Jerusalém

Israel ameaça despejar agência da ONU para construir casas para colonos

12 de outubro 2024 - 15:19

Governo israelita quer construir 1.400 casas no terreno da sede da agência da ONU para os refugiados palestinianos em Jerusalém Leste, em terreno considerado internacionalmente um território palestiniano ocupado. Diretor da agência diz que os ataques são um “precedente grave para outras situações de conflito” no mundo.

PARTILHAR
Rapaz numa escola destruída em Nuseirat, na Faixa de Gaza.
Rapaz numa escola destruída em Nuseirat, na Faixa de Gaza. Foto UNRWA © .

A ofensiva israelita contra as Nações Unidas conheceu um novo capítulo esta quinta-feira, com um organismo governamental a anunciar o plano para construir um complexo habitacional de 1.400 casas em território ocupado aos palestinianos no leste de Jerusalém, onde hoje se encontra a sede da UNRWA, a agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos. A sede encontra-se encerrada desde maio, após ter sofrido vários ataques, incluindo uma tentativa de incêndio, a coberto das acusações de Netanyahu de cumplicidade com os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023. Em janeiro, o governo acusou 12 funcionários da agência de serem suspeitos de envolvimento nesses ataques, mas até agora não entregou provas aos investigadores nomeados pela ONU, que os expulsou logo que as suspeitas foram divulgadas.

Mas os ataques a esta agência são mais antigos, com Israel a questionar a sua existência desde que foi criada. Desde o início do genocídio, pelo menos 226 trabalhadores desta agência foram assassinados na Faixa de Gaza e 190 estruturas da agência, incluindo escolas e centros de saúde, foram destruídas pelos bombardeamentos israelitas.

O projeto de expansão colonial nos terrenos da agência em Jerusalém Leste integram-se na política sionista de demolição de infraestruturas que servem a população palestiniano e cuja construção contou com apoio financeiro internacional. Entre janeiro de 2019 e e setembro do ano passado já tinham sido demolidos parcial ou totalmente 1.692 destes edifícios, sobretudo na Cisjordânia.

Na sexta-feira, a ONU reagiu à notícia, dizendo não ter sido informada da expropriação da sua sede no bairro de Ma’alot Dafna. O vice-porta-voz de António Guterres, Farhan Haq, disse só ter tido conhecimento dessa intenção pela imprensa e lembrou que “Israel está sob a obrigação de honrar e respeitar” a inviolabilidade das instalações das Nações Unidas, de acordo com a lei internacional.

Entretanto, o Parlamento israelita já tramitam várias propostas de resolução para fechar as atividades da agência da ONU em Jerusalém, declará-la organização terrorista e retirar os privilégios diplomáticos aos seus funcionários. A serem aprovadas, disse o comissário-geral da agência Phillipe Lazzarini, isso corresponderia a admitir que “a ordem internacional do pós-II Guerra Mundial chegou ao fim”.

Ataques à UNRWA são “precedente grave para outras situações de conflito”

Esta semana, Lazzarini relatou ao Conselho de Segurança da ONU a situação com que a agência se depara em Gaza um ano após o início dos bombardeamentos, com quase toda a população deslocada, dezenas de milhares de mortos, a ameaça de fome generalizada e mais de 650 mil crianças sem escola, tendo perdido dois anos de escolaridade, quando a educação era antes um dos maiores orgulhos daquela população. “Não podemos dar-nos ao luxo de perder uma geração inteira e lançar as sementes para o futuro ódio e extremismo”, alertou o comissário.

Lazzarini destacou ainda o trabalho da agência nas últimas semanas em colaboração com a OMS e a UNICEF, no esforço de vacinação de emergência contra a poliomielite a mais de meio milhão de crianças nos intervalos entre os bombardeamentos, 25 anos após a erradicação daquela doença no território. A agência conseguiu ainda instalar no Líbano onze abrigos para mais de 4.500 libaneses, palestinianos e sírios deslocados pelos recentes ataques de Israel.

Quanto aos ataques de Israel ao trabalho da UNWRA, o responsável atribuiu-os à campanha mais vasta com o objetivo de retirar aos palestinianos o seu estatuto de refugiados e assim mudar o enquadramento da situação política futura. E considerou-os um “precedente grave para outras situações de conflito em que os governos possam querer eliminar a presença incómoda das Nações Unidas”. Por isso, Lazzarini apelou ao Conselho de Segurança para blindarem a agência das tentativas para lhe pôr fim numa altura em que não existem perspectivas para uma solução política de longo prazo para a região.