Na reportagem publicada este domingo no jornal público, vários ex-técnicos de ambulância ao serviço do INEM explicam as razões para a sua saída: o cansaço provocado pela acumulação de turnos e os cortes salariais nas horas extraordinárias tornaram a função insuportável para mais de cem técnicos nos últimos dez anos. Cerca de um terço encontrou trabalho melhor remunerado e com horários reduzidos fora do país.
A formação destes técnicos custou milhares de euros e hoje faltam 300 técnicos para dar resposta às necessidades, diz Pedro Moreira, dirigente do Sindicato dos Técnicos de Ambulância de Emergência. “Acumulam-se os turnos extras porque faltam pessoas, boa parte foram embora cansados das más condições e da baixa remuneração. É tempo de tomar medidas. Só assistir à vaga de emigração é negligência. O INEM gasta milhares com a formação dos técnicos que depois saem”, afirma o sindicalista ao Público.
O salário base destes técnicos é de 692,71 euros e existem hoje 762 trabalhadores na função para um quadro de 938. Se há uns anos todos os técnicos faziam turnos extraordinários, melhor remunerados, com os cortes da troika no pagamento das horas extra, as condições já não atraem quem trabalha no INEM. O estado de exaustão (burnout) destes trabalhadores já tinha sido identificado num estudo de 2013, com 75% dos técnicos a acusarem sintomas depressivos.
“Os números são preocupantes. Ninguém pode trabalhar mais de oito horas por dia. Mais do que isso e no INEM é um movimento sádico imenso. É um sofrimento constante. O INEM é um instituto fantástico e gerador de confiança na população, mas os seus técnicos como pessoas estão presos por arames”, disse ao Público o presidente da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional, João Paulo Pereira.
Em setembro do ano passado, o Bloco de Esquerda denunciou a falta de técnicos e os atrasos (nalguns casos, de anos) nos pagamentos das horas extraordinárias aos trabalhadores do INEM. “Esta carência de profissionais tem vindo a ser colmatada com a sobrecarga dos trabalhadores em funções, que asseguram vários turnos extra, situação que, além de não ser desejável, os coloca sobre forte pressão e desgaste. “, dizia o requerimento dirigido ao ministro Paulo Macedo pelos deputados bloquistas João Semedo e Helena Pinto. O Bloco instou o governo a fazer cumprir as regras laborais, “designadamente no que concerne a pausas obrigatórias para descanso, férias, entre outras”.