A maioria das pessoas em todo o mundo não consegue aceder ou comprar alimentos saudáveis, devido aos sistemas agrícolas globais favorecerem a alimentação através de calorias em detrimento da nutrição, bem como pela omnipresença e o baixo custo de alimentos altamente processados, afirma o Relatório Global de Nutrição 2020. Estas desiguladades na alimentação observam-se tanto entre países como no interior de cada país e a pandemia da covid-19 veio agravar este problema, conclui o relatório.
Diz o relatório que cerca de 820 milhões de pessoas no mundo passa fome - ou seja, uma em cada nove pessoas. Ao mesmo tempo, uma em cada três pessoas no mundo está acima do seu peso ou obesa, afirma o mesmo relatório. Um número cada vez maior de países sofrem com casos de desnutrição, obesidade e doenças relacionadas com má nutrição, como diabetes, doenças cardiovasculares ou cancro, pode ler-se no Guardian.
Por isso, o relatório conclui que é necessária uma revisão do sistema de alimentos e saúde no mundo, com vista a combater a desnutrição, a principal causa de problemas de saúde e mortes em todo o mundo.
A ONU declarou a Década de Ação das Nações Unidas sobre Nutrição (2016-2025), cujo compromisso entre os Estados Membro das Nações Unidas passa por empreender um programa de políticas sustentadas e coerentes, a par de programas e investimentos com o objetivo de eliminar a desnutrição a nível mundial num prazo de 10 anos. Contudo, a pandemia pode deitar este esforço abaixo, tendo mesmo a ONU afirmado no mês passado que o número de pessoas que sofre de fome aguda no mundo poderá duplicar.
O relatório foi escrito antes da pandemia do covid-19 e é lançado agora com "um significado maior", diz David Nabarro, representante especial do secretário geral da ONU para a segurança alimentar: "Existe um risco real de que, enquanto as nações se esforçam para controlar o vírus, os ganhos que obtiveram na redução da fome e da desnutrição sejam perdidos”, refere ao Guardian. Nabarro considera que as pessoas subnutridas podem estar mais expostas à contaminação por covid-19. A sua condição vai originar o enfraquecimento do sistema imunológico, enquanto a obesidade e diabetes estão as associados aos piores desfechos.
Os fenómenos climáticos extremos já haviam exposto as fragilidades dos sistemas alimentares, mas o coronavírus reforçou-os. Segundo este relatório, podem observar-se enormes disparidades alimentares por país. Embora ambos os fenómenos possam ocorrer no mesmo país, destaca-se que uma falha no ganho de peso persiste nos países mais pobres a uma taxa até 10 vezes maior que nos países mais ricos, enquanto que as taxas de excesso de peso e obesidade são até cinco vezes maiores nos países em desenvolvimento.
Os custos médicos associados ao tratamento das consequências da obesidade são "impressionantes", diz o relatório, com uma fatura total anual estimada em 1.2 biliões de dólares/ano até 2025, com os EUA a serem, de longe, o maior consumidor destes serviços.
No ano passado, o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPPC) concluiu que o mau uso da terra é responsável por um quarto das emissões de gases de efeito estufa. Cynthia Rosenzweig, especialista em clima do Instituto Nasa Goddard de Estudos Espaciais e autora do capítulo sobre segurança alimentar no relatório do IPCC sobre terra e alterações climáticas, afirma que “a desnutrição é um multiplicador de ameaças. Eu acho que foi ignorado que pessoas desnutridas provavelmente têm um sistema imunológico mais baixo".
Cynthia Rosenzweig destacou também a desigualdade dos preços dos alimentos em todo o mundo e consequentemente a sua acessibilidade, usando como exemplo os preços do ovo e do arroz: enquanto no Burkina Faso o ovo é 15 vezes mais caro que o grão e o arroz, nos EUA custa apenas o dobro. Rosenzweig instou os governos e os legisladores a “aproveitarem a ocasião” para criar sistemas de alimentos e saúde iguais e sustentáveis após a pandemia. "É realmente um apelo à ação por parte dos países, ONGs e todo o sistema para criar uma transformação no sistema alimentar".
Segundo o relatório, somente 8 dos 194 países estão no caminho de cumprir quatro dos dez objetivos, sendo que neste momento, nenhum país está capaz de atingir todas as metas globais de desnutrição para 2025. Para Venkatesh Mannar, consultor especial em nutrição do Tata Trusts e do Instituto Tata-Cornell de Agricultura e Nutrição, a “má alimentação e desnutrição não são uma questão de escolha pessoal. A maioria das pessoas não é capaz de fazer isso devido à desigualdade dos sistemas alimentares. Eles não têm acesso a uma variedade de alimentos saudáveis. A interface entre a cadeia de suprimento de alimentos e os consumidores é desigual." "A crise destacou a necessidade de considerar seriamente a desnutrição em todas as suas formas, e acreditamos que isso pode ser feito em conjunto com o combate à pandemia".