Jornalismo

A liberdade de imprensa está em recuo no mundo, Chega é problema em Portugal

03 de maio 2025 - 17:29

No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, o ranking dos Repórteres sem Fronteiras diz que para além da repressão, também a concentração da propriedade dos media, a pressão de anunciantes ou financiadores e a ausência, restrição ou opacidade dos auxílios públicos minam a liberdade de imprensa. Em Portugal a situação deteriorou-se e menciona-se a extrema-direita como problema.

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Pavlo Borysko, jornalista ucraniano atingido por um bombardeamento russo.
Pavlo Borysko, jornalista ucraniano atingido por um bombardeamento russo. Foto RSF.

A organização Repórteres sem Fronteiras lançou esta sexta-feira o seu ranking mundial de liberdade de imprensa. Nele se conclui que “pela primeira vez a situação da liberdade de imprensa se tornou difícil à escala global” e o mapa do mundo está cada vez mais assinalado a vermelho.

Há um “declínio alarmante” em muitas partes do mundo, destacando-se a pressão económica sobre a liberdade de imprensa com “concentração da propriedade dos meios de comunicação, pressão de anunciantes ou financiadores, ausência, restrição ou atribuição opaca de auxílios públicos”.

A organização considera que “os meios de comunicação estão divididos entre a garantia de sua independência e a luta pela sua sobrevivência económica”. Anne Bocandé, diretora editorial dos RSF, explica que “garantir um espaço de meios de comunicação pluralistas, livres e independentes exige condições financeiras estáveis e transparentes” e que “sem independência económica, não há imprensa livre”. Meios economicamente enfraquecidos são “arrastados pela corrida por audiência, em detrimento da qualidade” e podem “tornar-se presa fácil de oligarcas ou de decisores públicos que o exploram”.

O indicador económico é apenas um dos cinco analisados para estabelecer o ranking mas tem importância determinante na deterioração da situação. Os Estados Unidos, ainda antes da notícia desta sexta-feira das ordens executivas de Trump a cortar financiamento aos canais públicos PBS e NPR, que consideram que não lhe são dóceis, eram já considerados os “líderes da depressão económica”. O país ocupa a 57ª posição no ranking e desceu duas. No indicador perdeu mais de 14 pontos em dois anos com “vastas regiões” a transformar-se “em desertos de notícias”, dado que o jornalismo local está a pagar o preço mais alto da recessão económica.

Antes dos cortes aos meios de comunicação públicos que operam nos EUA, Trump tinha cortado nos canais que têm uma dimensão externa como o Voice of America e a Radio Free Europe/Radio Liberty que faziam chegar informação a mais de 400 milhões de pessoas no mundo. Os cortes de Trump no USAID tiveram também efeito, pois financiavam centenas de meios de comunicação social.

Outro desafio económico é o domínio das grandes plataformas da Internet que distribuem informações, captando “uma parcela crescente das receitas de publicidade que historicamente sustentaram o jornalismo”. Para além disso, “também contribuem para a proliferação de conteúdos manipulados ou enganosos, amplificando os fenómenos de desinformação”.

Há outra ameaça económica, a concentração da propriedade dos meios de comunicação. Em 46 países, a propriedade dos meios de comunicação está “altamente concentrada” ou até totalmente nas mãos do Estado. Destacam-se casos como a Rússia, a Hungria, a Geórgia, a Tunísia, o Peru e Hong Kong, mas não se esquecem países muito melhor classificados como Austrália, Canadá, República Checa e Finlândia, onde se detetam problemas de concentração. E até a França, onde “uma parte significativa da imprensa nacional está controlada por alguns grandes conglomerados económicos, restringindo a diversidade editorial, aumentando os riscos de auto-censura e levantando sérias dúvidas sobre a real independência das redações em relação aos interesses económicos ou políticos de seus acionistas”.

A interferência direta dos donos foi encontrada em mais da metade dos países avaliados. Com o controlo exercido por figuras próximas do poder político no Líbano, Índia, Arménia e Bulgária e com “envolvimento sistemático” noutros 21 países.

Uma pioria generalizada

No geral, seis em cada dez países viram a sua pontuação diminuir. Considera-se agora que as condições para a prática do jornalismo “são difíceis, ou mesmo muito graves, em metade dos países do mundo e satisfatórias em menos de um quarto deles”.

Em 42 países, que representam mais da metade da população mundial, a situação é considerada “muito grave”. Na Palestina, por exemplo, vive-se um “massacre contra o jornalismo” com cerca de 200 profissionais da informação mortos, incluindo pelo menos 43 no exercício das suas funções. O Médio Oriente é a região mais perigosa para os jornalistas, junto com África, onde a situação é também muito grave no Uganda, Etiópia, Eritreia, Ruanda, Burkina Faso, Sudão, Mali, entre outros. Do lado positivo, refere-se o Senegal que “registou um avanço de 20 posições, impulsionado por projetos de reforma económica com base no consenso”.

Na Ásia, por exemplo na China, considerada “a maior prisão do mundo para jornalistas” e Hong Kong, para além da Coreia do Norte e do Quirguistão e Cazaquistão.

No continente americano a Argentina surge mencionada porque “o presidente Javier Milei estigmatizou jornalistas e desmantelou os meios de comunicação social públicos”. E no Peru e El Salvador “a liberdade de imprensa é fragilizada pela propaganda e pelos ataques aos meios de comunicação com linhas editoriais críticas ao governo”. Isto para além da Nicarágua, onde “onde o governo Ortega-Murillo desmantelou os meios de comunicação social independentes”. A nota positiva do continente vai para o Brasil que “manteve sua trajetória de recuperação após o período Bolsonaro”.

Na Europa estão os países com mais de liberdade de imprensa, mas há cada vez mais divisão com a Europa Oriental–Ásia Central a sofrer “a maior queda na pontuação geral”. As melhores situações são as da Noruega, o único país classificado como em “boa situação” nos cinco indicadores e o primeiro classificado mundialmente, seguida por Estónia, Países Baixos e Suécia.

Sinais de alerta em Portugal

Escreve-se ainda que “a situação está-se a deteriorar especialmente em Portugal, Croácia e Kosovo”.

O nosso país está num confortável oitavo lugar, mas desceu um lugar relativamente ao ano passado. De acordo com os Repórteres sem Fronteiras, a liberdade de imprensa é “sólida” e os jornalistas podem fazer o seu trabalho “sem restrições”, à parte dos “incidentes perpetrados por apoiantes de futebol e militantes de extrema-direita”.

O relato dos RSF é de uma paisagem mediática “dominada por cinco grandes grupos” com um quarto dos concelhos do país a não ter sequer um meio de comunicação social local. Indica-se uma “erosão significativa das vendas” de jornais e revistas, o facto dos salários dos jornalistas, “já baixos”, não ter sido aumentado em linha com a inflação e lembra-se a compra do Global Media Group por “um misterioso fundo das Bahamas” e o despedimento de jornalistas que se seguiu.

Politicamente a referência vai para o Chega, podendo-se ler que “os jornalistas são por vezes ameaçados ou agredidos – fisicamente ou verbalmente – por membros ou simpatizantes do partido de extrema-direita Chega. Exemplifica-se que “depois de ter ameaçado os jornalistas na altura das eleições presidenciais de 2021, o partido contestou o tratamento mediático dos trabalhos parlamentares e aconteceu uma agressão física de um jornalista numa sessão do líder do partido na campanha das legislativas de 2024.