Está aqui

Julien, o jornalista fantasma pago para exaltar as virtudes da energia nuclear

Escreveu artigos encomendados por agências de comunicação e publicados em páginas obscuras mas também em jornais sérios. Alguns assinados como se fosse especialista de diferentes áreas. Um dos principais clientes era a EDF, a companhia elétrica francesa. Por Simon Gouin.
Entrada da Central Nuclear de Civaux. Wikimedia Commons.
Entrada da Central Nuclear de Civaux. Wikimedia Commons.

Durante seis anos, Julien foi a pluma jornalística de muitas empresas ou personalidades que procuravam melhorar a sua imagem. O contador elétrico Linky, os reveses dos gigantes digitais (Airbnb, Waze), as vantagens dos cigarros eletrónicos, o crescimento verde na Arábia Saudita, as proezas de ditadores africanos, a segurança nuclear… os seus artigos foram publicados em páginas mais ou menos obscuras, mas também em jornais online conhecidos como o "Les Echos" e em blogues ou espaços participativos de outros meios de comunicação social (incluindo o "Mediapart").

Julien trabalhou para várias agências de "relações públicas", cujos nomes mudaram ao longo do tempo, mas cujos empregados permaneciam os mesmos. Foi encarregado de escrever artigos para melhorar a reputação destas empresas ou personalidades. Era uma forma de comunicação disfarçada de verdadeiros artigos de imprensa, por vezes publicados em meios de comunicação social apresentados como independentes e que momentaneamente se encontravam no topo dos resultados das notícias do Google.

Dada a sua aparência jornalística, os leitores dificilmente conseguiam identificar o engano. A revista Basta! detalhou estas práticas há alguns anos atrás. As recentes investigações sobre o lóbi da Uber que influenciava decisões políticas ou judiciais confirmam que estas práticas de encomenda de artigos falsos, através de "empresas especializadas", são generalizadas.

No final de 2021, Julien decidiu deixar de trabalhar. Num longo relato publicado no jornal "Fakir", ele relata a sua vida diária, as encomendas da agência em nome de clientes (raramente conhecidos do jornalista), a linguagem a utilizar nos seus artigos e a descoberta, chocante, de que os seus artigos eram publicados sob falsas identidades, sem serem verificados, em publicações de renome.

Linky, glifosato, nuclear: "Defender os interesses do cliente e esbater as linhas"

"Por vezes, sou consultor de economia", escreve Julien no jornal "Fakir", "especialista em geopolítica da energia, jornalista e escritor gabonês, consultor em energias renováveis e soluções alternativas, ex-enfermeiro e consultor da saúde, professor de história e geografia especializado em questões africanas, responsável por estudos técnicos, empresário e editor, advogado especializado em direito da Internet, consultor em novas tecnologias, auditor internacional de riscos...".

Para cada artigo, Julien tinha de seguir um conjunto de instruções: "Apresente o assunto de forma neutra, utilizando acontecimentos atuais, defenda os interesses do cliente e baralhe as provas com outros exemplos, aparentemente não relacionados", explica.

A atualidade ditava as ordens que recebia. Os franceses opõem-se à instalação do medidor Linky? "Foram-me encomendados dezenas e dezenas de artigos sobre as muitas vantagens do Linky, os estudos científicos que atestam a sua inocuidade e o respeito dos dados recolhidos".

O glifosato está a ser cada vez mais questionado pelas suas potenciais consequências para a saúde? Foi-lhe pedido que desacreditasse a Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC) que classifica o produto como "potencialmente cancerígeno".

Jean Ping, um opositor do presidente Ali Bongo, eleito no Gabão em 2009, concorre à presidência? Julien escreveu um artigo questionando a sua moralidade, publicado no site "La diplomatie.fr". Este artigo podia de seguida ser utilizado nas redes sociais para desacreditar o adversário gabonês (esta página é editado pela agência, "Link Edit", cujo diretor de publicação é Gil Mihaely, que também dirige a muito reacionária revista "Causeur").

