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Mário Branquinho: “O CineEco é um ato de resistência”

Um concurso de vídeo promovido por Mário Branquinho em 1994 acabaria por lançar a semente para o único festival de cinema ambiental em Portugal – o CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, e um dos mais antigos.
Mário Branquinho entrevistado por Paulo Portugal, do Insider.pt

Vai agora na sua 25ª edição, um feito notável sobretudo por se tratar de um festival temático de cinema ambiental, com entrada gratuita, que se realiza todos os anos por esta altura em Seia, mesmo junto à serra da Estrela.

Na edição deste ano 80 filmes provenientes de 20 países concorrem nas diferentes secções da seleção oficial dando a ver o que de melhor se fez em matéria cinema ambiental.

É mesmo ao olhar para trás para este quarto de século que o diretor Mário Branquinho enquadra o CineEco como “um ato de resistência ao longo dos anos”. Uma teimosia que contou com a vontade política da câmara de Seia em querer manter um festival desta natureza desde meados dos anos 90. Pela longevidade e pelo crescimento, Mário Branquinho salienta o “espírito de missão de levar as questões do ambiente ao interesse crescente dos vários públicos”.

Isto apesar de entender que “a temática ambiental já deixou de ser um assunto para especialistas – hoje ambientalistas somos todos nós. Tudo isto nos toca de perto. Olhamos para os fenómenos climatéricos que fazem parte do nosso dia a dia e que mexem com a nossa qualidade de vida.” No seu entender, a ideia que ressalta é “o filme de ambiente ser considerado cada vez mais como objeto artístico e cinematográfico".

CineEco 25 Mário Branquinho

Nesta edição das bodas de prata detetam-se trabalhos – muitos deles assinados por cineastas femininas – que focam os temas das alterações climáticas (Genesis 2.0, de Christian Frei e Maxim Arbugaev, O Homem Comeu a Terra, de Jean-Robert Viallet), os desastres ecológicos (Recator Perdido, de Alexandra Westmeier, Injustiça, de Sasha Frielander e Cynthia Wade, Hondar 2050, de Cesar Maglioni) a questão dos plásticos (Plástico Nosso de Cada Dia, de Carla Castelo), a globalização (Walden, de Daniel Zimerman) do uso da água (Hálito Azul, de Rodrigo Areias, O Geógrafo e a Ilha, de Christine Bouteiller, Azul Profundo, de Jorge Almeida, Própria ou Imprópria, de Sandra Salgado, João Martins e Liliana Claro), dos fogos florestais (Depois do Fogo, de Derek Knowles, As Chamas do Paraíso, de Jean Froment), da Amazónia (Amazónia, o Despertar da Florestania, de Christiane Torloni e Miguel Przewodowski).

Relativamente à produção nacional (em curtas e longas) Branquinho saúda o aumento de produções de temática ambiental de fundo. Mesmo que o Brasil continue a ser o país de língua com maior participação. Isto apesar desse peso ter decrescido de forma significativa este ano. Uma justificação que aponta para a redução dos financiamentos locais e algum boicote devido às mudanças políticas na administração. A isto responde Portugal com um aumento, quer em longas e curtas, quer em adesão maior, “algo que enriquece a competição da lusofonia”, como subscreve o diretor, “este ano enriquecida com as participações de Cabo Verde, Moçambique, para além do Brasil, além do complemento da secção competitiva do panorama regional”. Trata-se de uma secção que permite a oportunidade aos realizadores amadores da região terem a oportunidade de mostrar temas locais.

Quando lhe pedimos que olhe para o ambiente nos próximos 25 anos, Mário Branquinho assume a sua postura: “Não sou catastrofista. Entendo que o ser humano conseguiu ao longo dos séculos ultrapassar barreiras. Por isso estou otimista que iremos encontrar soluções para o flagelo das alterações climáticas.” Quanto ao futuro do CineEco, entende que “o festival tem um caminho aberto de adesão e reconhecimento. Poderia ser uma desvantagem por ser no centro do país. Mas prova-se que pode haver eventos de dimensão internacional fora dos grandes eixos. Vemos isso também em outros países a acontecer. Podem ser fatores de afirmação, desenvolvimento e atratividade. É uma espécie de marketing territorial. Quando falamos da marca CineEco e da marca Seia, estamos a falar de uma cidade que aposta no ambiente. Nesse sentido, é um fator diferenciador.“

Algo que se reforça com a realização do 2ª Fórum Internacional dos Festivais de Cinema de Ambiente, pois “robustece o prestigio a afirmação do festival, como organizador de eventos desta dimensão; depois traz-nos apports para todo o ano. Conferências internacionais, júris, mas também uma promoção territorial e turística que se verifica ao longo do ano. Uma forma indireta de promover o território.”

Mas não é só a região que se promove, pois o CineEco sai da sua região à procura de um público nacional em dezenas de cidades. “Foi esta a forma que encontramos de afirmar o festival pelo país todo. Encontrar um conjunto de interlocutores e instituições que acolhem o festival ao longo do ano. Temos mais de 30 cidades ao longo do país que acolhem o festival. São formas de promover os valores ambientais através do cinema”.

Sim, nesse sentido o CineEco é um festival que dura o ano inteiro.

Artigo publicado em Insider.pt

 

Sobre o/a autor(a)

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt
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