Segundo o South China Morning Post, mais de 180 mil pessoas estiveram presentes na vigília à luz das velas que se realizou em Hong Kong.
De acordo com os organizadores, a ação teve a maior participação de sempre, ultrapassando as cerimónias de 2012 e 2014, que constituíam até à data as maiores mobilizações no aniversário do massacre.
Há 30 anos, o massacre ocorreu na capital chinesa Beijing (Pequim), e noutras cidades da China, tendo sido chacinadas milhares de pessoas, por ordem direta de Deng Xiaoping. (Ler China 1989: Os manifestantes, o Partido e o massacre de Beijing).
Ministro da Defesa da China defende massacre de há 30 anos
Como é habitual, também este ano a política do regime chinês foi de proibição absoluta de assinalar a data de 4 de junho de 1989 e a censura total à sua referência. As ferramentas de vigilância foram aperfeiçoadas ainda mais para detetarem qualquer sinalização da data, usando nomeadamente máquinas de reconhecimento de voz e imagem. Funcionários da empresa Beijing Bytedance Co Ltd falaram à Reuters da automatização da vigilância, referindo que “agora a inteligência artificial é muito precisa” na remoção de imagens. Quatro censores trabalhando nas aplicações Bytedance, Weibo Corp e Baidu Inc disseram à agência que são censuradas entre 5.000 e 10.000 informações por dia (5 a 7 por minuto), na maior parte dos casos imagens pornográficas ou violentas. As imagens e notícias do massacre de Tiananmen foram integradas nessa missão de vigilância e censura global.
A novidade deste ano foi a intervenção do ministro da Defesa, general Wei Fenghe, que num fórum regional realizado em Singapura defendeu a repressão de 4 de junho de 1989.
A normalidade chinesa costuma ser ignorar o assunto, omitir os acontecimentos desse dia, censurar as notícias e não dar voz às vítimas e aos seus familiares, tanto dos exilados como dos que continuam a viver no país.
Desta vez, o regime decidiu fazer declarações e a escolha recaiu num militar, no ministro da Defesa, o que certamente não aconteceu por acaso.
Segundo a BBC, o general Wei Fenghe veio reafirmar a posição oficial, declarando nesse fórum regional que “esse incidente” (a repressão de 4 de junho de 1989) foi uma “turbulência política” e que as medidas tomadas pelo governo para a “impedir” foram “corretas”.
"Os últimos 30 anos provaram que a China passou por grandes mudanças", acrescentou, à guisa de justificação, e salientou: "a China desfrutou de estabilidade e desenvolvimento".
A ameaça da lei de extradição
Este ano um fator reforçou a mobilização em Hong Kong: o anúncio do pedido do Governo chinês para a aprovação de um projeto de lei que autoriza a extradição para a China de qualquer pessoa que se encontre na Região. A eventual aprovação deste projeto colocará todas as pessoas sob a ameaça de repressão.
Recorde-se que Hong Kong foi devolvida à China em 1997 e tornou-se uma Região Administrativa Especial, com base no princípio Um país, dois sistemas. A Região manteve assim uma elevada autonomia, garantiu numerosos direitos específicos, até nas relações internacionais.
No entanto, em 2017 Xi Jinping denunciou o acordo unilateralmente, declarando que “já não é pertinente”, não é obrigatório, nem tem significado concreto1. Desde então, a intervenção do regime chinês na Região aumentou significativamente: um pequeno partido foi proibido, várias personalidades foram condenadas a penas “exemplares” pela sua participação nas mobilizações de 2014 e as associações de solidariedade operária estão a ser criminalizadas.
Uma lei de extradição tornar-se-á uma ameaça para todas as pessoas, em particular para os ativistas defensores dos direitos humanos e para as dissidências cívicas, políticas, sociais e religiosas. O projeto exclui, todavia, os crimes de “colarinho branco”, por ação do governo de Hong Kong, preocupado com a fuga de investidores e com a turbulência no setor financeiro.
A 28 de abril passado, mais de 130 mil pessoas manifestaram-se em Hong Kong, exigindo a retirada do projeto e apelando à demissão da Chefe do Executivo, Carrie Lam.
Marcha pela libertação dos presos políticos
No final da vigília desta terça-feira, algumas centenas de pessoas marcharam em direção à representação do Governo da China em Hong Kong, apelando a que o governo chinês “admita as atrocidades cometidas” e exigindo a libertação dos presos políticos.
Nos trinta anos do massacre, foi divulgado um vídeo em que dissidentes na China e exilados falam das “feridas não curadas” (ver abaixo).
Nota:
Notícia atualizada dia 4 de junho de 2019 às 18h30