James C. Scott (1936-2024): Entre os poderosos e os desempoderados

30 de julho 2024 - 20:28

“Marxista rude”, atraído pelo anarquismo mas com uma colaboração comprometedora com a máquina do poder, este investigador singular e inovador estudou formas de resistência e relações de poder, especialmente em comunidades camponeses do sudoeste asiático, e sociedades sem Estado.

porDiogo Duarte

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James C. Scott
James C. Scott.

No passado dia 19 de Julho, com 87 anos, faleceu James C. Scott. Professor de ciência política e de antropologia na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, onde também co-fundou o Programa de Estudos Agrários. Scott foi um dos cientistas sociais mais influentes das últimas décadas. Praticamente todo o seu trabalho foi dedicado a estudar formas de resistência e relações de poder, especialmente entre comunidades camponesas do sudeste asiático. Nos últimos anos, dedicou-se ao estudo de sociedades sem (e contra) o Estado, conjugando a antropologia com uma perspectiva histórica de grande amplitude temporal.

As artes ocultas da resistência

Formado nos anos 60, o nome de Scott evidenciou-se, pela primeira vez, com o livro The Moral Economy of the Peasant: Rebellion and Subsistence in Southeast Asia, publicado em 1976. Influenciado pelo antropólogo da economia Karl Polanyi e, como revela o título, pelo historiador marxista britânico E. P. Thompson, Scott explora, no livro, o impacto do colonialismo e da introdução do capitalismo em comunidades camponesas do sudeste asiático, contestando as teses mais utilitárias que reduziam os camponeses, e outros sujeitos, ao modelo do homo economicus, racional, autocentrado e, por isso, sempre movido pela maximização do interesse individual. Nas palavras de Scott, «embora comece no campo da economia, o estudo da economia moral do campesinato deve acabar no estudo da cultura camponesa e da religião», defendendo que as comunidades camponesas preferiam a estabilidade permitida pelos costumes e relações sociais «tradicionais» à imprevisibilidade trazida pela introdução das relações de mercado, o que permitia explicar, aliás, muitas disposições culturais, sociais e morais de outra forma ininteligíveis. A notoriedade do livro deveu-se, acima de tudo, ao debate provocado pelas críticas que lhe foram dirigidas pelo cientista político Samuel Popkim, no livro The Rational Peasant, publicado em 1979, e pelo reavivamento da antiga discussão que opunha «formalistas» e «substantivistas».

O livro teve um impacto determinante na carreira de Scott. Para além de ter acelerado o seu distanciamento da ciência política – depois de um início bastante convencional, Scott constatou que o doutoramento tinha limitado de tal forma o seu alcance intelectual que se tinha tornado «um pouco mais estúpido do que quando tinha começado» – e de ter suscitado a necessidade de explorar outros campos disciplinares, Scott decidiu embarcar numa experiência de trabalho de campo, que durou quase dois anos, numa pequena aldeia camponesa na Malásia. Interessado em estudar os conflitos de classe segundo uma perspectiva marxista convencional, segundo o próprio, Scott constatou que as formas de luta e resistência estavam efectivamente presentes, mas de forma velada, em gestos banais do quotidiano que não correspondiam aos repertórios de acção mais visíveis e espectaculares. Entre as estratégias de resistência identificadas e estudadas por Scott estavam a sabotagem, a evasão, a obediência ou a ignorância fingidas, o furto, a maledicência e a dissimulação. Como tal, defendia Scott, a ausência de revoltas abertas, motins, rebeliões ou até petições, que geralmente captavam a atenção das abordagens mais ortodoxas, não significavam conformação a sistemas de dominação nem tão pouco a ausência de resistência. Surgiu, assim, em 1985, o livro Weapons of the Weak: Everyday Forms of Peasant Resistance, a obra que Scott considerou, até ao fim dos seus dias, ser aquela que mais o orgulhava.

