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A inflação é o sintoma, não a doença

A direita quer colocar a culpa da inflação nas exigências salariais dos trabalhadores, mas a verdadeira culpa reside nas suas próprias políticas - e na ausência de investimento na transição climática. Artigo de Jo Mitchell.
Inflação. Foto: Broadleak News/Flickr.
Inflação. Foto: Broadleak News/Flickr.

Com o ministro Rishi Sunak a preparar-se para apresentar o Orçamento em menos de 15 dias, podemos esperar que não faltem análises sobre os perigos da despesa pública e a necessidade de ser responsável com as finanças da nação. Para os alarmistas austeritários, no entanto, há um aspeto novo - ou antes um aspeto suficientemente antigo para que alguns/as leitores/as não se lembrem dele. Em paralelo com os riscos da dívida crescente, dizem-nos, também enfrentamos o espetro da inflação. Entre os que fazem soar os alarmes encontra-se o deputado do Labour Wes Streeting, que alertou recentemente para uma “espiral salários-preços que se arrisca a alimentar a inflação”.

Streeting estava a citar o think tank libertário Adam Smith Institute, que, de forma algo irónica, invocou uma teoria da inflação cujas origens remontam a autores Marxistas. A teoria das “reivindicações conflituantes” considera a inflação como o resultado do conflito de classes: quando os trabalhadores estão em posição de exigir aumentos salariais - devido à força dos sindicatos e à capacidade de realizar greves - as empresas podem responder a esta pressão aumentando os preços, numa tentativa de preservar as margens de lucro.

A teoria é eficaz a explicar a inflação da década de 1970. A organização do trabalho era robusta e tinha capacidade de agir de forma a forçar aumentos dos salários, comprimindo os lucros empresariais. Os aumentos acentuados no preço do petróleo e o colapso do sistema de taxas de câmbio controladas de Bretton Woods desencadearam crescentes aumentos sucessivos de salários e preços: uma espiral salários-preços.

A teoria oferece perspetivas bastante diferentes para a situação contemporânea. Sindicatos fortes e forças de trabalho preparadas para greves foram substituídas pelo emprego precário, contratos “zero-horas” e por pais/mães solteiros/as com múltiplos empregos para pagar as contas. E apesar de existir atualmente um número recorde de vagas em setores como a hotelaria, isso reflete a disrupção causada pelo confinamento e pela reabertura das atividades. O emprego ainda não recuperou os níveis pré-pandémicos e ainda temos de esperar para ver os efeitos do fim dos esquemas de lay-off. O cenário global não sugere que o mercado esteja favorável para os trabalhadores; uma espiral salários-preços semelhante à dos anos 70 não é uma perspetiva realista.

Uma explicação alternativa para a inflação - amplamente aceite na academia e nos bancos centrais - considera que os aumentos de preços resultam de “demasiado dinheiro disponível a perseguir demasiado poucos bens”. Historicamente, pensava-se que este fenómeno era o resultado de excessiva impressão de dinheiro pelo governo ou pelo banco central. Versões mais recentes desta teoria focam-se, por sua vez, no facto de o dinheiro ser demasiado barato: a inflação é compreendida como o resultado de baixas taxas de juro e disponibilidade abundante de crédito. A solução convencional é, por isso, aumentar as taxas de juro. Já há sinais de que o Banco de Inglaterra se prepara para aumentos das taxas.

Mas esta história não é mais plausível do que a da espiral salários-preços como explicação para os atuais aumentos de preços. O crédito tem sido acessível durante mais de uma década: as taxas de juro foram cortadas para perto de 0% após a crise financeira de 2008 e mantiveram-se nesses valores desde então. Apesar de o quantitative easing ter aumentado substancialmente durante a pandemia, não houve nenhum flexibilização recente das condições monetárias. E também não há razões para acreditar que o crescimento do crédito está a impulsionar os aumentos de preços.

 

Os movimentos dos preços estão, isso sim, a ser impulsionados pela reabertura das economias por todo o mundo à medida que a pandemia retrai nos países ricos. Com o aumento da procura por diversos bens, as linhas globais de abastecimento estão a ser esticadas ao limite, originando aumentos de preços. Um conjunto alargado de fatores combinaram-se de forma a causar aumentos acentuados nos preços da energia, e do gás em particular. Estas tendências são globais mas são exacerbadas no Reino Unido em resultado da disrupção causada pelo Brexit.

Estes aumentos de preços vão causar danos: as contas da comida, aquecimento e transportes vão tornar-se incomportáveis para muita gente, exacerbadas pela crueldade desnecessária de cortar o Crédito Universal [apoio social britânico]. Para milhões de pessoas, os níveis de vida enfrentam a maior contração das últimas décadas.

O discurso sobre aumentos das taxas de juro ou sobre espirais salários-preços perdem de vista o essencial. Taxas de juro mais elevadas vão traduzir-se em maiores custos de hipotecas para famílias que já estão a sentir os danos provocados por preços mais elevados, além de aumentarem os custos para as empresas. Esta medida fará pouco para contrariar os aumentos de preços que resultam de gargalos produtivos e escassez de energia, mas enfraquecerão provavelmente a recuperação económica e aumentar o desemprego.

Os atuais aumentos moderados nos salários médios são uma mudança bem-vinda face à tendência, não um sinal de uma espiral inflacionária iminente. Os salários médios só recuperaram recentemente da crise de 2008. A última década foi a pior para o crescimento salarial desde a Segunda Guerra Mundial. As margens de lucro empresariais podem e devem comportar um aumento dos salários.

 

A reação correta à situação atual é olhar para raiz do problema de escassez e gargalos: décadas de sub-investimento nas infraestruturas, I&D [Investigação e Desenvolvimento] e manufatura, juntamente com a dependência de frágeis cadeias de produção e distribuição globais. Em vez de cortes na despesa pública ou aumentos das taxas de juro, a resposta política apropriada é aumentar o investimento que visa a transição energética.

 

Isso vai reduzir a dependência de fornecimentos voláteis de gás e gerar empregos de qualidade para centenas de trabalhadores. As redes de proteção social devem ser reforçadas, e não enfraquecidas. O discurso vago sobre a importância de “nivelar por cima” deve ser substituído por uma estratégia genuína para reduzir as desigualdades regionais e reparar o nosso débil sistema de transportes. Em vez de se usar a crise dos cuidados sociais como uma desculpa para aumentos regressivos dos impostos, é necessária uma verdadeira atuação do governo.

A inflação é o sintoma, não a doença. Deve ser tratada em conformidade.


Jo Mitchell é professor associado de Economia na Universidade do Oeste de Inglaterra, em Bristol. Artigo publicado na Tribune Magazine, a 19.10.2021.

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