A investigação conjunta do The Guardian, da emissora pública alemã ARD/NDR/Funk e da agência de investigação grega Solomon, em colaboração com a Forensis, uma agência de investigação com sede em Berlim fundada pela Forensic Architecture, que investiga violações dos direitos humanos, avança com um dos relatos mais completos divulgados até o momento sobre o curso da traineira até o naufrágio.
A versão oficial acerca da tragédia que vitimou centenas de migrantes a 14 de junho é fortemente questionada nas conclusões da investigação, que se basearam em mais de 20 entrevistas com sobreviventes, documentos judiciais e fontes da guarda costeira. Foram ainda tidas em conta rotas de voo, dados de tráfego marítimo, imagens de satélite e informações de vídeos feitos por embarcações comerciais próximas e outras fontes. Os acontecimentos foram reconstruidos com recurso a um modelo 3D interativo do barco criado pela Forensis.
De acordo com o The Guardian, a investigação desenterrou novas evidências. Em causa está, por exemplo, o facto de um navio da guarda costeira atracado num porto mais próximo nunca ter sido mobilizado para o incidente ou de as autoridades gregas responderem não duas vezes, como relatado anteriormente, mas três vezes às ofertas de assistência da Frontex.
Acresce que os últimos movimentos do navio e os inúmeros testemunhos recolhidos contradizem a guarda costeira e revelam inconsistências no relato oficial dos acontecimentos.
A investigação revela que existiram duas tentativas de reboque da traineira, que as autoridades gregas negam. Esta informação é confirmada por Maria Papamina, advogada do Conselho Grego para os Refugiados, uma das duas organizações legais que representam entre 40 e 50 sobreviventes. Os documentos do tribunal também mostram que sete dos oito sobreviventes ouvidos relataram ao promotor civil a presença de uma corda, reboque e forte puxão, em depoimentos realizados em 17 e 18 de junho.
Existem alegações de que as declarações dos sobreviventes foram adulteradas pelas autoridades gregas que, ao citar os testemunhos, nunca mencionaram as tentativas do reboque nem a possibilidade, avançada por alguns sobreviventes, de as mesmas terem causado o naufrágio. Duas das fontes da guarda costeira reconheceram que o reboque era uma razão provável para este desfecho.
As circunstâncias exatas do naufrágio não podem ser provadas conclusivamente na ausência de evidências visuais. Vários sobreviventes testemunharam ter tido os seus telefones confiscados pelas autoridades, e alguns mencionaram ter filmado momentos antes do naufrágio. O próprio navio da guarda costeira grega, ao contrário do que é recomendado, não registou a operação nas suas câmaras termográficas.
Bruxelas pediu uma investigação “transparente” sobre o naufrágio, enquanto a Frontex lamenta não ter obtido resposta à oferta de apoio que dirigiu às autoridades gregas: um avião duas vezes e depois um drone.