Weapons of the weak

Em A Dominação e a Arte da Resistência: Discursos Ocultos, publicado em 1990 (a única obra de Scott traduzida para português, editada em 2013 pela Letra Livre), Scott abandonou a aldeia malaia e procurou demonstrar que não estava perante uma peculiaridade local. Para tal, a sua investigação estendeu-se no tempo e no espaço para explorar a vulgaridade de tais práticas de resistência em situações de dominação análogas e elaborar uma abordagem comparativa, o que implicou um cruzamento por vezes ousado de diversas fontes – históricas, antropológicas e literárias, da poesia ao folclore. A premissa era simples: estudar as relações de poder através das expressões mais explícitas, visíveis e públicas da relação entre os poderosos e os fracos, tende a evidenciar a deferência dos segundos perante os primeiros e, como tal, a criar uma imagem de conformação. O que se torna especialmente problemático quanto maior for a disparidade de poder entre dominadores e dominados, pois, nesses casos, e segundo Scott, «mais o discurso público dos subordinados assum[e] uma forma estereotipada ou ritualística», o que é dizer, mais corresponde a um jogo de aparências determinado pelo desejo ou pela expectativa dos dominadores. As práticas de resistência mais directas e confrontacionais correspondem, de resto, frequentemente, a eventos excepcionais e acontecem, principalmente, em contextos de maior liberdade política. Assim, Scott em A Dominação e a Arte da Resistência parte em busca do «discurso oculto» que se encontra para lá do «discurso público», ou seja, os «bastidores», se quisermos, onde se manifestam, então, a dissidência, o descontentamento e as práticas de resistência que frequentemente revelam tudo menos uma subordinação passiva ou uma aceitação plena das regras do jogo. Essa dimensão «oculta», por vezes até simbólica, dos discursos e práticas dos subordinados que Scott perscruta no livro, não os torna, contudo, acções passivas ou inofensivas. Se podem resultar do medo e servir como estratégias de sobrevivência ou de protecção perante potenciais retaliações, funcionam, também, como formas de testar os limites das estruturas de dominação, estabelecer práticas de solidariedade e construir ou reforçar a consciência da condição subalterna dos dominados, o que, para além de muitas vezes ter efeitos directos nas estruturas de poder e forçarem a sua mudança, pode ter um efeito mobilizador extremamente eficaz quando a confrontação se torna aberta e directa.

Ver como um Estado e ver como um anarquista

Seeing like a state

Seeing Like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed, publicado em 1998, traz várias mudanças na obra de Scott. Desde logo, uma mudança de objecto e de escala, deixando, temporariamente, o estudo das formas de resistência de grupos subalternos e a enfâse numa abordagem «a partir de baixo», focando-se, agora, no estudo da história dos Estados, um interesse que iria caracterizar praticamente toda a obra posterior de Scott. É, também, por esta altura que a aproximação de James C. Scott às ideias anarquistas começa a ganhar forma. No livro, através do estudo de exemplos tão díspares como a construção da cidade de Brasília e os projectos de florestação na Prússia nos séculos XVIII e XIX, ainda que com o foco a incidir principalmente nos projectos do «Alto Modernismo» que atravessaram o século XX, Scott dá conta dos processos de uniformização, padronização e racionalização introduzidos com o desenvolvimento dos Estado modernos. Com o fim de impor uma «legibilidade» sobre os sujeitos e territórios governados, a consequência de tais projectos foi muitas vezes catastrófica, nomeadamente por ignorarem formas de conhecimento vernacular ou locais, imporem modelos de conhecimento rígidos e estruturas de governo altamente centralizadas e autoritárias. Em Two Cheers For Anarchism: Six Easy Pieces on Autonomy, Dignity and Meaningful Work and Play, publicado em 2012, Scott, para além de ilustrar as possibilidades abertas com a adopção de um «olhar anarquista» no estudo dos movimentos populares, das revoluções e do próprio Estado, reencontra-se, novamente, com a importância das formas de conhecimento informais e da diversidade, flexibilidade e capacidade de adaptação defendidas em Seeing Like a State.

