João Canijo entrava no 73.º Festival de Cinema de Berlim por uma porta dupla. Saiu com a chave de prata. O realizador português apresentou a concurso com duas longas-metragens, Mal Viver e Viver Mal. A primeira acabou por conquistar o Urso de Prata para prémio do júri.
Viver Mal entrou na secção Encontros, que o festival dedica a “novas visões cinematográficas”.
Mal Viver entrava mesmo na competição oficial e parece ter deixado forte marca no júri presidido pela atriz norte-americana Kristen Stewart e do qual faziam parte ainda a atriz iraniana Golshifteh Farahani, a realizadora alemã Valeska Grisebach, o romeno Radu Jude, a diretora de 'casting' norte-americana Francine Maisler, a realizadora espanhola Carla Simón e o realizador de Hong Kong Johnnie To.
O cineasta de 63 anos alcança com este galardão um dos prémios mais prestigiados do cinema europeu e esta dupla de filmes chegará às salas de cinema do país a 11 de Maio. Entrevistado pelo Público já na Berlinale, considerava este díptico, filmado em 12 semanas durante a pandemia no Hotel Parque do Rio, em Ofir, “de longe” a sua melhor obra, “pensado para ser uma evolução, para ser diferente do que rodei antes” mas, apesar disso, não esperava que os dois filmes chegassem à competição deste festival. O mesmo dizia noutra entrevista ao Insider.pt respondendo que "é essa presença [no festival] a vitória".
Mal Viver é um filme sobre um conflito familiar. Mãe e filha de uma família burguesa , interpretadas por Rita Blanco e Anabela Moreira, lutam pela propriedade do hotel. O cineasta explica que é um filme sobre “a ansiedade que provoca medo de viver. A ansiedade que barra o amor incondicional das mães para as filhas. A ansiedade que surge quando uma mulher tem medo de ‘não ser suficiente’ para a filha, o que a impede de ser mãe plenamente”.
Viver Mal é sobre outro conflito, este conjugal, protagonizado por um casal de clientes do hotel, papéis desempenhados por Nuno Lopes e Filipa Areosa, e igualmente sobre uma mãe (Beatriz Batarda) que interfere no namoro da filha (Leonor Vasconcelos e Carolina Amaral), história a que se junta ainda outra mãe (Leonor Silveira) que se mete na vida da filha e marido (Lia Carvalho e Rafael Morais), acabando por se envolver com este.