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A História da Revolução de Fevereiro

Não foi coincidência que a greve mais importante da história mundial tenha começado com mulheres do setor têxtil em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917, a 23 de fevereiro no antigo calendário juliano. Por Kevin Murphy.
Nicholas II, o último czar da Rússia em 1909. Wikimedia Commons

A trabalhar treze horas diárias enquanto os seus maridos e filhos estavam na frente, essas mulheres sustentavam sozinhas as suas famílias, esperando durante horas numa fila, com temperaturas abaixo de zero graus, na esperança de conseguir pão. Assim, como afirma Tsuyoshi Hasegawa no seu estudo conclusivo acerca da Revolução de Fevereiro, “não foi necessária qualquer propaganda para incitar essas mulheres a agir”.

A profunda crise social da Rússia decorreu do fracasso do regime czarista em aprovar certas reformas significativas e do abismo económico entre os ricos e o resto da sociedade russa. A Rússia era governada por um autocrata, Czar Nicolau II, que repetidamente dissolveu a Duma, um órgão eleitoral impotente que, por lei, era dominado por proprietários de terras.

Nas vésperas da guerra, a atividade grevista era comparável à da Revolução de 1905 e os trabalhadores erguiam barricadas nas ruas da capital. A guerra deu ao czarismo um alívio temporário, mas as crescentes derrotas militares e as cerca de sete milhões de baixas trouxeram à tona acusações sem precedentes de corrupção do regime em praticamente todos os setores da sociedade. Tão profunda foi a desmoralização que o futuro primeiro-ministro, o príncipe Lvov, liderou uma conspiração – embora sem tomar nenhuma atitude de facto – a fim de deportar o czar e aprisionar a czarina num mosteiro. Raspútin, um monge charlatão que ganhou enorme influência na corte do czar, foi assassinado não por anarquistas, mas sim pelos próprios monárquicos em dezembro de 1916.

À esquerda, os bolcheviques eram a força dominante num meio mais vasto de revolucionários que lideravam a maior onda grevista da história mundial (os setores pró-guerra dos socialistas moderados frequentemente abstinham-se de ações grevistas).

Durante anos lutaram contra o czarismo. Foram promovidas trinta greves políticas em meia década desde o massacre de 270 trabalhadores no centro de mineração de Lena, em 1912, que enfrentaram uma série de prisões realizadas pela polícia secreta czarista (Okhrana). O registo dos revolucionários presos em 1915 e 1916 revela a relativa força da esquerda em Petrogrado: bolcheviques 743, não-partidários 553, socialistas revolucionários (SR) 98, mencheviques 79, internacionalistas 51, anarquistas 39. Com cerca de 600 membros bolcheviques em fábricas metalúrgicas, de engenharia e têxteis em Vyborg, o distrito foi, de longe, a mais militante durante a guerra.

A 9 de janeiro de 1917, no décimo segundo aniversário do massacre do Domingo Sangrento, que desencadeou a Revolução de 1905, 142 mil trabalhadores deram início à greve. Quando a Duma abriu, a 14 de fevereiro, outros 84 mil trabalhadores pararam de trabalhar, num ato liderado por mencheviques pró-guerra.

A crescente escassez de alimentos fez com que o governo levasse a cabo a requisição de grãos no campo. Com as padarias de Petrogrado fechadas e as reservas de mantimentos reduzidas às necessidades de apenas algumas semanas, as autoridades czaristas exacerbaram a crise alegando que não havia falta de alimentos. A Okhrana relatou inúmeros conflitos entre polícias e operárias nas linhas de pão de Petrogrado. As mães “que veem os seus filhos malnutridos e doentes estão, provavelmente, muito mais próximas da revolução do que os senhores Miliukov, Rodichev e companhia, e, sem dúvida, são muito mais perigosas”.

A 22 de fevereiro, o bolchevique Kaiurov tomou a palavra durante uma reunião de mulheres em Vyborg, a fim de instruí-las a não iniciarem a greve no Dia Internacional da Mulher e a ouvirem “as instruções do partido”. Para grande desgosto do camarada Kaiurov – ele escreveria mais tarde que estava “indignado” com o facto de as mulheres bolcheviques terem ignorado as diretrizes partidárias – cinco fábricas têxteis deram início à greve na manhã seguinte.

