O público entrava na plateia, frisas e camarotes do Teatro Viriato até esgotar praticamente os lugares, reparando que no centro do palco estava já sentado Luca Argel, o músico, poeta e escritor luso-brasileiro, que vem fazendo uma brilhante carreira em Portugal, onde reside há mais de uma década, já com sete álbuns gravados em nome próprio. Para a estreia das apresentações em palco do seu último álbum, “O Homem Triste”, Luca Argel escolheu Viseu. Iniciou a carreira profissional nos palcos em Portugal, com os grupos “Samba Sem Fronteiras” e a “Orquestra Bamba Social”; criou com a cantora Ana Deus o duo “Ruído Vário”, musicando poemas de Fernando Pessoa, e outras parcerias com o rapper Keso, Filipe Sambado, A Garota Não, Mitó Mendes (cantando José Mário Branco), para além de compor música para dança e filmes ou a produção de programas de rádio e podcasts sobre música brasileira. Mestre em Literatura pela Universidade do Porto, já publicou livros de poesia no Brasil, Espanha e Portugal, tendo chegado a semifinalista do “Prêmio Oceanos” 2017.
Luca levantou-se e começou a falar para a plateia, a pretexto de dar tempo para a chegada dos mais retardatários, talvez um premeditado aquecimento do público para o clima de diálogo intimista que se prolongou por todo o espectáculo, com “interlúdios” explicativos das respectivas letras e das razões mais profundas do álbum: a construção social da masculinidade e o sofrimento, tristeza e isolamento sentido pelas vítimas de “bullying”, discriminação e repressão, na rua e na escola. Ele próprio viu colegas afastarem-se dele por ter cumprimentado um colega “gay”. E o seu irmão mais novo, num momento de zanga, chamou-o de “veado” (termo usado no Brasil para depreciar uma pessoa “gay”). Luca interrogou o menino: “Sabe o que é que isso significa?” E a resposta veio ingénua e reveladora: “Não sei…” Por certo terá ouvido, na escola ou na rua, achincalharem assim o irmão. Esta história veio a propósito da canção “Meu Irmão”, uma linda valsinha, onde o acordeão de Pri Azevedo dá um suave toque de “musette”.
O sociólogo John Macinnes, em “O Fim da Masculinidade”, de 1998, (Ambar, 2002), defende que “a masculinidade não existe enquanto propriedade, traço de carácter ou aspecto da identidade dos indivíduos, (...) existe apenas sob a forma de ideologias ou fantasias diversas, sobre o modo como «deveriam» ser os homens, que os homens e as mulheres desenvolvem para melhor conseguirem compreender as suas próprias vidas (...) herança ideológica de uma ordem patriarcal incompatível com a modernidade e com o universalismo.” E Pierre Bourdieu, na obra “La Domination Masculine” (Seuil, 1998), descreve como o movimento gay e lésbico (hoje diríamos LGBTQI+) se revoltou contra a forma de violência e dominação simbólica que estigmatiza tanto como certas formas de racismo, mas nega a “existência pública, visível” de homossexuais, reduzindo-os à “invisibilidade” ou à “dissimulação”. Não é por acaso que só no ano passado se publicou a primeira “História da Homossexualidade em Portugal - Desde o século XIII até ao século XX”, de Victor Correia. Mas Lucas Argel sintetiza magistralmente estas análises na letra de “O Homem Triste”: “Foi na TV que aprendi a ser homem/ Foi na escola e nos filmes de herói/ Ser o maior, o mais forte, o primeiro/ E ainda não sentir-se inteiro// Foi no jornal que aprendi a ser homem/ Foi na igreja e no futebol/ Foi nos olhos do pai do pai do pai do meu pai/ Que ouvi // Vai, vai, meu conquistador/ Avança, avança/ E mostra ao mundo/ como é grande/ A tua insegurança// (...) “Pele solta sobre o músculo/ Pêlo grosso no nariz/ Mais vale ser homem do que ser feliz.”
O autor de “Samba de Guerrilha” pegou num rolo de onde deslizou uma longa lista de interdições que, por volta dos cinco anos de idade, são tradicionalmente transmitidas aos meninos para formatar a sua masculinidade, restringindo as formas de lidar com as suas emoções e fragilidades, tipo “Um homem não chora”, “Um menino não brinca com bonecas”, etc, através das várias componentes da sociedade (família, escola, amigos, televisão, cinema…).
A este propósito, Luca contou-nos que Vinicius de Moraes tinha dois grupos de amigos, um de intelectuais como ele e outro na praia, mais popular, que incluía um lutador de jiu jitsu que um dia lhe perguntou: “Ouvi dizer que você estava escrevendo poesia…?” O poeta, “um dos maiores de língua portuguesa do século XX”, respondeu: “Eu? De jeito nenhum!”
Luca Argel escreveu no ano passado um livro com um ensaio baseado na sua dissertação de mestrado: “Meio Energúmeno - notas para uma leitura antimachista de Vinicius de Moraes”. A “meiguice e a delicadeza” com que o poeta canta a mulher amada não escondem os estereótipos machistas na sua obra, reflexo da sua época, os quais, embora mais actuantes em meados do século XX, ainda persistem na sociedade como “sintoma de uma ideologia que ansiamos por ver ultrapassada”, na leitura de Rosa Maria Martelo, para quem “ler criticamente e de forma antimachista a obra de Vinicius de Moraes é uma maneira de prestar homenagem às inesquecíveis criações do poeta. Argel cantou-nos “a primeira canção feminista” da MPB, “Maria Moita”, de Carlos Lyra e Vinicius: “Mulher ser mulher/Maria Moita/ Não tem fala, não tem voto, não tem nada”(...) Maria Moita/ Mulher que é mulher, Maria Moita/ Bota o homem na cozinha, Maria Moita”.
Rosa Maria Martelo vislumbra na obra literária e musical de Luca Argel uma profunda preocupação com “as desigualdades de classe e de género”. Para ele, o samba, mais do que a celebração da festa, expressão da alegria, é “uma resposta, com dimensão política, ao peso da opressão, da marginalização, da racialização e da pobreza”.
O concerto, no passado dia 6, teve um alinhamento com as belíssimas nove canções de “O Homem Triste” e ainda “Doze Anos”, de Chico Buarque, e “Lenço Enxuto”, de Samuel Úria (“que um homem pra que chore, não pode chorar”), servidas por uma banda de excelentes músicos: para além do próprio Luca Argel (voz e guitarra), .Cláudio César Ribeiro (guitarra eléctrica), Júnior Castanheira (baixo), Carlos César Motta (bateria), Neném do Chalé (percussão) e Pri Azevedo (teclado e acordeão). A pianista é o único membro desta banda que gravou o álbum no Brasil com outros músicos, acompanhados por uma Orquestra de Cordas, com produção de Moreno Veloso.
Lisboa poderá ver este concerto, no próximo dia 2 de Março, no Teatro Maria Matos.
Artigo de Carlos Vieira