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Chegas a casa do trabalho às oito horas da noite. Tens de pôr a máquina de lavara funcionar, fazer o jantar, arrumar a casa e tomar um banho. Apetecer-te-ia ver um filme e fazer algum desporto, mas quando o pijama tocou na tua pele, o cansaço apoderou-se rapidamente de ti. Algo perfeitamente normal: estás há doze horas fora de casa e já estamos a meio da semana. Sais para a varanda para apanhar um pouco de ar fresco; as luzes da cidade lembram-te que o asfalto que pisas todos os dias respira e está vivo. Os carros da Uber sobem e descem a rua e, no horizonte da avenida, como se fosse um eterno pôr do sol, dás-te conta de que este mal-estar, este cansaço que te entorpece a cabeça, te acompanha há anos e só tem aumentado, sobretudo depois de o senhorio ter aumentado a renda em mais cem euros há três meses.
No telejornal há uma peça especial sobre saúde mental. Todas as premissas são baseadas em análises individuais, biológicas ou paliativas. É aqui que te dás conta do enfoque que foi dado a toda esta parafernália: hábitos saudáveis, mentalidade positiva, falta de resiliência, geração de cristal, trabalhar a inteligência emocional, cultivar um carácter estoico, etc. Tudo o que sai da boca dos apresentadores de talk shows está focado na superficialidade, na cessação da dor imediata, ignorando uma dimensão crucial: a política.
Será que o ocaso temporal que sentiste quando a noite mergulhava na cidade era real? Seria certeira a sensação de que não havia alternativa senão aguentar esse cansaço psicológico até não poderes mais? O crítico cultural Mark Fisher tinha palavras para esta angústia coletiva, que se tornou cada vez mais premente à medida que o capitalismo tardio vai queimando fases de violência e precariedade, com o seu crescente autoritarismo em relação ao proletariado que nele trabalha escravizado. A hedonia depressiva é um estado psicológico e social caraterístico das gerações mais jovens do capitalismo atual. Afetadas por um contexto capitalista tão negativo, severo e omnipresente, as pessoas experimentam um impulso para a procura constante e superficial do prazer, mas este prazer não produz satisfação ou alívio autêntico, o que as leva a um ciclo de dependência, vazio e depressão.
Consequentemente, as respostas que encontramos para este loop de hedonia depressiva são a defesa das ideias de (auto)responsabilidade e (auto)ajuda individual que estão a conduzir a geração Z e os millennials à impossibilidade de procurar uma saída coletiva para a situação psicossocial que Mark Fisher descreveu.
Perturbações mentais ou desespero geracional?
Olhando para esta realidade psicossocial com base em dados: em Espanha, cerca de 18% dos jovens entre os 16 e os 35 anos sofrem de perturbações de ansiedade e 12% apresentam sintomas de depressão. Estes dados provêm de estudos compilados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e do relatório 2023 do Ministério da Saúde, que refletem o impacto crescente das perturbações mentais na população jovem.
Há algo de perverso nesta realidade vertebrada no mal-estar psicológico. O primeiro fator a ter em conta sobre esta perversão é a forma como a culpa é individualizada em cada jovem que sofre com a precariedade do sistema capitalista. Ou seja, não só se ignoram as condições estruturais que geram este problema, como também se culpabiliza as vítimas.
O segundo fator é a rentabilidade que o próprio sistema capitalista extrai desta situação. Não é de estranhar a proliferação de discursos motivacionais, de coaching, a febre das criptomoedas ou a vaga de discursos, sobretudo de masculinidade, que apelam a uma fria lógica economicista, onde o darwinismo social, a competição e o sucesso económico individual são apresentados como uma lei natural e inalterável. Desde discursos sobre finanças, fitness, experiências vitais, mindfulness ou relações interpessoais, todos eles são atravessados pelo terceiro fator, o mais importante e aquele que canaliza o nosso desconforto psicológico: o realismo capitalista.
Este conceito revela como o capitalismo se tornou tão hegemónico que se mostra como a própria natureza das coisas e não como uma ideologia. O realismo capitalista, enquanto traço sócio-histórico, aponta para uma caraterística do capitalismo atual que o diferencia das suas fases anteriores: a hegemonia total não só ao nível militar ou da política estatal, mas também a níveis ideológicos.
Hoje, o realismo capitalista é tão forte que interiorizamos a sua ideologia a tais extremos que pensamos e sentimos que é conatural ao desenvolvimento humano. Então, naquela pequena varanda onde procuras uma saída, trava-se o início da luta política mais importante da nossa geração, uma luta que começa quando uma voz dentro de nós nos assalta lutando contra a impotência reflexiva: já alguma vez te perguntaste porque é que temos estas ideias tão interiorizadas? Porque é que elas nos constituem de tal forma que parece quase impossível pensar que a vida pode decorrer de outra maneira?
