A 20 de abril de 2010, uma plataforma que era propriedade da empresa suíça Transocean e operada pela BP para perfurar nas águas profundas do Golfo do México explodiu e afundou, expelindo mais de 757 milhões de litros de petróleo. Onze trabalhadores morreram naquele dia, mas vários especialistas citados pelo The Guardian argumentam que o número de mortos resultantes do derramamento pode ser muito maior e sub-notificado, já que os trabalhadores da limpeza começaram imediatamente a desenvolver doenças que estarão associadas à exposição a toxinas do petróleo, bem como ao Corexit, o produto químico que foi usado pela BP para dissolver manchas de petróleo.
Durante os 87 dias em que o petróleo se espalhou a partir do fundo do mar, trabalhadores de baixo rendimento do Louisiana, Mississippi, Alabama e Flórida recolheram bolas de alcatrão das praias, absorveram o petróleo com barreiras absorventes, descontaminaram barcos e queimaram petróleo na superfície da água. Foram ainda responsáveis pelo resgate de inúmeros animais selvagens.
Desde a limpeza, milhares de pessoas tiveram problemas respiratórios crónicos, erupções cutâneas e diarreia, um problema conhecido entre os moradores locais como “síndrome da BP” ou “síndrome da costa do Golfo”. Outros desenvolveram cancro. Riki Ott, o toxicólogo que se envolveu na defesa de trabalhadores de limpeza de derrame de óleo de Exxon Valdez em 1989, no Alasca, alerta que mais casos de cancro relacionados com o desastre ambiental surgirão ao longo dos anos.
Perante a desresponsabilização da BP face aos problemas de saúde resultantes do seu contributo imprescindível para a limpeza da zona e a salvaguarda da vida animal e de vidas humanas, estes trabalhadores avançaram com processos contra a gigante petrolífera. Não existe qualquer acordo de ação coletiva para os trabalhadores de limpeza e residentes costeiros que adoeceram anos após o derramamento. Devido aos termos de um acordo anterior, estes devem processar a BP individualmente para serem compensados pelas suas lesões crónicas, e muitos dos casos estão sob uma ordem judicial que os impede de reivindicar indemnizações punitivas.
A BP viu-se obrigada a pagar 65 milhões de dólares a 22.588 pessoas no acordo médico para doenças de curto prazo, menos de 3.000 dólares a cada em média. A multinacional também gastou mais de 60 mil milhões de dólares por perdas económicas e de recursos naturais decorrentes do derrame, bem como sanções civis sob a Lei da Água Limpa. Mas no que respeita aos problemas de saúde de longo prazo, a BP adotou uma abordagem de “terra queimada” para cada processo.
“A BP quer que saibamos que eles lutarão contra esses casos até o fim”, afirmou o advogado Jerry Sprague, que entrou com cerca de 600 processos médicos contra a petrolífera.
De acordo com os registos do tribunal do distrito leste do Louisiana, quase 5.000 casos foram abertos em janeiro de 2020. A empresa contratou especialistas em centenas de casos e, em alguns deles, interrogou os queixosos e os seus médicos por horas, vasculhou seus registos médicos, declarações fiscais e currículos.
Em tribunal, a BP argumentou que, sem evidências biológicas, trabalhadores e residentes costeiros não podem provar que as suas doenças foram causadas pelo derrame de óleo, apesar de várias investigações associarem a exposição ao derrame a um maior risco de cancro e taxas mais altas de problemas respiratórios de longo prazo, doenças cardíacas, dores de cabeça, perda de memória e visão turva.
Milhares de casos foram arquivados, de acordo com os advogados dos queixosos. Apenas um caso conhecido resultou em acordo.
“É de longe o desastre de saúde pública mais angustiante com que já me confrontei”, afirmou Tom Devine, diretor jurídico do Projeto de Responsabilidade do Governo, que produziu vários relatórios com base em entrevistas com trabalhadores de limpeza doentes.
“O que é particularmente frustrante é que a BP não se importa”, frisou.
O Downs Law Group, um escritório de advocacia com sede em Miami, expôs a documentação utilizada para disseminar informação entre os trabalhadores de limpeza. Nesta é possível comprovar que firam dadas informações mínimas sobre os perigos tóxicos e que estes foram, inclusive, minimizados. A BP disse a muitos dos seus trabalhadores de limpeza que não precisavam utilizar proteção respiratória.
Apesar de receber orientação do governo federal para proceder à monitorização biológica, através da medição de toxinas no sangue, pele ou urina dos trabalhadores de limpeza, a BP limitou-se a monitorizar o ar. Para esse efeito, contratou a empresa CTEH que tem um histórico de trabalhar com empresas para minimizar os riscos de grandes eventos de poluição pelos quais são responsáveis. De acordo com especialistas e os advogados dos queixosos, os testes implementados eram inadequados e não podiam provar que os residentes estavam seguros.
Além de tentar controlar a narrativa pública, a BP colocou investigadores e peritos na sua folha de pagamento e reviu certas pesquisas científicas sobre os impactos do derrame.
“A BP influenciou a ciência”, disse David Durkee, advogado do Downs Law Group.
Estudos publicados nos últimos cinco anos relacionaram a exposição ao derrame da BP de 2010 a uma série de problemas de saúde, incluindo problemas cardíacos, sintomas neurológicos e um aumento na taxa de nascimentos de bebés prematuros e abaixo do peso. Esses estudos de saúde baseiam-se nos de outros derrames, como o derrame do petroleiro Prestige na costa da Espanha em 2002 e o derrame do petroleiro Hebei Spirit em águas sul-coreanas em 2007.
Grupos ambientalistas alertam que as normas de segurança introduzidas até ao momento não são suficientes e não têm em consideração investigações publicadas nos últimos anos que mostram os riscos dos dispersantes químicos para a saúde humana.
“A indústria do petróleo basicamente terá um cheque em branco para usar o Corexit repetidamente”, vincou Tom Devine.