A coordenadora do Bloco de Esquerda defende que "este é um momento de discutir a maioria absoluta e o que o governo do PS fez ao país", numa altura em que os dois candidatos à liderança do PS estão em disputa "para ver quem é que é o maior herdeiro da maioria absoluta".
"A maioria absoluta deixou o país numa situação de crise social e política. E falar do futuro, sem falar do presente e sem falar do que aconteceu há muito tempo, sem falar da maioria absoluta é um erro. É preciso compreender o que é que se passou neste país para um governo de maioria absoluta ter caído de um dia para o outro, para um governo que tinha toda a estabilidade e toda a maioria para governar ter deixado Portugal no estado em que deixou", afirmou Mariana Mortágua, entrevistada pela rádio TSF e pelo Diário de Notícias.
Como fez no comício do Bloco na quinta-feira, a coordenadora bloquista apontou o dedo aos "facilitadores" dos negócios das grandes empresas do país, que são "as empresas de advogados, são ministros, muitas vezes, são secretários de Estado. É um regime de portas giratórias que faz com que os interesses de um grupo pequeno de pessoas e de grupos económicos passem por interesses nacionais", como aconteceu nas privatizações da Portugal Telecom, da EDP ou em projetos imobiliários de luxo que se revelaram crimes ambientais, como os da Comporta ou da Herdade do Pinheirinho. Nesses negócios foi sempre invocado o interesse nacional "quando, na verdade, é do interesse de um punhado de empresários, e de gente com poder, que depois vai manipulando o interesse público e quem está no governo".
O balanço de uma maioria absoluta "que deixou cicatrizes profundas no país, que deixou uma situação de desgaste social e de desgaste político", passa também por olhar para o que está a acontecer nas políticas de habitação, com as pessoas a não conseguirem encontrar uma casa a preços que possam pagar "porque há um grupo de interesses imobiliários e de especuladores que ganhou com os preços das casas a subir", acrescentou.
Mais do que discutir políticas de alianças sobre resultados eleitorais que não se conhecem, "o dever do Bloco é o de apresentar alternativas e soluções", dar a conhecer o seu programa e propostas e dizer o que faria de diferente. "O Bloco será um partido de governo para governar com ideias que tem" e Mariana Mortágua mostra-se confiante de conseguir os votos necessários para que isso aconteça nas eleições de março.
"Quando eu vou a eleições, e quando apresento o meu programa, eu tenho um programa para defender a habitação. Que não é o mesmo programa do PS e não é o mesmo programa da direita. E o que eu quero dizer às pessoas é que sou capaz e quero baixar o preço das casas. E que tenho medidas para isso", prosseguiu. Sobre a preferência por qual o candidato socialista que deseja enfrentar nas legislativas, Mariana Mortágua responde que a escolha pertence aos militantes do PS. E irá debater com quem for eleito líder do PS "sobre o que aconteceu durante os anos da maioria absoluta, e sobre a forma como viraram a cara ao país e como deixaram o país numa situação em que uma pessoa que recebe um salário de 1000 ou de 1500 euros não consegue encontrar um lugar para viver".
"O meu objetivo é ter o melhor resultado possível" nas legislativas, que se traduz num resultado que permita ao Bloco "ser capaz de impor soluções" e "ter força para executar" o programa com que se apresenta a eleições. Quanto à fasquia que coloca para esse resultado, diz apenas que "o céu é o limite" e que "quanto mais deputados e deputadas elegermos, mais força teremos no Parlamento para poder impor soluções diferentes. Para poder executar o nosso programa".
"Nunca ninguém viu a extrema-direita a combater alguém com poder"
Questionada sobre o crescimento da extrema-direita, a coordenadora bloquista responde que ele acontece num ambiente de "desagregação da direita tradicional", que depois de ter governado com a troika e "de ter dito ao país que era necessário empobrecer", foi possível mostrar ao país que havia outras alternativas. Depois, a viragem do PS ao centro com o mote das contas certas "deixou a direita do centro e a direita tradicional sem programa e sem caminho". Essa incapacidade de afirmação ajudou "ao surgimento de uma extrema-direita violenta, boçal, agressiva, e que tem a sua expressão em Portugal como tem um pouco por todo o mundo".
"A extrema-direita tinha no seu programa acabar com o SNS, vendê-lo às postas, acabar com o sistema de educação, despedir os professores, acabar com os direitos sociais, baixar os salários. É por isso, aliás, que não tem nenhuma proposta, porque no dia em que disser a proposta que tem solta-se a caixa de Pandora e solta-se o horror, prosseguiu Mariana Mortágua, apontando também alguns dos nomes ligados aos donos das maiores empresas do país que financiam o partido de Ventura para defender "o mesmo regime de economia viciada e de portas giratórias".
"A extrema-direita bate em quem está no chão. Bate em quem já foi destruída, em quem já não existe. Nunca ninguém viu a extrema-direita a combater alguém com poder. Alguém com poder de verdade. Quando Ricardo Salgado tinha poder ou quando Zeinal Bava tinha poder. Isso nunca ninguém ouviu", sublinhou, contrastando com o que tem sido a ação do Bloco nas últimas décadas "a combater quem tem poder". "E é por isso que eles não nos suportam. E não nos financiam, certamente", rematou.