A decisão do juiz Pablo Larena não apanhou ninguém de surpresa, pois já esta semana tinha indicado que reunira indícios suficientes para a acusação de rebelião. Esta sexta-feira anunciou-a contra treze dos protagonistas do processo político pró-independência vivido na Catalunha nos últimos anos, que ocupavam postos de responsabilidade no governo e instituições políticas e também nos movimentos cívicos.
A argumentação do juiz para justificar uma acusação que pode implicar uma pena superior a 20 anos de prisão centra-se na ideia de que o processo político desencadeado pelo governo foi um processo violento. E refere o cerco às buscas policiais aos ministérios poucas semanas antes do referendo de 1 de outubro, quando milhares de pessoas se concentraram à porta das instituições catalãs em protesto contra a intervenção policial. “Os principais responsáveis por estes factos sempre tiveram consciência de que o processo terminaria com o recurso à utilização instrumental da força”, diz a acusação.
Avui sortim a les places en suport d'en Jordi, la Carme, en Josep, la Dolors, en Räul, la Marta i la resta dels presos polítics i dels exiliats. Estem units davant d'aquesta repressió intolerable! #LlibertatPresosPolítics pic.twitter.com/hL1FtEK9do
— Òmnium Cultural (@omnium) 23 de março de 2018
A prisão preventiva foi decretada para cinco dos acusados: Jordi Turull, que era o atual candidato da maioria JxCat/ERC a liderar o governo, a ex-presidente do parlamento Carme Forcadell e os ex-governantes Raul Romeva, Josep Rull e Dolors Bassa. Também acusada pelo crime de rebelião, a dirigente da ERC Marta Rovira antecipou-se ao anúncio da decisão e partiu para o exílio na Suíça.
“O exílio será um duro caminho, mas é a única forma que tenho de recuperar a minha voz política. É a única forma que tenho de me erguer contra o governo do PP, que persegue quem está a favor de votar, e que castiga quem tente mudar o que está estabelecido”, afirmou Marta Rovira, que liderou a campanha da ERC nas eleições de dezembro, na ausência do seu líder, Oriol Junqueras, preso desde novembro e agora formalmente acusado pelo juiz.
Para além dos 13 acusados de rebelião, há mais um dúzia de ex-governantes e deputados acusados de desobediência pelo Tribunal Supremo. Entre eles estão figuras do JxCat e ERC, mas também duas deputadas da CUP e um deputado da coligação Catalunya en Comú-Podem: Joan Josep Nuet, o coordenador da Esquerra Unida i Alternativa que integrava a Mesa do Parlamento dissolvido em outubro.
Manifestações de protesto marcadas para a noite de sexta
A resposta à escalada da repressão política e judicial veio dos setores independentistas, que convocaram concentrações por toda a Catalunha para a noite de sexta-feira, e também dos protagonistas políticos.
Tres minuts d'indignació. Les cassoles repiquen com un únic clam per exigir la llibertat dels presos polítics, ostatges d'un Estat cruel que actua amb impunitat. Us volem a casa! A tots! #LlibertatPresosPolítics pic.twitter.com/98kCQv0WvK
— Òmnium Cultural (@omnium) 23 de março de 2018
A Igualada la gent surt per demanar #LlibertatPresosPolítics pic.twitter.com/861eqkZS3f
— Decidim Igualada (@DecidimIgualada) March 23, 2018
Milers de persones omplen la plaça Major de Vic, població de la Marta Rovira#EmpresonatsTV3https://t.co/lBtz0dwlTW pic.twitter.com/wBUcXYCUE1
— 324.cat (@324cat) March 23, 2018
Para o líder do governo destituído, “o Estado espanhol antidemocrático é uma vergonha para a Europa”. Puigdemont salienta que a decisão de prender os cinco acusados surgiu no dia em que o Comité dos Direitos Humanos ONU exigiu a Espanha que respeite os direitos políticos de Jordi Sànchez, o deputado que foi impedido de sair da prisão para se apresentar no parlamento como candidato a liderar o governo.
El dia que l'ONU (@UN) exigeix a Espanya que respecti els drets de Jordi Sánchez (@jordialapreso) el jutge envia a la presó 5 dels nostres companys per les seves idees i el seu compromís. L'Estat espanyol antidemocràtic és una vergonya per a Europa.#LlibertatPresosPolítics
— Carles Puigdemont (@KRLS) 23 de março de 2018
O candidato seguinte a formar governo foi Jordi Turull, que esta semana não passou na primeira votação, graças à abstenção de quatro deputados da CUP e a ausência dos dois deputados exilados. Turull já não vai poder assistir à segunda votação, pois é um dos acusados a entrar em prisão preventiva. “Estou a ser preso por ter sido leal ao mandato de quem me elegeu representante do povo da Catalunha, ao Presidente, ao Governo e ao Parlamento”, afirmou Jordi Turull, apelando à defesa pacífica da democracia e da dignidade da Catalunha.
Això us volia tornar a dir, amb el cap ben alt i podent mirar als ulls de tothom pic.twitter.com/8oMRxfR5ZU
— Jordi Turull i Negre (@jorditurull) 23 de março de 2018
A Esquerda Republicana Catalã, que passa a ter o líder preso e a secretária-geral no exílio, afirma que não desistirá até que todos os presos políticos possam estar em liberdade. Numa conferência de imprensa à porta da sede do partido, Pere Aragonès afirmou que “a tergiversação dos factos, a reintrepetação de artigos do Código Penal ou a invenção de uma violência inexistente para justificar as imputações pelo crime de rebelião deixam-nos numa posição de impotência inaceitável em democracia“.
Persistirem, persistirem i persistirem. Fins que sortiu. Fins que sigueu lliures.
Carme, Dolors, Raül, Jordi, Josep, Oriol, Quim i Jordis, mai defallirem! #LlibertatPresosPolítics pic.twitter.com/AsTVvMhyJz
— Esquerra Republicana (@Esquerra_ERC) 23 de março de 2018
Por seu lado, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, diz que “é indecente que enquanto os corruptos beneficiam da mais escandalosa impunidade, os dirigentes catalães vão para a prisão ou se exilem”.
Es indecente que mientras los corruptos disfrutan de la más escandalosa impunidad, dirigentes catalanes vayan a la cárcel o se exilien. Queremos a Catalunya en una España fraterna. El conflicto catalán se debe resolver políticamente, con diálogo y escucha, no a la fuerza
— Pablo Iglesias (@Pablo_Iglesias_) 23 de março de 2018