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Isabel II, ou a arte de encenar o consenso

Se os lutos e exéquias se tornaram ocasião habitual para o branqueamento da História, é justamente nesse momento que faz falta alertar o público condoído. Artigo de António Louçã.
Isabel II em Otava, 1957. Foto Rosemary Gilliat Eaton / Library and Archives Canada/ Flickr

Diz-se que nos fica mal dizer mal de quem morre. Quando morre alguém, deixamos de ter direito a ouvir verdades desagradáveis que lhe dizem respeito? Se os lutos e exéquias se tornaram ocasião habitual para o branqueamento da História, é justamente nesse momento que faz falta alertar o público condoído.

Exerceu Isabel II o seu ofício com mestria insuperável? Sim, provavelmente. O ofício de rainha já devia ter sido extinto e, não tendo, o slogan destes dias deveria ser: "Morreu a rainha, viva a República!" Mas até os ofícios obsoletos podem ser exercidos com insuperável mediocridade, como será certamente o caso do novo rei, ou com insuperável mestria, como foi o caso da falecida rainha.

Não vale a pena abolir a monarquia, porque o rei ou a rainha têm apenas uma função decorativa? Não se tornou a expressão "rainha de Inglaterra" sinónimo de dignitário sem poderes e sem maldade - inofensivo, portanto? Sim, para o senso comum ganhou essa conotação.

A função é, contudo, decorativa mas não inofensiva. Isabel II agradou à direita norte-americana por aturar as grosserias de Donald Trump sem lhe indicar o caminho da porta, e agradou ao público liberal por ter recebido o mesmo Trump envergando um pin que lhe oferecera Obama, no que esse público quis ver como uma bofetada de luva branca; agradou à direita por ter recebido amavelmente Liz Truss e ao público liberal por se ter apressado a morrer antes de assistir a mais uma bacanal de governação thatcherista em versão serôdia; agradou à direita por ter deixado dizer que era a favor do Brexit, e ao público europeísta por tratar Boris Johnson com o misto de indulgência e desprezo devidos ao destravado que era. Mas, no fim do dia, a aparente simetria enganava, porque Trump e Truss sempre obtiveram a bênção da grande herdeira do império vitoriano, onde o sol nunca se punha, e o Brexit sempre se fez com as consequências sobejamente conhecidas.

E não se diga que, em 1957, ao visitar Salazar e ao passar um atestado de bom comportamento à ditadura portuguesa, Isabel II abria um parêntesis no seu indefectível democratismo. Não houve tal parêntesis: em sete décadas de reinado, a rainha visitou ou recebeu incansavelmente ditadores de todo o tipo, de Mobutu a Ceausescu, de Salazar a Hassan II, do general Figueiredo a Putin.

Quando jovem princesa, conquistara popularidade e simpatia na Segunda Guerra Mundial, como condutora de ambulâncias. Manifestou na altura preocupação pelos sacrifícios que a guerra fazia sofrer ao povo, como se estivesse assessorada pelos mais hábeis conselheiros de imagem.

Nos primeiros anos do pós-guerra, quando o imperialismo britânico fazia massacrar o povo grego, lançava as bases do domínio sionista na Palestina histórica e atiçava uma mortífera hostilidade entre muçulmanos e hindus na Índia recém-descolonizada, Isabel II foi mantendo o perfil discreto de quem treinava intensamente para o cargo em que o silêncio é de ouro.

Mas, em 1953, poucos meses depois de ser coroada, assistiu impávida ao sangrento golpe de Estado protagonizado pelo MI-5, que destruiu a democracia iraniana em nome da indústria petrolífera britânica. E a impavidez seria daí em diante um ingrediente essencial no seu comportamento, tal como a estudada ambiguidade dos seus silêncios.

Isabel II assistiu impávida à agressão anglo-franco-israelita no Canal de Suez em 1956. Assistiu às violências cometidas em nome da sua monarquia contra a população mais pobre da Irlanda do Norte, numa guerra civil larvar que durou três décadas. Assistiu à guerra das Malvinas, para salvaguardar a presença colonial britânica na América do Sul. Assistiu ao envolvimento do execrável Tony Blair na invasão do Iraque, em busca das mirabolantes armas de destruição massiva.

Quando Margaret Thatcher ordenou uma repressão implacável contra a longa greve dos mineiros do carvão, Isabel II não se lembrou de enviar aos filhos dos grevistas acossados uma mensagem de simpatia, como a tinha enviado em 1940 às crianças britânicas que a guerra separara dos pais.

Reinou sobre um sistema em que o genocida chileno Pinochet gozava de protecção britânica contra o mandado de captura internacional emitido pelo juiz Baltazar Garzón, mas o jornalista Julian Assange, por dizer verdades incómodas, está na iminência de ser deportado para os Estados Unidos, ao encontro de uma mais que certa morte em vida.

A mestria da falecida rainha consistiu em encenar como ninguém um consenso impossível. Teve sucesso nas encenações da sua vida e continuamos ainda hoje a ouvir os ecos desse sucesso, com a desconvocação das greves de comunicações e transportes que estavam agendadas para os próximos dias. Mas nenhum sindicato reverencialmente inclinado perante a monarquia pode decretar o fim da luta de classes. Morreu a rainha, mas a decadência do império britânico vai continuar - e a luta também.

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