Estas perguntas que ecoam na tua cabeça não são novas, mas tentar responder-lhes é um questionamento radical da nossa antropologia humana porque, ao contrário do resto dos animais, como comentam os antropólogos e os linguistas, temos de dar um sentido à realidade.
Ou seja, somos seres com uma estrutura desejante. Podemos compreender a realidade e relacionarmo-nos com o meio material de uma forma antropológica que nos diferencia do resto dos animais. Não temos uma vinculação geneticamente programada tão imediata como o resto dos animais, que se relacionam com o ambiente e as suas necessidades de forma inata, ou com pouca variação entre grupos e épocas. Na nossa espécie, temos a necessidade de significar a realidade, o ambiente, e portanto de o moldar cognitivamente. Isto acontece através da linguagem e da fala, o que permite uma relação mais complexa e mutável com os objetos e o ambiente. Portanto, as nossas necessidades não são inatas nem limitadas (ou certamente não tão limitadas), mas mutáveis, mediadas pela comunicação e pelos infinitos significados que podemos desenvolver em relação ao ambiente.
A origem ideológica do individualismo
A explicação anterior é fundamental para entender o realismo capitalista e seu efeito, bem como sua definição. Pois essa mediação através da fala, da linguagem e das estruturas cognitivas é totalmente permeada pelo capital. Sempre o foi no capitalismo, mas o seu efeito hoje é de uma hegemonia ensurdecedora. Mas qual é a origem antropológica e epistemológica do realismo capitalista, como é que a ideologia liberal e neoliberal construiu a sua própria narrativa?
Para responder a esta questão, os liberais e os neoliberais recorrem aos teóricos liberais John Locke e Adam Smith para construir a sua ideia de vida. Como Johan Norberg argumenta no seu The Capitalist Manifesto: Why the Global Free Market Will Save the World (2024):
“No entanto, John Locke, o pai do liberalismo clássico, escreveu em 1689 que Deus garantiu que “não é bom que o homem esteja só”, e continuou a explicar porque é que o indivíduo não pode ser imaginado sem a família e as suas outras comunidades. Adam Smith, o padrasto do liberalismo económico, declarou em 1759 que a natureza “formou o homem para a sociedade”, e expôs em pormenor como o nosso comportamento e a nossa moral surgiram das nossas interações sociais, em resultado da nossa empatia, numa altura em que os seus opositores conservadores se limitavam a assumir que eram dados por Deus” (Norberg, 2024; 260).
Se analisarmos minuciosamente esta citação, vemos que as suas teses se baseia no teísmo e no ateísmo ao mesmo tempo. Asseguram que Deus, que tomam por um ser existente, não quer que o homem esteja só e, ao mesmo tempo, falam do facto de a natureza ter formado o homem para a sociedade. Embora estes princípios antropocêntricos pareçam contraditórios, apontam para uma mesma ideia: a vida começa com o indivíduo independente, o que lhes permitiu construir ideologicamente a doutrina do individualismo.
Uma vez construída socialmente a doutrina do individualismo foi, foram obrigados a relacioná-la com outros indivíduos e coletivos. Também aqui, recorrem a Deus e à Natureza: por um lado, é Deus que não quer que o indivíduo independente esteja só, pelo que não o podemos imaginar sem família e outras comunidades. Por outro lado, a partir do discurso naturalista, compreenderam que são as interações sociais entre indivíduos independentes, baseadas na empatia, que moldam a nossa moralidade. Daqui deriva a segunda doutrina: a liberdade individual, pois os indivíduos independentes são livres de se relacionarem com outros indivíduos independentes.
Aqui é necessária uma análise mais profunda para ver as armadilhas ideológicas do liberalismo. Se partíssemos da doutrina do individualismo e da liberdade individual, teríamos de imaginar um mundo constituído apenas por sujeitos independentes que, por empatia, decidiram juntar-se em sociedade. Pensar assim é o mesmo que imaginar que um dia, por magia, apareceram na Terra milhões de australopitecos e que cada um deles decidiu livremente viver em sociedade.
