Todos os anos, milhares de estudantes do secundário visitam a Futurália, uma feira que junta instituições de ensino e formação para divulgarem a sua oferta educativa aos jovens, mas onde também marcam presença vários partidos políticos com as suas propostas para a juventude. Este ano, o stand do Chega estava decorado com mensagens xenófobas como “Isto não é mesmo o Bangladesh (mas parece) ou “Sorria, estamos a ser substituídos”.
Várias instituições e investigadores condenaram a presença deste tipo de mensagens e manifestaram desagrado junto da organização. O Instituto de Ciências sociais considerou "mesmo muito preocupante que mensagens de teor semelhante ou enquadradas em narrativas de exclusão estejam a ser exibidas num evento educativo frequentado por milhares de jovens".
Numa mensagem dirigida à Comissão de Organização da Futurália e ao presidente do Conselho Estratégico da Futurália, Eduardo Marçal Grilo, o ICS defende que “a defesa da pluralidade política não pode significar tolerância perante discursos racistas que atentem contra a dignidade e igualdade de pessoas”. A instituição pediu garantias de que o evento "não serve de plataforma para a divulgação de mensagens discriminatórias ou que promovam o racismo contra comunidades específicas".
Também a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que participou no evento, fez saber em comunicado que o tipo de discurso presente no stand do Chega “associa grupos inteiros de pessoas a uma ameaça social ou cultural, configurando uma retórica racista”. A instituição pede à organização da Futurália “que a utilização deste espaço não sirva para a difusão de mensagens que atentam de forma flagrante contra princípios fundamentais consagrados na Constituição da República Portuguesa”.
A associação SOS Racismo condenou a propaganda baseada na teoria racista da “Grande Substituição” e diz que autorizar a apresentação desta teoria num espaço frequentado por adolescentes e jovens é "normalizar o extremismo". A SOS exige uma tomada de posição pública da organização da Futurália sobre os critérios de aceitação dos expositores e apela à "criação de regulamentos de participação em feiras de educação que impeçam a difusão de discurso de ódio e propaganda extremista em contextos pedagógicos”.
Numa carta aberta, cerca de três dezenas de investigadores de várias instituições também exigem esclarecimentos à organização da Futurália, por entenderem que “a presença de discursos racistas e xenófobos num evento desta natureza é incompatível com os valores que devem orientar os espaços educativos”.
“A legitimação institucional de tais discursos num evento educativo transmite uma mensagem profundamente preocupante: a de que a estigmatização de pessoas migrantes pode coexistir sem contestação num espaço dedicado ao conhecimento, à aprendizagem e à construção de futuros”, prosseguem os investigadores.