As mulheres que instigavam as ações nas fábricas de costura de Neva gritavam: “Para as ruas! Parem! Basta!”, abriram as portas e conduziram centenas de mulheres para as indústrias de metal e de engenharia mais próximas. Atirando bolas de neve contra a fábrica Nobel Engineering, a multidão de mulheres convenceu os trabalhadores a unirem-se à luta, gesticulando os braços e gritando “Venham para fora! Parem de trabalhar!”. As mulheres marcharam também até a indústria Erikson, onde Kaiurov e outros bolcheviques se reuniram rapidamente com os operários socialistas revolucionários e mencheviques, decidindo, por unanimidade, convencer outros trabalhadores a juntarem-se.

A polícia deparou-se com multidões de mulheres e trabalhadores mais jovens a exigir “pão” e a cantar canções revolucionárias. As mulheres tiraram as bandeiras vermelhas dos homens durante a marcha: “Este é o nosso feriado. Levaremos as bandeiras”. Na ponte Liteiny, apesar das repetidas investidas dos manifestantes, a polícia impediu-os de marchar rumo ao centro da cidade. Ao final da tarde, centenas de trabalhadores atravessaram o gelo e foram atacados pela polícia. No centro, “mil pessoas, maioritariamente mulheres e jovens”, chegaram à avenida Nevsky, mas foram dispersadas. A Okhrana relatou que as manifestações eram tão provocadoras que era “necessário reforçar os destacamentos de polícias em todos os lugares”.

Sessenta mil dos setenta e oito mil grevistas eram do distrito de Vyborg. Embora tenham sido usados slogans contra a guerra e o czar, a reivindicação mais proeminente era o pão. De facto, as autoridades czaristas consideraram que se tratava apenas de mais uma revolta por pão, embora estivessem alarmadas com a hesitação das suas confiáveis tropas cossacas em combater os manifestantes. Naquela noite, os bolcheviques de Vyborg reuniram-se e votaram para organizar uma greve geral de três dias com marchas em direção a Nevsky.

No dia seguinte, o movimento grevista duplicou para cento e cinquenta e oito mil, tornando-se na maior greve política da guerra. Setenta e cinco mil trabalhadores de Vyborg entraram em greve, assim como vinte mil de cada um dos distritos de Petrogrado, Vassilevsky e Moscovo e mais nove mil de Narva. Os jovens trabalhadores “lutadores de rua” tomaram a dianteira, enfrentando a polícia e as tropas nas pontes e pelo controlo da Nevsky no centro da cidade.

Na fábrica Aviaz, os oradores mencheviques e socialistas revolucionários pediram a destituição do governo, alertaram os trabalhadores que não se envolvessem em atos irresponsáveis, e encorajaram-nos a marcharem para o Palácio Tauride, onde os membros da Duma tentavam desesperadamente persuadir o czarismo a fazer concessões. Os bolcheviques da fábrica Erikson pediram aos trabalhadores para marcharem até a praça de Kazan e armarem-se com facas, utensílios metálicos e gelo para o iminente combate com a polícia.

Uma multidão de quarenta mil manifestantes lutou contra polícias e soldados na Ponte Liteiny, mas foram novamente repelidos. Dois mil e quinhentos trabalhadores da Erikson foram confrontados por cossacos na avenida Sampsonievsky. Os polícias atacaram a multidão, mas os cossacos seguiram cautelosamente pelo corredor recém-aberto pelos polícias. “Alguns deles sorriam”, lembra-se Kaiurov, “e um deles deu aos trabalhadores um bom piscar de olhos”. Em muitos lugares, as mulheres tomaram a iniciativa: “Temos maridos, pais e irmãos na frente… vocês também têm mães, esposas, irmãs e crianças. Queremos pão e um fim para guerra”.

Os manifestantes não fizeram nenhuma tentativa de conciliar-se com a polícia odiada. Os jovens pararam os carros nas ruas, cantaram canções revolucionárias e arremessaram gelo e parafusos contra a polícia. Depois de vários milhares de trabalhadores atravessarem o gelo, romperam ferozes batalhas entre os manifestantes e a polícia pelo controlo da Nevsky. Entretanto, os trabalhadores conseguiram realizar comícios nos locais revolucionários tradicionais de Kazan e na famosa estátua “hipopótamo” de Alexandre III na Praça Znamenskaya. As reivindicações tornaram-se mais políticas, à medida que os oradores não só exigiam pão, mas também denunciavam a guerra e a autocracia.