Como animais humanos, não nos podemos compreender uns aos outros sem a simbiose gregária. Desde as nossas origens que somos gregários, precisamos uns dos outros, não por empatia, mas por pura sobrevivência animal. É aqui, nesta sobrevivência e na necessidade de dar sentido à realidade, que construímos o sentido das nossas interações sociais, não fora da sociedade, mas dentro da espécie animal que somos. No entanto, o liberalismo convenceu-nos do contrário. Isto leva-nos a outra mentira do liberalismo, como diz Johan Norberg:
“É surpreendente a frequência com que uma rápida leitura errónea dos liberais clássicos é suficiente para desmantelar a ligação entre o liberalismo e a ganância ou a solidão. Como se a resistência às relações forçadas se baseasse numa resistência às relações” (Norberg, 2024; 259-260).
Para os liberais, tudo o que implica o coletivo está associado a relações forçadas e, portanto, à perda da liberdade individual e ao fracasso da sua doutrina. É lógico que pensem assim. Não fazemos uma leitura errónea dsos seus clássicos, mas mergulhamos nas consequências antropológicas que as suas correntes de pensamento produzem.
O que eles não compreendem é que a sua forma de construir as relações ou interações sociais é também forçada. As suas teses, que são uma forma de organização coletiva humana, empurram o grupo para viver da (auto)responsabilidade individual e da (auto)ajuda individual. Trata-se de uma imposição ideológica baseada nas suas doutrinas liberais, que conduz a uma falsa sensação de liberdade individual. Falar de socialismo ou de valores coletivos, segundo políticos como Milei ou Ayuso, é falar do “cancro da humanidade” ou que a vida se divide entre “comunismo e liberdade”.
Aqui se desmonta mais uma falsa ideia, refutada por teóricos anarquistas como Malatesta (1853-1932), que afirmava que no coletivo há também a prevalência do indivíduo. Para este pensador italiano, somos individualistas no sentido de que cada sujeito tem a liberdade de se desenvolver em todos os seus aspetos sociais como quiser, mas essa liberdade só lhe é concedida por viver num coletivo. Sem o grupo, esta ideia de liberdade não poderia ter-se desenvolvido. É o coletivo que permite a liberdade individual e não o contrário. O liberalismo obrigou-nos a esquecer esta caraterística do animal que somos.
Mas o capitalismo, na sua ânsia de devorar todas as alternativas com as suas novas narrativas, também recorre à psicologia moderna para nos vender a ideia de que a cooperação é a solução para os problemas que o próprio capitalismo causou. Como diz a neoliberal de Harvard Rebecca Henderson no seu livro Reinventing Capitalism in a World in Conflict (2021):
“De facto, a psicologia moderna sugere que somos tão naturalmente orientados para o grupo como egoístas, que os humanos evoluíram em grupos (...)” (Henderson, 2021; 57).
O capitalismo é capaz de lutar contra as suas próprias teses e depois convencer-nos de que a ciência reafirma o que as vozes críticas do capitalismo têm vindo a dizer desde as origens do mercado livre, da propriedade privada e da naturalização da competitividade: que só o coletivo salvará o mundo.
Redefinir o possível a partir do nosso mal-estar de classe
Tudo isto nos leva de volta àquela varanda onde, em cada entardecer, nós, Millennials e geração Z, olhamos para fora exaustos. Exaustos do trabalho, da má educação dos chefes, da jornada de trabalho dividida, do tempo perdido nos transportes públicos, de partilhar um apartamento, de não ter o nosso próprio espaço, de manter laços frágeis… reconhecemos que este cansaço não é apenas físico, mas existencial. Não é apenas nosso, mas coletivo. É o peso do realismo capitalista, que nos fez acreditar que não há alternativa para a classe trabalhadora. Mas a verdade é que, enquanto seres com uma estrutura desejante e uma capacidade infinita de significar e transformar a realidade, estamos longe de ser prisioneiros deste sistema. Se as nossas necessidades são moldadas pela linguagem e pela interação social, também o está o nosso destino. E é no reconhecimento da nossa interdependência, da nossa capacidade de redefinir o que é possível, que reside a chave para romper com a hegemonia ensurdecedora do capitalismo e a sua naturalização enganadora.
O realismo capitalista torna-se insuperável precisamente quando conceitos como a competição e a luta pela sobrevivência se naturalizam, como se fossem uma parte inevitável e essencial da condição humana. Nesta varanda, desgastados pelo ritmo frenético e pelas condições precárias da nossa vida, é fácil sucumbir à ideia de que não há saída. No entanto, é neste momento de reflexão coletiva que devemos perguntar-nos se estas crenças são realmente inerentes à nossa natureza ou se, pelo contrário, foram impostas por um sistema que procura perpetuar-se, bloqueando qualquer possibilidade de alternativa.
Texto publicado originalmente no El Salto. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.