O Partido Democrático do Japão, do primeiro-ministro Naoto Kan, foi derrotado, domingo, nas eleições para a câmara alta do parlamento japonês. Não há nada a comemorar com essa derrota, já que o beneficiário da ineficácia do PDJ foi o Partido Liberal Democrático, que teve o número das suas cadeiras ampliado. O PLD é o velho partido das raposas políticas japonesas e agrupa o que há de pior no imperialismo japonês
O partido governamental obteve apenas 44 das 54 cadeiras que pretendia conquistar nas eleições, segundo as expectativas de Naoto Kan. O Novo Partido do Povo, que faz parte da coligação governamental, não conseguiu eleger sequer um representante, demonstrando a insignificância da sua própria existência. As eleições, que ocorrem a cada três anos, renovam apenas parte da câmara, cujos parlamentares têm mandato de seis anos. Com esse resultado, o governo perdeu a maioria na câmara mas, mesmo assim, Kan declarou que pretende continuar no comando do governo.
Trapalhada em torno do aumento de impostos
O resultado eleitoral demonstrou que a crise aberta com a renúncia do anterior primeiro-ministro, Yukio Hatoyama, causou forte impacto no eleitorado. Além dos problemas causados pela administração Hatoyama, parte da derrota é creditada ao próprio primeiro-ministro que, semanas atrás, disse que era favorável ao aumento do imposto sobre o consumo, dos actuais 5% para 10%. Esse posicionamento foi uma grande trapalhada política e causou a desorganização das próprias fileiras do partido governamental, já que o primeiro-ministro foi criticado por não esclarecer bem as suas posições, ao mesmo tempo que parte dos candidatos saía a público em oposição à implementação do aumento. Kan alegou que a imprensa havia veiculado a sua posição como se o aumento fosse para amanhã quando, na verdade, não se tratava disso. A oposição aproveitou a trapalhada ganhando terreno nas eleições.
O aumento do imposto sobre o consumo está vinculado ao défice público japonês que, actualmente, corresponde a duas vezes o valor do PIB. Kan, e mesmo qualquer idiota, sabe que não há como governar o país sem que se mexa nesse ninho de vespas. Depois do colapso da Grécia, muita gente se pergunta se, realmente, o governo japonês tem condições de cumprir os seus compromissos.
O governo tem de demonstrar ao mundo que não vai falir, mas para isso tem de regularizar as finanças públicas e foi por esse motivo que Kan foi obrigado a se posicionar pelo aumento do imposto sobre o consumo. O aumento deste imposto incide directamente sobre os bolsos dos trabalhadores, que não têm como escapar do pagamento, já que ele é cobrado directamente quando se compra uma pastilha elástica, um maço de cigarros e, principalmente, a comida.
É um golpe a mais sobre os trabalhadores que já pagam uma série de impostos indirectos, como o cobrado pela gasolina, cujo valor é quase a metade do preço de um litro, para citar apenas um exemplo. Ao mesmo tempo, exime as empresas de arcar com o problema, já que todos sabem que elas sempre encontram uma maneira de evadir o pagamento dos impostos.
Até agora, o endividamento japonês não era visto como um grande problema, já que o pais tem uma grande poupança interna, mas algum dia vai ser necessário pagar a conta da festa. De uma festa que beneficiou principalmente as empresas nessas ultimas décadas. Mas, segundo as projecções, se não se faz nada agora, dentro de alguns anos o governo não terá como pagar as suas contas, e isso qualquer analista de investimento também sabe.
Decadência à japonesa
O Japão, que chegou a ser apontado como candidato a se tornar a primeira potência mundial, anos atrás, é um país em decadência. Não se trata de uma decadência como ocorre noutros países, mas, desde que estourou a “bolha económica” nos primeiros anos da década de 90, o país vem declinando na maioria dos sectores. É uma discussão mais complexa e necessita de mais dados para se argumentar com mais refinamento, mas algumas coisas são evidentes. Antes, o Made in Japan era uma coisa respeitada, ainda hoje o é, já que o Made in Japan está ligado a uma imagem de alta qualidade. A diferença é que com as mudanças do sistema produtivo mundial nos últimos anos, o Made in Japan é uma das coisas mais difíceis de se encontrar, mesmo aqui no Japão. Foi substituído pelo Made in China, Made in Thailand, etc… Isso significa que grande parte do que era produzido no país, hoje é produzido fora. Tem consequências para a indústria japonesa? Claro.
O outro aspecto da discussão é que o Japão, que esteve à cabeça da revolução tecnológica electro-electrónica, no pós-guerra, foi ultrapassado por outros países. Quando houve a revolução tecnológica de informação, o Japão perdeu a corrida, e isso fica patente quando não se consegue pronunciar o nome de nenhuma empresa japonesa importante nessa área. Enquanto noutros países surgiram Bill Gates, Steve Jobs, Dell, ou outros nomes menos conhecidos – como o de empresários de tecnologia de informação na Índia –, no Japão não há sequer um nome.
A excepção foi Masayoshi Son, da Softbank, filho de coreanos, que conseguiu amealhar uma fortuna, na Internet e nas comunicações, em menos de duas décadas, tornando-se um dos mais ricos no Japão. Mas foi um feito que Son conseguiu protagonizar apesar do Japão, onde não teve nenhum apoio no início da sua carreira. As lideranças empresariais japonesas perderam o senso histórico, que foi a marca da elite empresarial que reconstruiu o pais no pós-guerra. Empresas como a Sonny e Nissan são administradas hoje por executivos estrangeiros. A crise na elite japonesa é um dos factores da crise histórica do imperialismo japonês, que não consegue encontrar no cenário mundial nada consistentemente novo que possa impulsionar um ciclo de expansão, mesmo nos marcos do capitalismo. O Japão tem estado na linha de frente em sectores como nanotecnologia ou robótica, mas é discutível que isso possa mudar o rumo dos acontecimentos.
Envelhecimento da população
Um outro aspecto da discussão é o envelhecimento da população japonesa. Esse é um elemento que afecta as forças produtivas do país. No Japão, vivem hoje milhares de trabalhadores estrangeiros, principalmente chineses, coreanos, brasileiros. Sem esses trabalhadores, que fazem os chamados trabalhos sujos, pesados e perigosos, o país já não tem como funcionar. O envelhecimento da população japonesa acarreta custos objectivos no orçamento público. Obviamente, qualquer pessoa irá defender que essa camada da população, que vai chegando ao final da vida, seja tratada com respeito e dignidade. Uma camada que fez enormes sacrifícios e transformou o país na segunda potência económica mundial. Mas o problema é que os governos querem que os jovens, que não têm responsabilidade nenhuma sobre o passado, sejam onerados com esse custo social. Ao acenar com aumento de impostos, o governo quer que, principalmente, os trabalhadores e jovens paguem as contas, o que ao nosso ver deve ser feito pelos principais beneficiários, ou seja, as empresas.