José Mattoso, que sofria há vários anos da doença de Parkinson, faleceu este sábado, aos 90 anos.
Após frequentar o Liceu Nacional de Leiria, José Mattoso ingressou na vida religiosa. Durante 20 anos foi monge da Ordem de São Bento, vivendo na Abadia de Singeverga, em Santo Tirso. Mattoso licenciou-se em História, na Faculdade de Letras da Universidade Católica de Lovaina, e doutorou-se em História Medieval, pela mesma universidade. Em 1970 retornou à vida laica.
“Nessa altura ganhavam relevo as experiências de evangelização nos meios pobres da América Latina apoiados por bispos e religiosos de mentalidade não clerical, como Hélder Câmara, Óscar Romero, Leonardo Boff e outros. Decidi casar-me e, com a minha mulher, pôr-me ao serviço de um bispo que nos aceitasse. Fizemos alguns contactos nesse sentido, mas um dos bispos a quem escrevemos aconselhou-nos a adiar a decisão durante algum tempo, para nos adaptarmos à vida laica" (José Mattoso na última entrevista ao Expresso)
Foi investigador no Centro de Estudos Históricos, em Lisboa, e trabalhou como professor auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1979, viria a assumir funções como professor catedrático na recém-criada Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Exerceu ainda a atividade docente em instituições portuguesas como a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e o Instituto Superior Técnico, e foi professor e conferencista nas universidades de Paris, Bordeaux, Poitiers, Santander, Santiago de Compostela, Sevilha, Oviedo e Roma.
Conforme lembrou o diretor da Torre do Tombo, Silvestre Lacerda, em declarações à Lusa, o historiador procurou “valorizar a memória nacional”. Assumiu a presidência do Instituto Português de Arquivos, criado em 1988, e dedicado à criação de um sistema nacional de arquivos, e à coordenação e execução de uma política arquivística integrada. Esteve depois, entre 1996 e 1998, à frente da Torre do Tombo, colocando Portugal “em contacto com o Conselho Internacional de Arquivos”.
José Mattoso é autor de uma extensa obra, que conta com mais de 30 publicações, na sua maioria dedicadas ao estudo da Idade Média portuguesa, das quais se destaca, por exemplo, “Identificação de um País”, que lhe valeu o Prémio Alfredo Pimenta e o Prémio Ensaio do P.E.N, Clube, em 1986. De acordo com o historiador, este livro nasce da insatisfação de “não encontrar na historiografia portuguesa respostas para muitas interrogações que a moderna ciência histórica não pode deixar de colocar".
O primeiro livro de Mattoso surge ainda na década de 1968, com o título “Les Monastères de la Diocèse du Porto de l’an mille à 1200”. Segue-se, em 1970, “As Famílias Condais Portucalenses séculos X e XI". O tema é retomado em 1981, com a obra “A Nobreza Medieval Portuguesa. A Família e o Poder”.
Um ano mais tarde sai “Religião e Cultura na Idade Média Portuguesa” e, em 1985, “O Essencial sobre a Formação da Nacionalidade”.
Na sua passagem por Timor Leste, deixou a primeira obra de investigação histórica sobre a resistência timorense, editada e publicada na pós-independência: “Dignidade - Konis Santana e a Resistência Timorense”. Esta foi também a primeira obra de tal cariz a ser traduzida integralmente para tétum, a língua oficial de Timor-Leste a par do português. Em 2012, sete anos após o lançamento da versão portuguesa, a versão em tétum foi lançada em Díli, por ocasião da inauguração final do Arquivo & Museu da Resistência Timorense.
José Mattoso é também autor de uma biografia de D. Afonso Henriques, publicada em 2006 pelo Círculo de Leitores, e dirigiu várias obras coletivas, como “História de Portugal”, 1993-1994; “História da vida privada em Portugal”, 2010-2011; “Património de origem portuguesa no mundo”, 2010.
Em 2012, publicou “Levantar o Céu – Os Labirintos da Sabedoria”, que lhe valeu o Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes, do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica.
Recentemente, em 2021, foi publicada a coleção “A História Contemplativa” (Temas e Debates), com ensaios escritos entre 1996 e 2013.
José Mattoso foi distinguido com o Prémio Pessoa, em 1987, o Prémio Böhus-Szögyény de Genealogia, em 1991, e o Troféu Latino, em 2007. Em 1992, o Estado português condecorou-o com o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada.
A 21 de agosto de 1999, o historiador explicava, numa artigo de opinião publicado no jornal Público, as razões que o levaram a aderir ao Bloco, que identificava como “uma esperança para os próximos tempos”. Em 2015, José Mattoso foi mandatário nacional do Partido Livre.
Francisco Louçã escreve que José Mattoso era um "homem de convicções na vida e de fé religiosa, apreciava a contemplação e a calma do pensamento, mesmo quando o levava a decisões corajosas e difíceis, como quando abandonou a ordem e se distanciou publicamente de algumas das práticas da sua igreja".