As sociedades depois do Estado

Nos seus dois últimos livros, The Art of Not Being Governed: An Anarchist History of Upland Southeast Asia (2009) e Against the Grain: A Deep History of the Earliest States (2017), Scott manteve o interesse na história dos Estados, reaproximando-se, novamente, de uma história «a partir de baixo» e desafiando a maioria da literatura sobre o tema, assim como as próprias narrativas «civilizacionais» canónicas. Nas palavras de Scott, no primeiro destes livros, «a imensa literatura sobre a formação dos Estados, contemporânea e histórica, prestou uma atenção residual ao seu obverso: a história da deliberada e reactiva ausência de Estado», propondo, assim, uma história daqueles que escaparam ao Estado por assumir que a formação deste não pode ser entendida sem aqueles. Influenciado pelo antropólogo Pierre Clastres e pelo seu livro Sociedades Contra o Estado, The Art of Not Being Governed é um livro que dá conta duma extensa área geográfica, que cruza vários países do sudeste asiático e a que Scott (seguindo Willem van Schendel) chama Zomia, onde a maioria das suas populações resistiu, até há muito pouco tempo, à expansão dos Estados e à subjugação pelas suas estruturas de poder. As formas de organização social, a localização geográfica, as práticas de subsistência, as próprias identidades colectivas e práticas linguísticas destas populações – aspectos habitualmente usados para caracterizar o seu atraso – são, na verdade, segundo Scott, mantidas e desenvolvidas como forma de resistir à incorporação pelo Estado, o que fizeram com sucesso ao longo de milhares de anos. No livro seguinte, Against the Grain, apesar de o interesse nas formas de resistência se manter presente, o olhar desloca-se, em parte, para aqueles que não foram capazes de escapar às teias das estruturas estatais emergentes. Desafiando a narrativa que entende teleologicamente o Estado como a decorrência de um processo de evolução, em direcção ao progresso e, portanto algo natural e desejado, o argumento que apresenta é o de que a sedentarização e a agricultura intensiva não resultaram de uma escolha motivada por uma maior segurança e prosperidade, mas, sim, de uma imposição forçada e violenta por parte dos primeiros Estados agrícolas, geralmente estruturados em modelos fortemente hierárquicos e assentes na escravatura. Como tal, muitos povos vistos como «bárbaros» eram, na verdade, intencionalmente «bárbaros», tal como propunha em The Art of Not Being Governed, como forma de escapar às formas de exploração e de violência impostas pelos Estados.

The art of not being governed

Scott foi, em muitos aspectos, um académico pouco convencional. O seu trabalho e as perspectivas que abriu, através do cruzamento de múltiplas fontes e métodos (que foram da etnografia à pesquisa arquivística e ao recurso a fontes literárias), cedo transbordaram os limites estreitos da especialização académica e disciplinar. Ao olhar idiossincrático sobre os sujeitos e os objectos que estudou, Scott aliava uma rara capacidade para tornar intuitivas perspectivas extremamente originais e para simplificar fenómenos de grande complexidade. Um sentido de humor muito particular, por vezes a roçar a auto-depreciação, e a atitude algo descomprometida, a denunciar um relativo desprezo pela seriedade auto-imposta das ciências sociais e da sua pureza disciplinar, contribuíram, certamente, para o interesse e alcance da obra de Scott. A mesma dificuldade de arrumação é extensível à sua definição política. Crescentemente atraído pelo anarquismo, sempre recusou considerar-se um anarquista e classificou-se, frequentes vezes, como um «marxista rude, com a ênfase no rude».

Em 2012, a propósito de um seminário que reuniu diversos investigadores da Península Ibérica influenciados pelo seu trabalho, Scott visitou Portugal e participou numa conversa/ entrevista com os organizadores e participantes do seminário e com a imensa assistência presente para o ouvir (o que implicou, aliás, uma mudança imprevista de sala para acolher todos os interessados). Essa entrevista foi publicada em inglês (pode ser lida aqui) e em português, num livro que reuniu algumas das apresentações desse e de outro seminário dedicado a E. P. Thompson (Da Economia Moral da Multidão à Arte de Não Ser Governado: E. P. Thompson e James C. Scott na Ibéria, organizado por José Neves, Fátima Sá e Diego Palacios Cerezales e publicado pela editora 100 Luz).

