. Para esse efeito, é preciso criar um novo Estatuto do Serviço Nacional de Saúde que garanta a concretização do plano plurianual de investimentos e do planeamento estratégico; garantir carreiras dignas e atrativas para os profissionais de saúde contemplando a dedicação exclusiva; e a concretização da saúde de proximidade e do acesso ao SNS de todas as pessoas, independentemente da situação em que se encontram no país.

Ênfase nas alterações climáticas e no combate às desigualdades sociais

A ênfase nas alterações climáticas e no combate às desigualdades sociais foram outros dos temas trazidos ao debate entre os dois candidatos que deixaram claras as suas divergências.

As candidaturas presidenciais têm uma “forma distinta de olhar para as desigualdades”. Para Marisa, estas “são o centro das políticas que temos tido”. E, por isso, “o combate às desigualdades não pode ser um desvio das políticas, tem que ser central, uma regra é não a exceção”. “O meu modelo de combate às desigualdades prevê acabar com o sistema de privilégios”, um modelo que prevê justiça na economia, assegura a candidata.

Marisa lamenta ainda não ter visto “o Presidente vir ao encontro dos milhares de jovens que vieram para rua reivindicar políticas de combate às alterações climáticas”.

Eutanásia: Marcelo e Marisa “em campos opostos”

A posição pessoal do atual presidente da República, e candidato, Marcelo Rebelo de Sousa é sobejamente conhecida. Alinhado com as posições da hierarquia da Igreja, Marcelo posiciona-se contra a despenalização da morte medicamente assistida. Em novembro de 2019, durante uma iniciativa do movimento Comunhão e Libertação, o chefe do Estado falou sobre eutanásia e sobre a sua experiência enquanto voluntário junto de doentes terminais: “Não há ressurreição sem sofrimento e morte", enfatizou.

Apesar de, em 2018, ter afirmado que não usaria o veto político em função apenas das suas convicções pessoais, Marcelo Rebelo de Sousa escusou-se, durante o debate com Marisa Matias, a 2 de janeiro, a antecipar o que fará quando o diploma chegar a Belém.

A posição de Marisa Matias não poderia ser mais distante. A candidata tem-se posicionado de forma intransigente pelo direito à dignidade e a uma morte digna, acompanhando aquela que foi uma das principais lutas do ex-coordenador bloquista João Semedo, falecido em 2018. O Bloco foi o primeiro partido em Portugal a assumir a defesa do direito à auto-determinação e a reconhecer os direitos fundamentais dos doentes terminais a decidirem sobre a sua vida e o seu corpo, tendo a reivindicação da morte assistida ficado consolidada no seu programa eleitoral de 2009. No âmbito das suas funções como eurodeputada, Marisa Matias foi uma das primeiras signatárias do manifesto pelo direito a morrer com dignidade na Europa.

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