Segurança nuclear ou "alarmismo que diverte os habitantes locais"

A 9 de fevereiro de 2017, às 9h45, deflagrou um incêndio na central elétrica da EDF, em Flamanville, no departamento de Manche. Julien recebeu um e-mail duma agência de comunicação (a Public relations agency), às 15h26: "Um artigo sobre segurança nuclear e particularmente sobre campanhas de distribuição de iodo", ordenou o seu interlocutor. Podes começar com a psicose que atinge os meios de comunicação social quando ocorre um acidente numa central nuclear.” A remuneração: 60 euros.

"O objetivo do artigo é mostrar (sem ser demasiado insistente) que, no caso de um acidente grave, a população circundante está protegida das radiações tomando comprimidos de iodo, cuja distribuição está a tornar-se cada vez mais eficaz (...). Insistir no facto de que está a ser estabelecida, em França, uma cultura da radio-proteção”.

Em poucas horas, Julien leu sobre o assunto: leu os artigos de imprensa sobre o incidente, consultou os links para outros artigos que lhe foram fornecidos pela agência de comunicação. Uma semana mais tarde, o seu artigo foi publicado no site "Social Mag", também editado pelo "Link Edit" de Gil Mihaely. O artigo parece um artigo de jornal, embora tenha sido encomendado por uma empresa.

Muito tranquilizador sobre a segurança das instalações nucleares, o artigo menciona "rumores alarmistas que divertem os habitantes". Cita testemunhos de residentes de Flamanville que foram pouco afetados por este acontecimento, recolhidos pela Ouest-France. Para além de insistir nos argumentos económicos da energia nuclear, salienta as "medidas experimentadas e testadas em caso de acidente" e a distribuição de pastilhas de iodo. O famoso argumento mencionado no e-mail de encomenda.

Este incidente numa central elétrica na Normandia marca o início de uma "série de artigos para destacar a segurança das instalações nucleares, em França, o rigor dos controlos e a fiabilidade da subcontratação", explica Julien. Como um bombeiro chamado para apagar o fogo. O tom é sempre neutro, várias fontes são mencionadas, cada informação tem uma fonte… mas tudo é controlado à distância pela ordem do cliente.

A 7 de agosto de 2017, um artigo de Julien foi publicado no site participativo "AgoraVox". Assinado "Átomo Vencedor", intitula-se "Segurança nuclear: as centrais elétricas francesas estão sob controlo". O seu objetivo é dissipar os possíveis riscos de ciberataques. "A França confia nas novas tecnologias para aumentar a vigilância das suas instalações e eliminar qualquer risco de pirataria", diz no cabeçalho do artigo. E o jornal termina com um dístico sobre as agências que "garantem a integridade das centrais".

Vangloriar o EPR e o know-how em matéria de resíduos radioativos

A 18 de setembro de 2017, Julien recebeu uma nova encomenda da Public relations agency. Por 80 euros, foi-lhe pedido para escrever um artigo intitulado: "EPR de Flamanville: criticada ontem, plebiscitada hoje". Apesar das críticas e contrariedades, o projeto EPR será encomendado até ao final de 2018, deveria afirmar o artigo. Assim como o facto do orçamento ir ser mantido e que o EPR [o European Pressurized Reactor, um tipo de reator nuclear de terceira geração] traria muitas vantagens para França e para o mundo.

Julien cumpre a encomenda mantendo até a conclusão sugerida pelo funcionário da agência: "Entretanto, os opositores do EPR estão a tentar uma última ação a 30 de setembro (como anedota final para dizer que ainda que esteja ganho, haverá sempre contestatários a marcar posição. Porquê incomodar-se?)."

Julien escreve: "Na Mancha, o coletivo Saint-Lois apelou a uma nova manifestação para 30 de setembro contra o EPR de Flamanville, 12 dias depois, reuniu um total de seis ativistas em frente ao edifício do departamento da Mancha. Uma posição que se parece mais com uma teimosia do que qualquer outra coisa". O artigo é publicado no site liberal "Contrepoints" (editado por "Les libéraux.org"), a 8 de outubro de 2017. Em junho de 2022, a EDF anunciou que o EPR seria encomendado até ao final de 2023.

