“quando incorporada à educação, essa literatura [a LGBTQIA+] não apenas enriquece o conhecimento dos alunos, mas também contribui para uma sociedade mais inclusiva, empática e igualitária, onde todas as vozes têm espaço para serem ouvidas e celebradas”
Couto & Coutinho (2023)
A literatura LGBTQIA+ aparece como estratégia pedagógica dinamizadora de inclusividade, aparece por oportunidade de dialogar estratégia pedagógica, pedagogia queer e escola inclusiva de todos para todos e com todos. Opinar sobre a temática surge pela necessidade do testemunho, na primeira pessoa, de Miguel Salazar, pela re-introdução da obrigatoriedade de validação médica para a mudança de género, a RCM n.º 158/2025, de 13 de outubro, que apaga a Educação Sexual do currículo e, principalmente, pelo contexto neo-nazificado do nosso Portugal de 2026, principalmente desde que o livro infantil No meu bairro, da autoria de Lúcia Vicente e ilustrado por Tiago M., caracterizado pela sua linguagem inclusiva e neutra, ter sido apupado a 29 de Setembro de 2023, na livraria Almedina do Rato, em Lisboa, por grupos ADN nacionalistas e conservadores (e anti-LGBTQIa+ e anti-imigração). Principalmente também, pela marginalização das temáticas da OIEC , após o ocaso do “mito da excepcionalidade portuguesa”, em 2019, já prognosticado em 2018.
Sou consciente sobre a imperatividade de queerizar o currículo,ou seja, a introdução e dinamização de um currículo (des)construtor de (pre)conceitos e subtractor de esteriótipos queer, consciente da importância de deseterossexualizar o mesmo para incluir pessoas não (hetero)normativas, pois estes defendo a eussociabilidade e interconectividade entre sexualidade, identidade, outridade e literatura.
A literatura é um agente de dinamização, transformação e formação inquestionável e um construtor de “identidades culturais e de formação das visões do mundo”. Argumento sobre a importância da existência de literatura pedagógica desconstrutora de pre-conceitos na escola e amplificadora da consciência da realidade LGBTQIA+. Os estudos científicos educacionais evidenciam que a literatura actua como veículo construtor e desenvolvedor da personalidade e da percepção, compreensão e eussocialização da/para/com a alteridade. Enfatizo, assim, a importância da introdução de narrativas desafiadoras de estereótipos e celebrantes da diversidade e heterogeneidade humanas. A leitura de literatura LGBTQIA+ enriquece majormente a compreensão das pessoas aprendentes sobre a complexidade e multiplicidade das questões de género e sexualidade, actua como desconstrutor e reconfigurador do silenciamento histórico, social e, principalmente, educativo, da nossa temática, que, sejamos honestos, é ainda considerada uma “não questão” pelos actores da comunidade educativa. A literatura como inclusor LGBTQIA+ constitui, defendo, um passo para o dessilenciamento académico existente sobre a mesma, desinvisibiliza (ou pelo menos oferece os meios para a mitigação) e promove um modus videndi consciencializador de uma educação mais inclusiva, mais justa, mais igualitária e promotora da consciencialização para a não discriminação, a não violência e para uma cultura de paz. E, para isso, revisitar, revisar e reactualizar a literatura faz-se imperativo.
Imperativo também, na minha opinião, introduzir que a literatura LGBTQIA+ revela-se como uma ferramenta pedagógica de valor inestimável, capacitando a inclusão e promovendo uma compreensão(...) da diversidade em contextos educacionais. (...) devidamente incorporada ao currículo, ela contribui substancialmente para a construção de uma sociedade caracterizada por princípios de equidade e justiça. Ao confrontar narrativas que desafiam preconceitos e promovem a aceitação, a sociedade é levada a questionar as suas suposições e a evoluir em direção a um ambiente mais inclusivo e igualitário.
