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Legislativas no Irão: abstenção histórica e parlamento conservador

Depois da vaga de protestos contra o regime e no meio do surto de coronavírus, é a primeira vez desde a revolução islâmica de 1979 que a participação eleitoral fica abaixo do patamar dos 50%. Com milhares de candidatos reformistas impedidos de se candidatarem, a vitória dos setores conservadores foi folgada.
Khamenei, Líder Supremo da Revolução no Irão, toma posição sobre os resultados eleitorais. Fevereiro de 2020.
Khamenei, Líder Supremo da Revolução no Irão, toma posição sobre os resultados eleitorais. Fevereiro de 2020. Foto de LUSA/ EPA/SUPREME LEADER OFFICE.

Nas eleições legislativas iranianas anteriores, em 2016, a taxa de participação tinha sido de 62%. Quatro anos volvidos foi de 42,57%. Esta foi a taxa de participação mais baixa desde a revolução islâmica de 1979 e está a ser lida por vários observadores como um sinal claro de descontentamento.

O abate de um avião ucraniano por um erro da defesa anti-aérea e a tentativa de encobrimento do sucedido foi o último episódio que exaltou os ânimos. Reacendeu os protestos que tinham parado depois da comoção vivida na sequência do assassinato do general Suleimani por ordem de Trump. Com a economia iraniana a ressentir-se das sanções norte-americanas e com uma nova geração com vontade de mudança, uma onda de manifestações semelhante às outras “primaveras” da região fez-se sentir sobretudo a partir de novembro no país que não é só dos aiatolás.

A taxa de participação também terá sido afetada pelo facto de sete mil candidatos terem sido inabilitados. A maioria dos candidatos impedidos de ir a votos eram reformistas. E mesmo 90 dos deputados do anterior parlamento não puderam concorrer. No Irão, os candidatos têm de ser aprovados pelo Conselho dos Guardiões da Constituição, composto por seis juristas nomeados pelo poder judicial e depois ratificados pelo parlamento e seis teólogos escolhidos pelo Líder Supremo da Revolução, cargo ocupado por Ali Khamenei depois da morte de Khomeini. O órgão, dominado pelos conservadores, tem vetado em sucessivas eleições candidatos considerados mais progressistas em termos religiosos.

Este tipo de veto é contestado. Até o presidente do país, Hassan Rouhani, o criticou recentemente tendo declarado que era o mesmo do que dizer numa loja que os clientes tinham poder de escolha mas colocar à venda apenas uma marca.

Com a fraca afluência eleitoral, falhou a aposta do regime de transformar a afluência às urnas numa grande manifestação de unidade nacional contra o imperialismo dos Estados Unidos. Na capital, por exemplo, a afluência foi apenas de 25.4%. Os trinta lugares deste círculo ficaram nas mãos da linha dura, encabeçada aqui por Mohammad-Baqer Qalibaf.

Com o país a viver uma emergência de saúde, devido ao surto de coronavírus que levou muitos eleitores a votar com máscara, esta tornou-se na desculpa perfeita para a baixa afluência às urnas. Abdolreza Rahmani Fazli, ministro do Interior declarou assim que, dadas as circunstâncias, a participação foi “absolutamente aceitável”.

Khamenei acrescentou à justificação dos resultados a ideia de que a “propaganda” inimiga aumentou a ameaça do coronavírus com o objetivo de dissuadir as pessoas de ir às urnas.

Só que as próprias autoridades não estão a encarar a epidemia de coronavírus como um exagero. As escolas foram fechadas em dez províncias, houve jogos de futebol suspensos e projeções de cinema canceladas.

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