No dia 25, a greve tornou-se geral, com mais de duzentos e quarenta mil trabalhadores fabris acompanhados por trabalhadores de escritórios, professores, empregados de mesa, estudantes universitários e até mesmo estudantes do ensino secundário. Os motoristas de táxi declararam que só conduziriam os “líderes” da revolta.

Novamente, os trabalhadores começaram a reunir-se nas suas fábricas. Numa turbulenta reunião na fábrica Parvianen em Vyborg, os oradores bolcheviques, mencheviques e socialistas revolucionários instaram os trabalhadores a marcharem para a Nevsky. Um dos oradores terminou com o verso revolucionário: “Fora do caminho, mundo obsoleto, podre de cima a baixo. A jovem Rússia está em marcha!”

Os manifestantes envolveram-se em dezassete violentos confrontos com a polícia, mas soldados e trabalhadores conseguiram libertar os camaradas presos. Os rebeldes ganharam a dianteira, esmagando as forças czaristas em muitas pontes ou cruzando o gelo até o centro. Ao assumirem o controlo da Nevsky, os manifestantes reuniram-se uma vez mais na Znamenskaya. Os polícias e cossacos investiram sobre a multidão, mas quando o chefe da polícia avançou sobre os manifestantes foi derrubado – por um sabre cossaco. As trabalhadoras voltaram a desempenhar um papel crucial: “Baixem as suas baionetas”, apelaram. “Juntem-se a nós”.

Ao cair da noite, Vyborg era controlada pelos rebeldes. Os manifestantes saquearam os quartéis da polícia, capturaram revólveres e sabres das sentinelas czaristas e forçaram polícias e gendarmes a fugir.

A revolta levou o czar Nicolau II ao limite. “Ordeno que os distúrbios na capital terminem amanhã” proclamou, e ordenou ao comandante das tropas de Petrogrado, Khabalov, que dispersasse as multidões com poder de fogo. Khabalov estava cético (“Como poderiam ser travados no dia seguinte?”), mas acatou a instrução. Na câmara, o Ministro do Interior, Protopopov, incitou os defensores da autocracia a reprimir a revolta: “Rezem e acreditem na vitória”, disse. Na manhã seguinte, bem cedo, foram publicadas proclamações a proibir as manifestações e a advertir que, caso o decreto não fosse cumprido, os manifestantes seriam reprimidos através do uso de armas de fogo.

No domingo 26, pela manhã, a polícia prendeu o núcleo do comité bolchevique de Petersburgo e outros socialistas. Fábricas foram fechadas, pontes foram levantadas, e o centro de cidade transformou-se num acampamento militar. Khabalov enviou um telégrafo ao quartel-general a dizer que “desde de manhã a cidade tem estado calma”. Pouco depois deste relatório, milhares de trabalhadores cruzaram o gelo e surgiram na Nevsky a cantar canções revolucionárias e a gritar palavras de ordem, mas os soldados atiraram sistematicamente sobre eles.

Destacamentos do Regimento Volynsky foram encarregados de evitar comícios na Praça Znamenskaya. Patrulhas a cavalo varreram a multidão, mas não conseguiram dispersá-la. O comandante então ordenou que as tropas atirassem. Embora alguns soldados disparassem para o ar, cinquenta manifestantes foram mortos dentro e ao redor da Praça Znamenskaya, e os trabalhadores dispersos esconderam-se dentro das casas e correram para os cafés. A maior parte da chacina foi levada a cabo pelas unidades leais que eram utilizadas para treinar oficiais não-comissionados.

Todavia, a sangria não esmagou a rebelião.

Um relatório policial descreve o espantoso nível de resistência e sacrifício dos rebeldes:

No decorrer dos tumultos observou-se um fenómeno geral, no qual as multidões revoltosas ofereceram um extremo desafio para as patrulhas militares, pois quando ordenadas a dispersar, lançavam pedras e pedaços de gelo apanhados na rua. Quando os primeiros tiros foram disparados para o ar, a multidão não só não dispersou, como também respondeu aos disparos com risos. Apenas quando os cartuchos foram descarregados no meio da multidão, foi possível dispersá-la. Os participantes…esconderam-se nos jardins das casas vizinhas e, assim que o tiroteio cessou, voltaram novamente às ruas”.