A literatura, como estratégia pedagógica dinamizadora e gerenciadora de inclusividade LGBTQIA+ , quer em contexto educativo infanto-juvenil, quer em outro, assume um papel primeiro na concepção e formação de percepções e representações de realidades, principalmente as omitidas, excluídas, silenciadas ou estigmatizadas na literatura. Materializar modelos literários e, subsequentemente, identitários da representatividade positiva LGBTQIA+, constitui, na minha opinião, uma estratégia pedagógica fundamental na inclusão do ser humano, desafiadora e desconstrutora de estereótipos, e também promotora da aceitação e compreensão da realidade. Paulo Freire (1996) salienta a “importância da consciencialização e da reflexão crítica como ferramentas para a transformação social”. Na presença desta realidade, sou adepto que o integrar narrativas dialogadoras da diversidade de vozes sexuais e de género no currículo, enriquece a experiência educacional e, simultaneamente, um ambiente educacional mais inclusivo, onde a diversidade é celebrada e a empatia é cultivada.
Defendo e reconheço o potencial transformador da literatura como estratégia pedagógica de inclusividade LGBTQIA+ , assim como a sua imperativa e assidua integração nos curricula, como construtor e pilarizadora de currículo mais inclusivo e igualitário, promotor da representatividade e afirmatividade positivas e obsoletor da invisibilidade queer nas narrativas literárias.
Trazer a temática LGBTQIA+ para a comunidade educativa e pedagógica, estrategicamente por intermédio da literatura homónima, constitui-se imperativamente importante, pois a mesma dá “voz” às pessoas assexuais/arromânticas, agénero, pan/poli, não binárias e “+”(outras), traduzidas, hoje, 2024, na sigla LGBTQIA+, o que traduz a pluralidade e a heterogeneidade da pessoa humana e a universalidade de uma escola no século XXI de todos e para todos.
O professor é o actor primeiro na/para a consciencialização da importância positiva e responsável da sexualidade humana e das suas manifestações heterogéneas, pluralistas e personalizadas. Partilho da opinião que ser professor requer um exercício de reflexão acerca de todos os elementos que constituem o processo de ensino-aprendizagem e exige constante transformação, não impreparação dialógica e capacidade de questionar o mundo e posicionamentos no processo educativo. No cenário escolar, é fundamental que o educador foque em estratégias pedagógicas para discutir sobre a intolerância dentro de sala de aula, principalmente, visando problematizá-los. O professor, como democratizador do saber, propõe-se a acompanhar as transformações da sociedade e das gerações, enfrentando novos desafios que surgem, e com eles, novas soluções inovadoras.
O docente como pedagogo, formador e orientador e , primeiramente, inclusor, é o detentor de um papel estratégico e pedagógico primeiro no desesteriotipar, orientar e instruir o aprendente para a triangulação dialógica escola-sociedade-inclusão, determinante na democratização do ensino. O professor é actor protagónico como construtor de cidadãos críticos, autónomos, conscientes e actualizados.
A literatura LGBTQIA+, como ferramenta e prática pedagógica, assume que o acto literário, pedagogicamente falando, muito mais do que conhecer, eleger, escolher, decifrar, interpretar, é consciente da importância da universalização e democratização dos direitos humanos e do pilar que somos diferentes e que é através dessa diferença, dessa pluralidade, que nos tornamos iguais. Reflectir sobre a prática docente e a sua continuada revisitação, revisão e ressignificação é, pois, extremamente significativo para dialogar com uma escola inclusiva cultora da heterogeneidade dos actores que a materializam. Defendo e defenderei, assiduamente, que a formação continuada do professor e de toda a comunidade educativa, principalmente os Encarregados de Educação, pode possibilitar a reflexividade e a mudança nas práticas docentes, ajudando os professores a tomarem consciência das suas dificuldades, compreendendo-as e elaborando formas de enfrentá-las. De facto, não basta saber sobre as dificuldades da profissão, é preciso refletir sobre elas e buscar soluções, de preferência, mediante ações coletivas. Só assim, defendo eu, podemos elastificar a voz do Miguel Salazar, reintroduzir outras vozes que, sem medo e receio, mostrem, efectivamente, o verdadeiro rosto das Marias Helenas Costas de Portugal 2026.