Incêndios florestais extremos devem aumentar 30% até 2050

24 de fevereiro 2022 - 15:09

Com as alterações climáticas, mesmo os países que não são hoje afetados poderão vir a ser fustigados por incêndios incontroláveis. Relatório da ONU alerta para necessidade de investir na prevenção para minimizar o impacto e as perdas causadas.

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Skepasti na ilha de Evia. Foto de PANAGIOTIS KOUROS/EPA/Lusa.

Mais de 50 investigadores internacionais concluem que a crescente crise climática e as mudanças no uso da terra estão a impulsionar um acréscimo global de incêndios florestais extremos, com um aumento de 14% previsto até 2030 e um aumento de 30% até 2050.

“Da Austrália ao Canadá, dos Estados Unidos à China, da Europa e da Amazónia, os incêndios florestais estão a causar danos no meio ambiente, na vida selvagem, na saúde humana e na infraestrutura”, lê-se no prefácio do relatório. Este mês, os investigadores descobriram que o aquecimento global pode causar “mega-incêndios resistentes às práticas de supressão de fogo” no sul da Califórnia. Nos EUA, quase 3 milhões de hectares de terra foram queimados por incêndios florestais no ano passado, com as chamas a tornarem-se cada vez mais difíceis de combater.

No documento é sugerida uma alteração radical nas despesas públicas com incêndios florestais, que devem ser essencialmente canalizadas para a prevenção. É proposto que cerca de metade do investimento seja afeta ao planeamento, prevenção e preparação, cerca de um terço à resposta aos incêndios e 20% à recuperação.

A professora Sally Archibald, ecologista da Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo, citada pelo The Guardian, frisa que “esta é uma conclusão realmente importante”, e que espera que se desvie “o dinheiro e os recursos para a direção certa”, bem como se “alterem as políticas”.

“Não podemos prometer que, se o mundo der dinheiro para a gestão pro-ativa de incêndios, não existirão mais eventos extremos, porque esses incêndios são causados ​​pelas alterações climáticas globais (…) Mas certamente ajudar-nos-ia a minimizar o impacto e minimizar a perda de danos”, assinala.

Os autores do estudo apontam que existem muitas soluções naturais, incluindo iniciar incêndios controlados usando queimadas prescritas, gerir as paisagens com animais a pastar para reduzir a quantidade de material inflamável na paisagem, ou remover árvores muito próximas às habitações. Devem ainda ser reforçados sistemas de monitorização baseados em ciência combinados com conhecimento indígena e melhor cooperação internacional.

“Após um século de investigação, chegamos a um acordo no sentido de que a forma como as pessoas queimam as suas paisagens tradicionalmente em África é, provavelmente, a mais apropriada para o ecossistema”, diz Archibald.

Os incêndios florestais exacerbaram a crise climática ao destruir ecossistemas ricos em carbono. A restauração de ecossistemas como pântanos e turfeiras ajuda a prevenir a ocorrência de incêndios e cria amortecedores na paisagem.

Os investigadores destacam que as alterações climáticas aumentam as condições em que os incêndios florestais começam, incluindo mais seca, temperaturas do ar mais altas e ventos fortes. Da mesma forma, as emissões de carbono de incêndios florestais estão em níveis elevados.

Enfrentar a crise climática é uma prioridade fundamental na prevenção de incêndios florestais, enfatiza o relatório.

Inger Andersen, diretora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, afirma que “temos que minimizar o risco de incêndios florestais extremos, preparando-nos melhor”. Para o efeito é necessário “investir mais na redução do risco de incêndio, trabalhar com as comunidades locais e fortalecer o compromisso global de combater as alterações climáticas”.