A 30 de setembro de 2019, o tema da central de armazenamento de resíduos nucleares de Haia e da energia nuclear foi novamente abordado num artigo no site de informação "MyEurop.info". Escrito por Julien, elogia "um know-how pioneiro e único no mundo para reciclar combustíveis usados". "Todos os resíduos têm uma solução de gestão operacional que evita quaisquer consequências para o ambiente ou para a saúde das populações e do pessoal em causa", argumenta a EDF no artigo (sobre o armazenamento de resíduos radioativos, pode ler este artigo da Basta! garantidamente sem a mão de agências de comunicação).

Extinguir as inquietações reacendidas pelo incêndio da fábrica de Lubrizol

Quatro dias antes, a 26 de setembro de 2019, em Rouen, a fábrica química Lubrizol incendiou-se. Os meios de comunicação social concentraram-se nos riscos potenciais doutras instalações industriais classificadas como Seveso [a diretiva europeia sobre a identificação de zonas industriais que apresentam riscos de acidentes graves], tais como a fábrica de Malvési da Orano, a norte de Narbonne. Ali, "purificam e transformam o urânio".

Este local é portanto "teoricamente um dos mais arriscados em França", escreve Julien num artigo a será publicado na página European Scientist. Felizmente, "um tal cenário parece improvável em Malvési". E o autor pormenoriza todas as medidas implementadas pela Orano. "Isto é tranquilizador quanto ao nível de segurança em Malvési onde, como em outros locais, não há um risco zero, mas tudo parece estar plenamente a ser tomado em consideração e sob controlo", conclui o autor.

A 23 de outubro de 2019, a agência de comunicação contactou Julien. Propôs-lhe que escrevesse sobre a manutenção do parque nuclear francês por um valor de 110 euros. "Ainda que neste artigo" citar a EDF "seja inevitável (pois ela gere as centrais elétricas), a ideia também não é colocá-la em todo o lado...", diz-lhe o consultor editorial. São-lhe dadas ligações, relatórios e um plano em três partes que deverá levar à necessidade de externalizar esta manutenção para outros fornecedores de serviços.

O artigo aparece a 30 de outubro de 2019, no "Planète Business", um site "dedicado ao mundo das finanças, negócios e governação", ligado ao jornal "Causeur" (ainda do "Link Edit"). Será despublicado após uma emissão do programa Complément d'enquête da estação televisiva France 2, em janeiro de 2022.

Participar no lóbi para reabilitar a energia nuclear

A 27 de novembro de 2019, um artigo escrito por Julien apareceu no Atlantico sob o título: "Sismos: pequena falha mediática sobre os riscos energéticos". O artigo fala de "histeria coletiva" a propósito dos fumos negros de Lubrizol e dos terramotos que tinham acabado de abalar Ardèche e o leste da França. Com Fukushima como pano de fundo, será que estes terramotos põem em perigo as centrais elétricas?

O artigo compila opiniões tranquilizadoras de especialistas e desvia a atenção para os riscos de terramotos que poderiam ser causados pela fábrica local de geotermia profunda. Mesmo que a empresa em questão o negue, "a suspeita mantém-se", diz o artigo. Desta vez é assinado por um jornalista que realmente existe, mas que não escreveu o artigo.

A fevereiro de 2021, foi pedido a Julien que escrevesse uma "tribuna urgente", uma vez que a União Europeia estava a trabalhar sobre energias que considerava "descarbonizadas". Se o nuclear não estivesse incluído nesta categoria, o seu financiamento poderia ser limitado.

Entre os elementos de linguagem fornecidos a Julien, lê-se: "Embora o argumento do emprego seja particularmente relevante numa altura em que todo o continente está a ser atingido pela crise económica, é também e sobretudo para alcançar os objetivos climáticos da Europa que se levantam vozes contra a exclusão da energia nuclear da taxonomia. A energia nuclear é uma energia descarbonizada e deve ser considerada como tal".

"Não há neutralidade de carbono na Europa sem mais energia nuclear", será o título do artigo publicado no jornal diário "Les Echos", a 11 de março de 2021, em nome do jornalista verdadeiro que já tinha assinado o texto de Julien no site "Altantico". Em fevereiro de 2022, o trabalho de lóbi da indústria nuclear compensará: a energia nuclear é finalmente considerada como tendo "um papel a desempenhar para facilitar a transição para as energias renováveis" e a neutralidade climática.

