Israel é palco de violência de gangues fascistas contra palestinianos e pacifistas

16 de julho 2014 - 19:30

No meio da ofensiva israelita à Faixa de Gaza, tornam-se ainda mais frequentes e sistemáticos os ataques de gangues fascistas, que se organizam através das redes sociais, para atacar civis palestinianos e agredir judeus de esquerda que se opõem à violência. Artigo de Guila Flint.

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Dezenas de manifestantes foram espancados por membros da gangue, organizada por Yoav Eliassi, que lidera um grupo fascista chamado “Os Leões”.

Um dos casos mais graves aconteceu na noite do passado sábado, durante uma manifestação no centro de Tel Aviv.

Cerca de 500 manifestantes reuniram-se em frente ao Teatro Habima, exigindo um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza.

Um grupo de dezenas de membros de extrema-direita, portando bandeiras de Israel, chegou ao local e começou a agredir os manifestantes.

Na manifestação, soaram os alarmes advertindo sobre foguetes lançados contra Tel Aviv a partir da Faixa de Gaza. Naquele momento, os poucos policas que tentavam manter a ordem no local correram para os abrigos antiaéreos, deixando os manifestantes expostos ao gangue.

“Quando os alarmes soaram, todos nós entendemos que os fascistas que estavam à nossa frente eram mais perigosos do que os foguetes, principalmente depois de os policias terem corrido para os abrigos”, relata o bloguer Hagai Mattar, que estava no local.

“Os Leões”

Dezenas de manifestantes foram espancados por membros da gangue,  organizada por Yoav Eliassi, que lidera um grupo fascista chamado “Os Leões”.

Eliassi convocou os seus seguidores pela internet a protestar contra os manifestantes pacifistas e vários deles anunciaram, já pelo Facebook, que iriam “para bater”.

O incidente durou várias horas após a dispersão da manifestação, quando os membros da gangue perseguiram os manifestantes pelas ruas de Tel Aviv e invadiram e destruíram bares e restaurantes onde eles se tentaram refugiar.

Clima ameaçador

A ACRI (Associação de Direitos Civis em Israel) enviou um apelo ao Procurador-Geral da Justiça, Yehuda Weinstein, exigindo que instrua a polícia a conter os gangues de vândalos que atacam e ameaçam civis palestinianos nas ruas do país.

De acordo com a ACRI, nos últimos dias tem-se vindo a multiplicar o número de ataques racistas em diversas cidades de Israel.

No dia 5 deste mês, um grupo de 50 membros do grupo racista “Kahane Vive” reuniu-se em frente ao McDonalds na cidade de Pardes Hana gritando “morte aos árabes!”. No local trabalham funcionários das aldeias árabes israelitas da região e, no momento do ataque, também estavam clientes árabes, inclusive mulheres vestindo o véu tradicional islâmico. Testemunhas no local descreveram um “clima de terror”, com crianças a chorar e pessoas apavoradas, enquanto o gangue fascista cercava o restaurante.

Segundo a ACRI, incidentes semelhantes também ocorreram nos últimos dias em Jerusalém e Nazaré. “O objetivo declarado destes atos é instalar medo entre os árabes para exclui-los dos espaços públicos”, afirma Avner Pinchuk, advogado da associação.

Jovem queimado vivo

Vale lembrar que o clima de incitamento no país já levou à morte de Mohammed Abu Khder, de 16 anos, queimado vivo por um grupo de adolescentes israelitas no dia 5. Os responsáveis já foram capturados pela polícia.

Segundo o editorial do jornal Haaretz, “julgar os assassinos não é suficiente, Israel tem que passar por uma revolução cultural”.

“Os líderes políticos e comandantes militares devem reconhecer a injustiça e corrigi-la. Eles devem começar a educar ao menos a nova geração, baseando-se em valores humanistas, e incentivar um discurso público de tolerância. Sem isso, a tribo judaica não será mais merecedora do seu Estado”, afirma o Haaretz.

Guila Flint cobre o Médio Oriente para a imprensa brasileira há 20 anos e é autora do livro 'Miragem de Paz', da editora Civilização Brasileira.