Em Atenas e Salónica, milhares de pessoas saíram às ruas na quinta-feira em protesto contra mais um naufrágio, o mais grave da última década a vitimar refugiados no Mediterrâneo. Na capital grega organizaram-se duas manifestações, uma convocada por sindicatos e a outra por associações antirracistas e de esquerda. Na faixa de uma das manifestações de Atenas podia ler-se a inscrição "UE - Guarda Costeira grega - Frontex: Assassinos"
Thousands of people in Athens, the capital of Greece, took to the streets and marching for the refugees who lost their lives in the ship accident off the coast of Greece.#Greece #Πυλος #ναυαγιο #Pylos #shipwreck pic.twitter.com/toXx719ZlF
— Vedat Yeler (@vedatyeler_) June 15, 2023
As imagens aéreas divulgadas pela Guarda Costeira grega com a traineira a transbordar de pessoas no Mediterrâneo durante o dia de terça-feira já tinham levantado dúvidas sobre a razão para não ter sido prestado auxílio e garantidas as condições de segurança das centenas de pessoas a bordo da embarcação sobrelotada.
Segundo contou à RFI um voluntário da associação Alarm Phone, que recebe e encaminha pedidos de socorro de migrantes e refugiados que arriscam a travessia do Mediterrâneo, a associação recebeu um desses pedidos na manhã de dia 13, de alguém que afirmou estarem 750 pessoas a bordo da embarcação. A mesma pessoa enviou a localização GPS e acrescentou que as autoridades gregas, italianas e maltesas tinham sido também contactadas. A Alarm Phone diz ter ela também alertado nessa tarde as autoridades gregas, a agência Frontex e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados acerca do pedido de socorro.
A inação da Guarda Costeira é criticada pelo advogado especialista em fluxos migratórios Dimitris Choulis, que acusa as autoridades: "Eles deixaram-nos afogar-se". Mas o porta voz do Ministério grego das Migrações diz que os meios foram rapidamente acionados e que num primeiro momento a ajuda foi recusada. Em seguida acrescenta que "a embarcação estava em águas internacionais e não tínhamos poder para os obrigar" a aceitar a ajuda.
Crescem as dúvidas sobre a ação da Guarda Costeira grega
A Guarda Costeira grega admitiu ter seguido o navio à distância durante várias horas. A linha do tempo diz que foi alertada quinze horas antes do naufrágio. Em declarações ao diário Kathimerini, um elemento da Guarda Costeira diz que por volta das 23h um dos seus navios iluminou o barco e informou através dos altifalantes que os passageiros estavam em perigo devido ao excesso de peso e que não conseguiriam chegar a Itália. E chegaram a lançar uma corda para ligar os dois navios, mas os passageiros retiraram a corda, provavelmente por temerem ser levados para a Grécia ou ser alvo da prática ilegal reiterada dos "pushbacks" da Guarda Costeira grega. O incidente da corda e da aproximação do navio ao ponto de o conseguir iluminar não consta da linha do tempo divulgada pela Guarda Costeira na quinta-feira.
"Este é o pior drama no mar nos últimos anos e podia ter sido evitado", revolta-se Dimitris Choulis, apontando também o dedo à agência europeia Frontex, que sobrevoou o navio horas antes do naufrágio e captou as imagens que deram a volta ao mundo, argumentando agora que não viu nenhum sinal de socorro. "Como é que se pode dizer uma coisa dessas quando se vê o barco nas fotografias aéreas, uma velha barcaça repleta de gente, que já se sabia que não ia chegar ao destino?", indigna-se Iasonas Apostolopoulos, da organização Mediterranea Saving Humans. Para este ativista, "as pessoas têm medo dos guarda-costeiros, mas isso não liberta os guarda-costeiros da responsabilidade de as salvar quando estão em perigo".
O argumento da falta de capacidade por o navio se encontrar em águas internacionais, usado tanto pelo governo grego como pela Frontex, também é contestado por especialistas em Direito Marítimo. Estes afirmam que ambas as autoridades têm o dever de intervir, quer haja pedido de ajuda ou não, sem a necessidade de consentimento.
Polícia grega detém nove pessoas
O inquérito ao que se passou está em curso e as autoridades gregas detiveram nove cidadãos egípcios entre os 20 e os 40 anos, membros da tripulação do navio que estavam entre os 104 sobreviventes resgatados. Serão acusados de associação criminosa para a entrada ilegal de migrantes e de terem contribuído para o naufrágio.
Sabe-se que o navio partiu vazio do Egito e recolheu as pessoas em Tobrouk, no leste da Líbia, na maioria oriundas da Síria, Egito e Paquistão. Cada uma terá pago uma quantia entre os quatro e os seis mil euros pela travessia com destino a Itália e houve quem tivesse feito a reserva nas redes sociais, com a promessa de ter direito a uma cabine num grande navio. Na realidade, viajaram amontoados, sem coletes de segurança, com pouca água ou alimentos e acabaram por naufragar na zona de águas mais profundas do Mediterrâneo. Além dos 104 sobreviventes, foram encontrados até agora apenas 78 corpos.