Os trabalhadores exortaram os soldados a baixarem as armas, procurando que mudassem de lado, o que envolvia uma luta pelo próprio coração do soldado. Como observou Trotsky, era nos contatos “entre as mulheres e os homens trabalhadores e os soldados, sob o constante crepitar de espingardas e metralhadoras, o destino do governo, da guerra, do país, está a ser decidido”.

Na noite do dia 26, os líderes bolcheviques de Vyborg encontraram-se numa horta nos arredores da cidade. Muitos sugeriram que já estava na hora de cessar a revolta, mas ficaram em minoria. O mais vociferante defensor de continuar a batalha foi desmascarado, mais tarde, como agente da Okhrana. A partir de uma perspetiva militar, a revolução deveria acabar após o dia 26. Mas a polícia não poderia esmagar a rebelião sem o apoio de milhares de soldados.

Na tarde anterior, os trabalhadores tinham-se aproximado do quartel Pavlovsky: “Digam aos vossos camaradas que os de Pavlovsky também estão a disparar sobre nós – vimos soldados com o vosso uniforme na Nevsky”. Os soldados “pareciam todos angustiados e pálidos”. Apelos semelhantes ressoavam pelos quartéis de outros regimentos. Naquela noite, os soldados de Pavlovsky tornaram-se os primeiros a juntar-se aos rebeldes (embora, ao perceber que estavam isolados, tenham voltado aos seus quartéis e 39 líderes foram imediatamente presos).

Na madrugada do dia 27, a revolta atingiu o regimento Volynsky, cujo corpo de treino disparara sobre manifestantes na Praça Znamenskaya. Quatrocentos amotinaram-se dizendo ao seu tenente: “Não vamos mais disparar e também não desejamos derramar o sangue dos nossos irmãos em vão”. Quando respondeu lendo a ordem do czar para acabar com a rebelião, o tenente foi sumariamente abatido. Outros soldados de Volynsky juntaram-se à rebelião e logo se dirigiram aos quartéis vizinhos dos regimentos Preobrajensky e Lituanos, que também se amotinaram.

Mais tarde, um participante descreveu a cena: “Um caminhão repleto de soldados com as de espingardas na mão abriu caminho entre a multidão enquanto o motor rugia pela Sampsonievsky. Bandeiras vermelhas tremulavam nas baionetas das espingardas, algo nunca visto antes… A notícia que trouxe o caminhão – que as tropas se tinham amotinado – espalhou-se como um incêndio”. Apesar de um destacamento punitivo, liderado pelo general Kutepov, ter agido, durante horas, sem encontrar oposição – disparando sobre os manifestantes e sobre os camiões cheios de trabalhadores – pela noite, Kutepov escreveu, “uma grande parte da minha força misturou-se com a multidão”.

Naquela manhã, o general Khabalov pavoneara-se pelos quartéis da cidade ameaçando os soldados com a pena de morte caso se rebelassem. À noite, o general Ivanov, cujas tropas estavam a caminho para dar apoio aos que mantinham a lealdade ao czar, telegrafou a Khabalov para avaliar a situação.

“Ivanov: Em quais partes da cidade está preservada a ordem?
Khabálov: A cidade toda está nas mãos dos revolucionários.
Ivanov: Todos os ministérios estão a funcionar normalmente?
Khabalov: Os ministérios foram tomados pelos revolucionários.
Ivanov: Que forças policiais estão à sua disposição neste momento?
Khabalov: Absolutamente nenhuma.
Ivanov: Quais instituições técnicas e de abastecimento do Departamento de Guerra estão agora sob seu controlo?
Khabalov: Nenhuma”

Ciente da situação, o General Ivanov decidiu retirar. A fase militar da revolução chegara ao fim.

