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Itália: 5 Estrelas em estado de guerra

O ex-primeiro-ministro Conte queria transformar o partido populista num partido verde de centro-esquerda. O fundador Beppe Grillo deu um murro na mesa. O maior partido parlamentar italiano parece não conseguir superar as suas divisões.
Ex-primeiro-ministo italiano Giuseppe Conte ladeado pelo líder da extrema-direita Salvini e por Di Maio que foi líder do Cinco Estrelas. Outubro de 2018. Foto do Governo Italiano.
Ex-primeiro-ministo italiano Giuseppe Conte ladeado pelo líder da extrema-direita Salvini e por Di Maio que foi líder do Cinco Estrelas. Outubro de 2018. Foto do Governo Italiano.

Grillo contra Conte. O Movimento 5 Estrelas (M5S), que participa no “governo de unidade” italiano do ex-presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi, vive uma guerra interna declarada entre as suas duas figuras mais conhecidas. O fundador, o cómico Beppe Grillo, opôs-se esta terça-feira à candidatura à liderança do partido do ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte e ao processo de refundação que encabeça.

Há meses que Conte, que só aderiu oficialmente ao M5S este ano, tinha começado um processo que começou por parecer contar com a anuência de Grillo. O jurista, que governou entre 2018 e o final de janeiro de 2021 em coligação primeiro com a extrema-direita depois com o Partido Democrata, queria transformar o partido que começou por ser populista e “anti-sistema” num partido tradicional de centro esquerda e ecologista.

No Parlamento Europeu, as movimentações iam no sentido da aproximação ao Partido Socialista Europeu. O M5S não pertence a nenhum dos grupos parlamentares europeus. A eurodeputada Tiziana Beghin explicava, em declarações citadas pelo El País, que “ter dez deputados entre os não inscritos é mau para nós mas também para os italianos: há menos possibilidade de influenciar as mudanças”. A aproximação ao PSE era a mais natural porque “é o grupo com o qual temos maior afinidade de voto nesta legislatura”, acrescenta.

Para ser bem sucedido, Conte tentava libertar-se da sombra de Beppe Grillo e as tensões foram sendo cada vez mais visíveis. Esta segunda-feira, em conferência de imprensa, dizia não ser “testa de ferro de ninguém” e que o cómico devia escolher entre “ser o pai generoso que deixa o seu filho crescer ou que faz bullying e tenta evitar a emancipação dele”. Este respondeu-lhe no dia a seguir: “Conte não pode resolver os problemas do Movimento, não tem visão política nem capacidade de gestão”, “não podemos deixar que um movimento nascido para defender a democracia direta e participativa se transforme num partido unipessoal e governado por um estatuto do século XVII”, disparou.

Outro dos pontos de rutura era o projeto do ex-primeiro-ministro de acabar a colaboração com a chamada “plataforma Rousseau”, o sistema de votação online montado pela direção de Grillo e que é acusado de ser pouco transparente no seu funcionamento. O sistema é da responsabilidade de uma associação à parte, acusada recentemente pela direção do M5S de ingerência na vida do partido, paga com os salários dos deputados e gerida pelo filho do seu segundo fundador, o especialista em marketing digital, Gianroberto Casaleggio.

Com os caminhos desavindos e a possibilidade do maior grupo parlamentar se dividir em dois, a guerra é entre Grillo e Conte mas os estilhaços podem atingir Draghi, já que se espera que esta divisão implique que uma das fações passe a opor-se ao governo.

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