As palavras «Shim'u, echai, ani od chai / Ouçam, meus irmãos, eu ainda estou viva» ecoaram no Festival Eurovisão da Canção de 1983, realizado em Munique, a 16 km de distância de Dachau – local onde surgiu o primeiro campo de concentração da Alemanha Nazi. Hoje, o concurso criado para cicatrizar algumas das feridas abertas no pós-2.ª Guerra Mundial é um dos principais palcos onde se branqueia a imagem de Israel - projeto etnonacionalista, imperialista e colonial - com vista a um apagar do genocídio ocorrido na prisão a céu aberto, Gaza.
Símbolo e instrumento político na criação de uma identidade europeia transnacional (Spaziante, 2021, 188), o Festival Eurovisão da Canção não foi apenas palco na construção alegórica da ideia de Europa (Tragaki, 2013), mas também de lutas culturais sobre os significados, fronteiras, limites, semelhanças e diferenças (Fricker & Gluhovic, 2013, 3). O certame demonstra o seu caráter político, sobretudo, na escolha do que considera político (Ribeiro, 2025), já que os posicionamentos da EBU e das várias emissoras públicas oscilam ao sabor dos ditames nacionais e europeus, demonstrando as contradições entre «fatores políticos e ideais apolíticos» (Raykoff, 2007, 3).
Em 2022, após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, a EBU declarou que a última teria permissão para continuar a participar na competição, face à natureza apolítica do evento. Porém, recuou nesta declaração quando emissoras públicas exigiram que a Rússia fosse impedida de participar no Festival, sob ameaça de desistência, alegando que «desacreditaria a competição». Também no caso de Israel, com a pressão dos coletivos de solidariedade com a Palestina e dos fãs do concurso, esperava-se que a posição da União Europeia da Radiodifusão (EBU) seguisse igual caminho, rejeitando o apartheid e o genocídio. Se Sousa e Santos (2003, 9) referem que a função primária da televisão pública é servir o poder político, os distintos posicionamentos no caso da Rússia e de Israel parecem confirmar aquilo que todos observamos: que as vítimas de Gaza são reduzidas a uma condição sub-humana por causa da sua etnia e local de origem.
Israel sempre viu na Eurovisão uma porta de entrada para se enquadrar nos valores europeus, promovendo a ideia e a imagem de um Estado democrático e inclusivo no Médio Oriente, ao mesmo tempo que ocupava ilegalmente os territórios da Palestina. Desde 2023 que Israel intensifica a política de bombardeamentos, destruição de infraestruturas de serviços básicos como hospitais, escolas, universidades, impede a entrada de ajuda humanitária com bens de primeira necessidade, acumulando centenas de milhares de mortos. Independentemente de tudo isto, a EBU continua a permitir que Israel lave as suas mãos do genocídio, ao participar ano após ano no Festival.
Em 2024, no final da Eurovisão a artista portuguesa Iolanda subiu ao palco para cantar o seu tema “Grito”. A atuação começa por chamar a atenção para as unhas da cantora que estavam pintadas com o símbolo da resistência palestina, e no fim acaba a dizer “a paz vai prevalecer”. O vídeo da performance portuguesa não foi publicado no site oficial da competição, tendo a EBU optado por publicar o vídeo da semifinal onde Iolanda tinha apenas unhas brancas. Na altura a RTP posicionou-se, questionando a EBU sobre a omissão do vídeo, que acabou por ser publicado horas depois da atuação portuguesa. Ventos de esperança achariam que tal posicionamento poderia significar uma tomada de posição por parte da emissora pública portuguesa sobre a presença de Israel no Festival e o massacre do povo palestino.
Este ano a semifinal da Eurovisão na qual Israel competiu realizou-se no dia da Nakba, momento que assinala a expulsão e a limpeza étnica da Palestina em 1948. Apesar da pressão e pedidos de reunião com os responsáveis da RTP por parte de coletivos como Comité de Solidariedade com a Palestina e a Plataforma BDS Portugal, a RTP optou por ignorar os pedidos de reunião dizendo que “tem acompanhado com muita atenção a evolução da análise da situação em Israel e na Faixa de Gaza por parte da organização do Festival da Eurovisão”.
Num momento em que o genocídio em Gaza tem vindo a escalar, onde se morre por balas, bombas e fome, vários países Europeus tomam posições de reconhecimento do Estado da Palestina, do fim a acordos diplomáticos e comerciais com Israel. Surge, ainda, um apelo ao afastamento de Israel do Festival da Eurovisão por parte de televisões públicas, com o Estado Espanhol, a Irlanda, a Eslovénia, os Países Baixos e a Islândia a ameaçar boicotar a sua participação no Festival em 2026 se Israel continuar a participar enquanto concorrente ao mesmo tempo que comete crimes contra a humanidade e perpetua um genocídio em Gaza. Também a RTP tem que tomar uma posição. Ao continuar a participar na Eurovisão ao mesmo tempo que Israel mantém o massacre na Palestina não fica neutra perante a situação, mas torna-se cúmplice. Desta forma, apelamos a que a RTP junte forças com as televisões públicas que pedem o afastamento de Israel da próxima edição do Festival Eurovisão, sob pena da sua não participação caso isso não ocorra. A contestação cresce por toda a Europa, e a RTP pode - e deve - contribuir para uma frente comum na recusa da normalização do crime de genocídio em Gaza. É hora de agir e tomar uma posição, porque ontem já era tarde demais.