O paradoxo da Revolução de Fevereiro foi que, embora tenha varrido o czarismo, substituiu-o por um governo de liberais não eleitos que estavam horrorizados com a própria revolução que os havia colocado no poder. No dia 27 “ouviram-se suspiros… Ela estava a chegar, o que provocava francas expressões de medo pela própria vida”, escreveu um deputado liberal da Duma. Esse sentimento foi interrompido brevemente pela alegre, mas imprecisa notícia de que “os tumultos em breve chegariam ao fim”. Um outro observador apontou que “eles estavam horrorizados, estremeciam, sentiam-se cativos em mãos hostis a percorrer uma estrada desconhecida”.

Durante a revolução, “a posição da burguesia era bastante clara; por um lado, manter distância da revolução e traí-la em favor do czarismo e, por outro, explorá-la para os seus próprios fins”. Esta foi a avaliação de Sukhanov, um líder do Soviete de Petrogrado que era simpático aos Mencheviques e desempenharia um papel crucial na entrega do poder aos liberais.

Ele receberia bastante ajuda de socialistas mais moderados. O líder menchevique Skobelev aproximou-se de Rodzianko, presidente da Quarta Duma, para garantir um quarto no Palácio de Tauride. O seu objetivo era organizar um soviete de deputados operários, com o objetivo de manter a ordem. Kerensky acalmou os receios de Rodzianko de que o soviete pudesse ser perigoso, dizendo-lhe: “alguém precisa de tomar conta dos trabalhadores”.

Ao contrário do soviete dos trabalhadores de 1905, que surgiu como instrumento da luta de classes, o soviete formado em 27 de fevereiro foi estabelecido após a revolta e os principais membros de seu comité executivo eram quase exclusivamente intelectuais que não tinham participado ativamente da revolução.

Havia outras falhas também: a representação dos cento e cinquenta mil soldados em Petrogrado era muito superior neste soviete de trabalhadores e soldados. A presença era esmagadoramente masculina, o punhado de mulheres delegadas, entre os 1.200 delegados (que chegaram a ser quase três mil), estava terrivelmente sub-representada. O soviete nem sequer discutiu a manifestação pelo sufrágio feminino em 19 de março, na qual participaram 25.000 mulheres, incluindo milhares da classe trabalhadora.

É verdade que o soviete de Petrogrado aprovou a famosa Ordem Número 1 – que autorizava os soldados a eleger os seus próprios comités para dirigir as suas unidades, e a obedecer aos oficiais e ao Governo Provisório somente se as ordens não contradissessem as dadas pelo soviete – mas esta ordem foi decretada por iniciativa dos próprios soldados radicais.

Ainda assim, a formação dos sovietes forçou os liberais, e o seu aliado socialista revolucionário Kerensky, a agir. Rodzianko argumentou que “se não tomarmos o poder, outros o farão”, porque já tinham sido “eleitos uma espécie de patifes nas fábricas”. “A menos que formemos um governo provisório imediatamente”, escreveu Kerensky, “o soviete proclamar-se-á autoridade suprema da Revolução”. Segundo o plano, um grupo que se autonomeasse Comité Provisório agiria como um contraponto aos sovietes. Mas os conspiradores não tinham muita confiança no seu próprio plano; deixaram os líderes mencheviques e socialistas revolucionários do soviete fazer o seu trabalho sujo.

A álgebra menchevique da revolução determinou que o “governo que tomasse o lugar do czarismo devia ser exclusivamente burguês”, escreveu Sukhanov. “Toda a máquina estatal… só poderia obedecer a Miliukov”.

As negociações entre o executivo do soviete e os líderes liberais não eleitos ocorreram no dia 1 de março. “Miliukov entendeu que o Comité Executivo estava numa posição perfeita para dar poder ao governo burguês, ou não dá-lo”, mas, acrescentou Sukhanov, “o poder destinado a substituir o czarismo só pode ser um poder burguês… Devemos guiar-nos por este princípio. Caso contrário, a insurreição não terá tido êxito e a revolução entrará em colapso”.

Os líderes dos sovietes estavam até dispostos a abandonar o mínimo programa das “três baleias”[i], com o qual concordavam todos os grupos revolucionários (a jornada de trabalho de oito horas, o confisco de terras estatais e uma república democrática) se os liberais tomassem o poder. Assustado com a possibilidade de ter de governar, Miliukov insistiu teimosamente em fazer uma última tentativa de salvar a monarquia.