Uma galáxia de agências de comunicação e páginas obscuras dedicadas à influência digital

Para além da energia nuclear, Julien foi convidado a escrever sobre projetos eólicos e solares, as vantagens das bombas de calor, sobre normas de construção relacionadas com a energia, fornecedores de energia que competiam com a EDF… Foi mesmo encarregado de escrever um artigo para um executivo da empresa sobre projetos de baixo carbono e da finança verde, que será publicado no jornal "La Tribune". "Era óbvio que eu estava a trabalhar para a EDF, embora, como em todas as encomendas, a empresa não deixasse claro quem era cliente que pagava os artigos", diz Julien. Esta falta de clareza faz com que o jornalista não se coloque demasiado a favor de uma determinada empresa e torna a sua escrita mais credível.

Julien iria também alimentar um blogue criado pela EDF, cujo nome de domínio é comprado pela agência, na esperança de fazer crescer este meio de comunicação e de ser referenciado nas notícias do Google.

Quais foram as agências de relações públicas para as quais Julien trabalhou ao longo dos anos? Várias sociedades que estariam todas relacionadas entre si, incluindo a Maelstrom Media, uma empresa sediada em Bratislava, fundada em 2018. "O nosso objetivo: melhorar a vossa reputação junto de influenciadores e diversos atores do seu ecossistema económico (analistas, jornalistas, líderes de opinião, blogueiros)", lê-se na sua página de internet. De acordo com as informações recolhidas pelo Mediapart, a Maelstrom Media está de facto a trabalhar para a Avisa Partners, uma empresa de inteligência económica e de segurança cibernética que fornece aos seus clientes meios de comunicação e influência digital.

Num documento recuperado pelo jornal online "Reflets.info", a Avisa Partners afirma ter "várias centenas de especialistas capazes de produzir mais de 1.000 artigos por mês em centenas de meios de comunicação social". E acrescenta: "Quando não houver plataformas para publicar o nosso conteúdo (nomeadamente em certas línguas), criaremos novas páginas de internet. Estas serão ostensivamente independentes para assegurar a sua credibilidade. Estarão registadas no Google News para melhorar significativamente a sua visibilidade, credibilidade e alcance. Segundo as informações obtidas pelo "Reflets.info", o custo mensal destes serviços de publicação de conteúdos seria "entre 20.000 euros sem IVA para uma atividade de 'baixa intensidade' e 40.000 para uma actividade de 'alta intensidade'".

Comunicação, manipulação ou notícias falsas?

Manipulação de informações? "Um serviço de acompanhamento ou mobilização que permite aos [seus] clientes contribuir legalmente e de forma útil para o debate público", respondeu a Avisa Partners à Mediapart. Conteúdos com fontes e objetivos, por vezes de opinião, mas nunca enganadores ou difamatórios". Entre os clientes da "Avisa Partners" encontra-se a EDF, para quem a empresa presta "serviços de animação dos media online" ou "publicação de conteúdos em redes sociais", por vezes com o objetivo de "conter o ativismo anti-nuclear", de acordo com um documento consultado pela Mediapart.

Enquanto a EDF contratava uma empresa para defender a sua imagem, mesmo que isso significasse alimentar sites de notícias reais com conteúdos jornalísticos falsos, a sua fundação propunha uma grande exposição "Fake News: Art, Fiction, Lies", entre Maio de 2021 e Janeiro de 2022. "A exposição decifra os mecanismos de criação e divulgação de notícias falsas e propõe adquirir métodos e truques para impedir a sua divulgação e escapar a todo o tipo de manipulação, seja ela política, económica ou social", promete a descrição da fundação da EDF.

Em 2021, Julien quis deixar de trabalhar para a agência. "Estou exausto, exausto desta manipulação de massas", escreveu. Depois, forneceu documentos a um jornalista do "Compléments", transmitido em janeiro de 2022. A agência não se deixa enganar. A colaboração termina. Antes do testemunho publicado no "Fakir" relança a sua máquina mediática. "Mal podia esperar para que isto fosse conhecido", explica Julien hoje. Uma pedrada no charco da desinformação.


Simon Gouin é jornalista.

Artigo publicado originalmente na revista Basta. Traduzido por António José André para Esquerda.net

Termos relacionados Ambiente
(...)