Japão: cai Hatoyama

02 de junho 2010 - 12:55

Primeiro-ministro japonês renunciou devido ao desgaste na opinião pública provocado por escândalos financeiros e pela manutenção da base militar americana em Okinawa. Por Tomi Mori, de Tóquio, para o Esquerda.net

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Yukio Hatoyama. Foto de World Economic Forum, FlickR

Na manha desta quarta-feira, o primeiro-ministro japonês, Yukio Hatoyama, anunciou a sua já esperada renúncia. Foi um breve governo de oito meses, que subiu com prestigio entre a conservadora sociedade japonesa, mas que se desgastou rapidamente.

A queda de Hatoyama, do Partido Democrático do Japão, foi provocada por duas questões imediatas. O primeiro grande desgaste do seu governo foi devido a acusação de mal versação do fundo politico de Ichiro Ozawa, uma das grandes raposas da politica japonesa e indiscutível líder politico do PDJ. Apesar da delicadeza da situação, Hatoyama nunca deixou de defender o seu importante aliado político.

O segundo grande desgaste envolveu o próprio primeiro-ministro, na mesma questão do fundo político. Dessa vez veio a público que a sua mãe doara milhões de ienes durante vários anos ao seu fundo político, e isso não fora devidamente registado. Hatoyama alegou desconhecimento do assunto, o assessor responsável pelo fundo está preso, tal como outros assessores de Ozawa. Mas, obviamente, ninguém com algum senso, acreditou nas desculpas de Ozawa e também de Hatoyama. Esse problema, “dinheiro e política”, foi o que fez o seu governo despencar na opinião publica, que tem muita força no Japão.

Base de Okinawa

A segunda questão imediata foi a postura de Hatoyama na questão da base militar americana de Futenma, em Okinawa. Antes de sua eleição prometera mudar a base para outra localidade. Durante vários meses fez infrutíferas tentativas de resolver essa questão, o que fez a sua imagem cair no descrédito frente à população.

No final de Maio, contrariando as suas promessas anteriores, fez um comunicado conjunto com o governo americano, no qual se confirmava a manutenção da base ainda noutra localidade de Okinawa, conforme os acordos entre os dois países assinados em 2006. Submeter-se às vontades americanas representou o fim do seu governo. No mesmo dia foi obrigado a demitir do seu gabinete Mizuho Fukushima, líder do pequeno Partido Social Democrático. Isso levou à ruptura da coligação governamental.

As ultimas sondagens indicaram que a popularidade de Hatoyama havia baixado, dependendo da sondagem, para 16 ou 17%. A oposição, do Partido Liberal Democrático, preparava, no parlamento, uma moção contra o seu governo. E dentro do próprio partido levantaram-se vozes, já que, sob a liderança de Hatoyama, uma estrondosa derrota se vislumbrava nas próximas eleições de Julho. Encurralado por todos os lados, não houve outro remédio além da renúncia. Hatoyama lamentou que o povo lhe virasse as costas e não o compreendesse.

Se, por um lado, essas foram as questões imediatas que levaram à sua queda, o principal encontra-se na economia japonesa que continua a patinar. No Japão há uma profunda crise, económica e social, mas dizer isso pode parecer coisa de gente desinformada. A crise mundial é tão grande, que a crise japonesa parece pequena. Mas não é assim para quem vive no país. Ninguém pode estar satisfeito quando os salários diminuem, quando aumenta o desemprego, quando o país que se tornou a segunda potência económica não consegue mais manter-se nessa posição, podendo ser ultrapassado pela China nos próximos meses.

A renuncia de Hatoyama representa apenas a crise em um momento particular. Nos próximos dias o PDJ indicara o novo primeiro-ministro. Mas, com certeza, será um governo que já começa caindo.