Japão: Kan e Ozawa em guerra para o cargo de primeiro-ministro

06 de setembro 2010 - 1:41

Disputa foi inesperada e revela a crise do Partido Democrático do Japão, que está no poder. Ichiro Ozawa está a ser investigado por desvio de dinheiro. Por Tomi Mori, de Tóquio para o Esquerda.net

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Naoto Kan: disputa inesperada.

O actual primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, está a travar uma disputada eleição no interior da sua própria formação política, o Partido Democrático do Japão, desde que Ichiro Ozawa, uma das lideranças partidárias, decidiu concorrer à eleição do novo presidente do partido em meados deste mês. Segundo os costumes, o vencedor será o próximo primeiro-ministro japonês

A entrada de Ozawa na disputa foi um tanto ou quanto inesperada, já que essa velha raposa japonesa tem, entre os actuais políticos, a pior imagem frente à opinião pública. Ozawa já poderia ter disputado anteriormente o cargo de primeiro-ministro, ou mesmo ter ocupado uma posição de prestígio na anterior administração de Yukio Hatoyama, se não estivesse a ser acusado de desviar o seu fundo político na compra de um imóvel em Tóquio. As investigações levaram à prisão dos seus assessores e podem levar Ozawa aos tribunais nos próximos meses. Qualquer pessoa com algum senso, mesmo o tal senso comum, deve perguntar-se os porquês da participação de Ozawa na disputa, e mais ainda por que o ex-primeiro-ministro Yukio Hatoyama o apoia nessa duvidosa empreitada.

As razões de um político burguês desafiam qualquer ciência humana, sejam sociais ou exactas, e muitas vezes permanecem como um segredo indecifrável ou inconfessável. Segundo sondagem realizada pelo jornal Yomiuri, Kan e Ozawa estão a disputar os votos partidários com uma margem bastante apertada, sendo impossível dizer neste momento quem é o favorito na corrida partidária.

A expressão da crise do imperialismo japonês

O imperialismo japonês, depois da derrota da Segunda Guerra Mundial, foi liderado durante varias décadas pelo Partido Liberal Democrático. A subida de Yukio Hatoyama pelo PDJ, derrotando o PLD, foi uma expressão da crise do imperialismo japonês e a demonstração de que a conservadora sociedade japonesa já não aceitava mais que o PLD continuasse a afundar o país. Hatoyama assumiu o governo com grande prestígio, mas em poucas semanas foi naufragando com os escândalos financeiros que envolveram Ozawa e a ele próprio. Não apenas isso, mas a submissão total ao imperialismo americano na questão das bases militares ianques em Okinawa fez com que a sua administração perdesse o resto do pouco de prestígio que ainda gozava.

A queda de Hatoyama levou à subida de Kan. Para poder sobreviver frente ao eleitorado japonês, Kan teve que, desde o inicio, se desvincular de Hatoyama e, principalmente, de Ozawa. Isso levou ao isolamento dentro do PDJ das facções de Hatoyama e Ozawa.

A actual disputa entre Kan e Ozawa é uma demonstração cristalina da crise do PDJ. Em primeiro lugar, pelo fato de que a administração Kan tem sido incompetente e medíocre, incapaz de assinalar com qualquer caminho a saída da actual crise e, mais do que isso, tem manifestado que esta disposta a atacar os trabalhadores, aumentando o imposto sobre o consumo como parte da política de amenizar o défice público japonês. É essa crise na administração do PDJ que explica que um Ozawa possa disputar o cargo de primeiro-ministro. E que, inclusive, possa sair vencedor da disputa. Seria um resultado no qual a raposa seria eleita para administrar o galinheiro do imperialismo japonês…

Em segundo lugar, a participação de Ozawa pode estar vinculada directamente com interesses pessoais. Não há na face da terra nenhum politico burguês que não almeje o principal cargo na direcção do país. No caso de Ozawa, a eleição para primeiro-ministro traria como consequência o fim de seu indiciamento na questão do desvio do fundo político. As investigações só serão concluídas em Outubro e dependem da aprovação do primeiro-ministro para prosseguirem. Caso seja eleito, ele não assinaria o seu próprio impedimento. E esse pode ser um dos motivos que levou Ozawa a disputar o cargo, mesmo que isso represente uma tragédia partidária ou mesmo para o país. Uma das consequências da actual disputa é que pode levar à ruptura do PDJ, seja qual for o vencedor. Numa situação de crise, como é o caso actual, era de se esperar que qualquer partido se mostrasse unido para governar o país, mas esse não é o caso do PDJ. As diferenças de opinião entre Kan e Ozawa, no fundo, não são qualitativas. Kan alega que para que Ozawa possa ser primeiro-ministro, deveria primeiro esclarecer a questão do fundo político. Ainda que não tenha feito um ataque frontal, acaba por atacar o próprio PDJ, já que qualquer eleitor acaba questionando o PDJ por ter políticos como Ozawa como uma de suas destacadas lideranças

Nos próximos dias, teremos uma ideia melhor do cenário nacional e internacional em que se movimentará o novo governo. Mas uma coisa parece certa: o novo primeiro-ministro já não governará a segunda economia mundial, mas sim a terceira, já que a China, provavelmente, irá ultrapassar o Japão neste segundo semestre. Não se trata de uma Olimpíada ou de quem irá usar uma medalha de prata ou de bronze. Mas de profundos processos sociais e económicos que vive o imperialismo mundial na fase da globalização.

Só para levantar uma questão, a passagem do Japão para o terceiro posto na economia mundial trará como resultado imediato um elemento recessivo, já que, para os japoneses, será uma demonstração cabal do fracasso dos últimos governos e, mais do que isso, a quebra total da confiança em dias melhores.