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Jogos Olímpicos 2024: os alfarrabistas das margens do Sena resistem à expulsão

A organização diz que têm de sair por “razões de segurança”. Os “buquinistas” resistem e dizem que não faz sentido dizer que se vai celebrar Paris apagando-os da paisagem.
Bouquinistes. Foto de Jerome Strauss/Flickr.
Bouquinistes. Foto de Jerome Strauss/Flickr.

As margens do Sena albergam a “maior livraria a céu aberto do mundo” como os franceses lhe gostam de chamar. Há 450 anos que os alfarrabistas com as suas famosas grandes caixas “verde vagão” se vão mantendo na zona, serão uns 200 atualmente, e são uma das imagens de marca da capital francesa.

Agora, os Jogos Olímpicos de 2024 podem fazer o Sena deixar de ser, pelo menos temporariamente, “o único rio entre duas prateleiras de livros”. Invocando “questões de segurança”, a organização do evento quer mudar muitos deles de sítio. A cerimónia de abertura vai decorrer no Sena com um desfile de barcos carregados com os atletas e pretende-se garantir um perímetro de segurança nas margens do rio por causa do “risco de atos de terrorismo”. Por isso, as autoridades policiais já lhes enviaram cartas a dizer que é “indispensável” que as caixas sejam retiradas.

Mas esta não é a única razão invocada. Os “buquinistas”, como são conhecidos, reuniram com alguns dos responsáveis pelos Jogos Olímpicos de Paris e, de acordo com Jérôme Callais, presidente da Associação Cultural dos Bouquinistes de Paris, em declarações à AFP citadas pela RFI, o encarregado do Sena “explicou claramente que estaríamos a obstruir a vista no dia da cerimónia”.

Os alfarrabistas respondem que “não têm intenção de deixar o local” e acrescentam “parecer ser um pouco louco” querer fazer do evento uma celebração de Paris “querendo-nos apagar da paisagem”.

A versão da Câmara Municipal é diferente da das autoridades policiais. Dizem tratar-se de um bom pretexto para uma “renovação”, que apenas 570 caixas, isto 59% do total, seriam retiradas, que a remoção e a reinstalação seria paga, assim como todas as despesas associadas a danos que possam ocorrer. Ao que o representante dos buquinistas retorque que estas caixas são centenárias, “frágeis demais” para serem retiradas, o que as poderia destruir, e que custaria perto de 1,5 milhões de euros restaurar todas elas.

Os alfarrabistas não estão sozinhos. Corre entretanto uma petição online que, no momento em que esta notícia foi redigida, já contava com cerca de 68.000 assinaturas. Nela se lê que os buquinistas estão “diretamente em perigo”, o que equivaleria a “destruir a alma de Paris”. Invoca-se que “está prevista uma desmontagem total das “caixas” que são o único emprego e fonte de rendimento destes livreiros a céu aberto sem garantias de remontagem e restauração das queixas”.

Também mais de 40 agentes e criadores culturais escreveram uma tribuna de apoio no Le Monde. Classificam a decisão como “funesta” e dizem que tomar partido pelos buquinistas é “defender a cultura no que ela tem de mais nobre no plano educativo, de mais elevado no plano moral e de mais precioso no plano histórico”.

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