Jogo ilegal

Influencers lucram com as perdas das pessoas que encaminham para casinos ilegais

24 de fevereiro 2026 - 14:24

Casinos ilegais pagam comissões aos influenciadores digitais com base na percentagem de dinheiro gasto pelos utilizadores que usam os seus links de acesso. Ministério Público recebeu queixas, mas não passaram da fase de investigação.

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streamers promovem jogo ilegal
Imagem de Joanna Poupaki/Spoovio

Uma reportagem do consórcio de jornalistas Investigate Europe, publicada esta terça-feira pelo Público, chama a atenção para uma prática criminosa que ocorre diariamente à vista de todos os utilizadores de internet. Influenciadores digitais, alguns com milhões de seguidores, promovem nos seus canais no Youtube ou Twitch casinos online sem licença, muitos deles ligados à mesma empresa com sedes em Malta e Chipre, a Soft2bet.

Segundo testemunhos de alguns destes influencers e de fontes internas do negócio, apoiados em documentos financeiros, análises da política dos casinos e dados de tráfego, o esquema proporciona receitas avultadas não apenas pelo uso do link para registo no casino que é divulgado por cada influencer, mas também pelo dinheiro gasto pelos utilizadores que usam esse link. Um português que deu declarações sob anonimato e que é patrocinado por um casino legal, confirma que para os que aderem ao esquema “os maiores ganhos são feitos através das perdas das pessoas, do dinheiro que elas perdem”, bastando-lhes que haja “três ou quatro pessoas com dinheiro a jogar e pode ganhar-se muito.” Entre as ofertas que recebeu e recusou, este influencer calcula que podia ter ganho entre 40 a 50 mil euros por mês.

No nosso país, um dos exemplos mais conhecidos é o de João Barbosa, que se apresenta como Numeiro e gosta de exibir a sua vida de luxo no Dubai enquanto promove casinos ilegais e o discurso de ódio contra mulheres, que lhe valeu no ano passado uma investigação do Ministério Público. Numeiro já era alvo de uma queixa crime desde 2023, uma das muitas apresentada pela Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online (APAJO) contra promotores dos casinos online ilegais. Contactado pelo Investigate Europe, o Ministério Público diz que essas queixas ainda estão em fase de investigação.

Enquanto isso, os influencers continuam a promover os casinos ilegais nas suas contas, jogando em direto em transmissões online que duram várias horas e são assistidas por dezenas de milhares de pessoas. O que não dizem é que o dinheiro com que jogam não é seu, mas sim do casino. Nalguns casos, as plataformas digitais já lhes suspenderam contas ou retiraram vídeos, mas passados alguns dias estavam de novo online a promover este negócio à margem da lei e que o setor do jogo licenciado estima representar 70% do mercado na União Europeia.

"Ao transmitir ao vivo durante horas, eles martelam o cérebro das pessoas com conteúdo relacionado ao jogo. Chega um momento em que, mesmo que você não seja jogador, torna-se jogador", diz um streamer que já promoveu estes casinos. Num dos programas de afiliação ligados à Soft2bet há mesmo uma ferramenta que os influencers podem usar para calcular possíveis ganhos: 80 euros por cada jogador italiano registado com o seu link, 120 euros por cada norueguês ou 64 euros por cada polaco.