As armas contra os fracos: Scott, CIA e ciências sociais

Na altura, ainda não era conhecida a colaboração de Scott com a CIA, acontecida nos anos 50 e 60, em especial na Birmânia (actual Mianmar), onde escreveu relatórios sobre o movimento estudantil. Nesse âmbito, veio a viver em França durante um ano e visitou vários países em África e no sudeste asiático, nomeadamente a Indonésia, onde contactou com alguns dos líderes do movimento estudantil comunista que, como o próprio revelou, vieram a ser mortos anos nos posteriores, na segunda metade da década de 60, pelo regime de Suharto e pela intervenção norte-americana. Tão perturbadora quanto a descoberta deste facto, foi, justamente, a aparente indiferença com que Scott se referiu ao assunto em entrevistas (por exemplo aqui), deixando no ar a possibilidade de a sua colaboração ter contribuído de alguma forma para a morte desses estudantes. Tanto quanto se sabe, essa colaboração terminou com a estada em Paris, no início dos anos 60 (ver Patriotic Betrayal: The Inside Story of the CIA’s Secret Campaign to Enroll American Students in the Crusade Against Communism, por Karen M. Paget, publicado em 2015). Por causa disto, muitos questionaram a sua relação com o trabalho de Scott. Este assunto, contudo, remete para discussões bem mais importantes do que a história de vida de Scott e o impacto de tais actividades no significado ou importância da sua obra. É em boa medida contraproducente reduzir tal acontecimento a um mero comentário moral ou a uma posição judicativa sobre a obra de Scott, que creio não ficar comprometida por esta descoberta – frequentemente, diga-se, tal exercício pretende afirmar algo mais sobre quem sente a necessidade de estabelecer esse distanciamento do que sobre a obra de Scott. E uma das questões mais complicadas remete, precisamente, para a relação – histórica, certamente, mas sempre actual – entre as ciências sociais e o Estado. Na verdade, mais do que uma simples relação, trata-se de uma afinidade efectiva entre grande parte do conhecimento produzido na academia e os interesses, necessidades e perspectivas dos aparatos de poder. Muito do conhecimento produzido e incentivado nas ciências sociais reproduz as perspectivas e os interesses dos grupos dominantes. Pretende «ver como um Estado» e conforma o seu conhecimento à necessidade de tais aparatos imporem legibilidade (para usar duas expressões do próprio Scott) sobre os sujeitos que governam, perpetuando relações de dominação e intensificando, até, formas de repressão. Nesse sentido, curiosamente, Scott deu-nos ferramentas para produzir formas de conhecimento que desafiam esse olhar do Estado e das estruturas de poder.

Há que dizer que o que fez de Scott um informador útil não distará muito daquilo que tornou Scott um investigador singular e inovador no estudo das formas de resistência e das relações de poder. É que, ainda que largamente injusta, é mais do que uma simples coincidência infeliz a frequente confusão entre o trabalho de um antropólogo no terreno e a actividade de um qualquer agente secreto que procura obter informações sobre a vida das pessoas com recurso a métodos invasivos. Tal como não será apenas uma simples coincidência epistemológica ou metodológica a afinidade entre a abordagem do inquisidor ou do juiz e a do antropólogo ou do historiador, como assinalou, por exemplo, Carlo Ginzburg. Isto para não falar dos casos de colaboração directa, activa e consciente entre cientistas sociais e os aparatos de governação e dominação. Ignorando o período da Guerra Fria, onde estas colaborações abundaram, pois Scott não foi um caso isolado, basta recordar, para o efeito, a recente integração de antropólogos no sistema militar norte-americano, em particular durante a invasão do Iraque, sem esquecer a aparentemente mais banal e inócua colaboração entre centros de investigação e as estruturas de poder político e económico.

Talvez fique, assim, por apurar algo porventura tão impossível quanto desnecessário: se foi o contacto de Scott com os meandros mais obscuros do poder que informou a obra de Scott e contribuiu quer para as suas múltiplas dissidências, quer para a sua exposição e compreensão das estruturas de dominação e de poder, ou se, por outro lado, foram essas estruturas de poder que mais beneficiaram da sua colaboração e que continuaram a tirar proveito dos seus contributos académicos posteriores, o que é questionável. Certo, porém, é que a obra de Scott acabou por constituir um dos corpus mais críticos das relações que opõem governantes e governados – persistindo sempre, porém, o paradoxo de o seu trabalho ter dado visibilidade a práticas de resistência cuja eficácia resulta em parte do facto de estarem fora do radar das estruturas de poder. Começando no estudo da economia moral do campesinato, passando pelo estudo das formas de resistências «ocultas» dos subalternos e da violência e perversidade da imposição e consolidação das estruturas de poder estatais ao longo da história, a obra de Scott mantém uma originalidade e actualidade que lhe permite ser usada contra os seus aspectos biográficos mais tenebrosos ou as suas eventuais intenções mais obscuras. Creio haver, por isso, razões suficientemente fortes para evitar mandar fora o bebé com a água do banho e para continuar a ler James C. Scott.

Diogo Duarte
Sobre o/a autor(a)

Diogo Duarte

Historiador, autor de "O Anarquismo e a Arte de Governar".
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