Líbia, episódios de um filme já visto

22 de abril 2011 - 2:22

Os “rebeldes” líbios queixam-se da “ineficácia da NATO”; os generais da Aliança acusam Khaddafi de utilizar civis como “escudos humanos”; no terreno, a invasão estrangeira já começou, de facto, através do envio de “conselheiros” militares e de “contingentes de treino” de países da NATO. Artigo de José Goulão.

PARTILHAR
“Fogo amigo” da NATO já fez mais de uma dezena de vítimas mortais entre os “rebeldes”

A situação militar na Líbia replica cada vez mais as que se registam no Afeganistão e no Iraque a partir do momento em que as posições cristalizaram no terreno e não há da chamada comunidade internacional qualquer manifestação de interesse prático em encontrar uma saída política negociada.

A Líbia está dividida em dois poderes político-militares com capitais em Tripoli e Benghazi. O enclave do regime de Benghazi no ocidente dominado pelo regime de Tripoli é a cidade de Misrata, a terceira do país, onde se concentram actualmente os mais significativos episódios de guerra.

A partir do momento em que o Conselho Nacional de Transição implantado em Benghazi se tornou o canal da ingerência militar estrangeira, sustentado operacionalmente por um aparelho dinamizado por grupos e combatentes fundamentalistas islâmicos – alguns próximos da al-Qaida – desapareceram dos centros de decisão líbios as referências populares da insurreição lançada em Fevereiro contra o regime ditatorial de Kadhafi. A guerra transformou-se num ajuste de contas entre Kadhafi e alguns dissidentes do seu regime, apoiados por extremistas islâmicos, por sua vez sustentados pela coligação internacional liderada pela França e o Reino Unido a rogo dos Estados Unidos. Os movimentos das forças em confronto e as opções da NATO relacionam-se principalmente com os recursos petrolíferos do país e os terminais para o seu escoamento.

“A NATO tem sido ineficaz e em Misrata falhou completamente no objectivo de alterar as coisas no terreno”, queixou-se um porta-voz dos “rebeldes” identificado como “Abdel Salam” pelas agências internacionais. Misrata está sob pressão dos bombardeamentos das tropas de Kadhafi e estas, por seu turno, combatem sob as bombas lançadas pelos aviões da NATO.

A declaração de “Abdel Salam” não se relaciona com o facto de “fogo amigo” da Aliança já ter feito mais de uma dezena de vítimas mortais entre os “rebeldes” mas sim com o desejo de que a NATO faça no terreno o necessário para lhes oferecer o poder em Tipoli.

Dezenas de civis têm morrido em consequência dos combates; Kadhafi acusa a NATO e a NATO acusa Kadhafi de usar as populações como “escudos humanos” para tentar comprometer a eficácia da acção da Aliança.

Analistas militares associados à Aliança Atlântica contestam as opções operacionais que têm sido feitas alegando que o afastamento dos Estados Unidos com a entrega dos comandos da guerra ao Canadá, Reino Unido e França retirou do teatro de batalha os aviões com capacidade de bombardear a baixa altitude, ao que parece, segundo os mesmos analistas, um exclusivo norte-americano.

O comandante operacional canadiano, a exemplo do comandante do contingente norte-americano em África, considera que a guerra entrou num “beco sem saída”, tese que foi defendida pelo chefe dos rebeldes, Mohamad Abdel Jalil, na sua deslocação a Paris para visitar o presidente francês.

“Vamos ajudar-vos”, prometeu Nicolas Sarkozy, embora sem dizer a Jalil as palavras que ele mais desejava ouvir: o anúncio da disponibilidade dos países ocidentais para fazerem uma invasão terrestre destinada a derrubar Kadhafi.

Sarkozy prometeu intensificar os bombardeamentos, intenção cumprida nas últimas horas segundo os relatos no terreno, mas, em termos públicos, França, Reino Unido, Estados Unidos e NATO ainda rejeitam a participação em operações terrestres.

Na prática, a situação é outra e países da NATO começaram já a enviar militares para o terreno. A França informou que “dez conselheiros militares” seguem para Benghazi com o intuito de ajudar os “rebeldes” a organizarem-se e a comunicarem de maneira mais eficaz. O Reino Unido anunciou que enviará “dezenas de militares” para a Líbia em socorro dos “rebeldes”, procurando melhorar a sua organização. A Itália, governada por Sílvio Berlusconi, até há dias o mais firme aliado de Kadhafi na União Europeia, anunciou que enviará um contingente militar para treinar as forças do regime de Benghazi.

“Sabemos muito bem o que aconteceu noutros países quando começaram por ser mandados instrutores militares”, disse o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, numa declaração em que interpreta esta acção como mais um desrespeito pelo conteúdo da resolução 1973 do Conselho de Segurança. “A seguir foram os soldados e centenas de pessoas continuam a morrer dos dois lados”, completou o diplomata de Moscovo.

Trinta anos depois do início da colaboração no Afeganistão, 15 anos depois da estreita aliança combatente na Bósnia Herzegovina, uma década depois da colaboração íntima da qual nasceu o protectorado do Kosovo, forças militares da NATO reencontram-se na Líbia do mesmo lado da barricada dos fundamentalistas islâmicos – sem excluir a al-Qaida – que noutros lados do planeta são qualificados como “terroristas”.

Artigo de José Goulão, publicado no site do do Bloco no Parlamento Europeu