Incrivelmente, os socialistas aceitaram e permitiram que o irmão do czar, Miguel, decidisse por si mesmo se deveria governar. Sem receber nenhuma garantia à sua segurança pessoal, o Grão-Duque recusou educadamente. Todas essas negociações foram, obviamente, conduzidas nos bastidores, fora do alcance dos trabalhadores e dos soldados.

O sistema de “poder dual” que emergiu dessas discussões – o soviete de um lado e o Governo Provisório não eleito do outro – duraria oito meses.

Ziva Galili descreveu essas negociações como “o melhor momento dos mencheviques”. Trotsky comparou-as a uma peça de teatro de vaudeville dividida em metades: “Numa, os revolucionários imploravam aos liberais para salvar a revolução; na outra, os liberais imploravam à monarquia para salvar o liberalismo”.

E por que então os operários e soldados, que haviam lutado tão valentemente para derrubar o czarismo, permitiam que o soviete entregasse o poder a um novo governo que representava os homens de propriedade? Por um lado, a maioria dos trabalhadores ainda tinha de compreender as políticas dos vários partidos socialistas. Além disso, os próprios bolcheviques não eram muito claros sobre os seus objetivos de luta, em parte porque tinham mantido uma compreensão (rapidamente desatualizada) da revolução como democrático-burguesa, na qual um governo revolucionário provisório governaria. O que isso significava na prática, particularmente após a formação do Governo Provisório, estava aberto a interpretações diferentes.

Apesar de os militantes bolcheviques terem desempenhado um papel fundamental durante os dias revolucionários, fizeram-no, muitas vezes, ignorando as orientações dos seus líderes. As mulheres do setor têxtil entraram em greve em fevereiro ignorando as objeções de líderes partidários que consideravam que o momento “ainda não estava maduro” para a ação militante.

Faltava também liderança ao Bureau bolchevique: Shliapnikov, Molotov e Zalutsky. Mesmo depois da greve de 23 de fevereiro, Shliapnikov defendeu que era prematuro convocar uma greve geral. O Bureau não produziu um panfleto para distribuir às tropas e rejeitou, frente a batalhas iminentes, a reivindicação de armamento dos trabalhadores.

A maior parte da iniciativa veio ou do comité do distrito de Vyborg, que atuou como líder de facto da organização partidária da cidade, ou de militantes de base — especialmente no primeiro dia, quando as mulheres ignoraram a direção partidária e desempenharam um papel decisivo no desencadeamento do movimento grevista.

Durante todo o mês de março, a confusão e a divisão abalaram os bolcheviques. Quando o soviete de Petrogrado entregou o poder político à burguesia em 1 de março, nenhum dos onze bolcheviques do comité executivo se opôs. Quando delegados da esquerda bolchevique no soviete apresentaram uma moção a chamar o soviete a formar governo, apenas dezanove votaram a favor, e muitos bolcheviques votaram contra. Em 5 de março, o Comité de Petersburgo apoiou o apelo do soviete para que os operários voltassem ao trabalho, ainda que a jornada de oito horas, uma das principais reivindicações do movimento revolucionário, não tivesse sido instituída.

Sob a liderança de Shliapnikov, o Bureau do partido aproximou-se dos radicais de Vyborg, que chamavam o soviete a governar. Mas quando Kamenev, Estaline e Muranov regressaram do exílio siberiano e assumiram a direção em 12 de março, a política do partido virou bruscamente à direita – para o deleite dos líderes mencheviques e socialistas revolucionários e para a ira de muitos militantes do partido nas fábricas, alguns dos quais pediram a expulsão do novo triunvirato.

Lenine estava entre os irados. Em 7 de março, ele escreveu da Suíça: “Este novo governo já está amarrado de pés e mãos ao capital imperialista, à política imperialista de guerra e pilhagem”. Kamenev, pelo contrário, defendeu no Pravda em 15 de março que “pessoas livres” ficarão “firmes nos seus postos, responderão bala por bala, cartucho por cartucho”. E no final de março, Estaline falou a favor da unificação com os mencheviques e defendeu que o Governo Provisório “assumiu o papel de fortalecer as conquistas da revolução”.

Lenine estava tão preocupado com a viragem à direita da direção que, a 30 de março, escreveu que preferia uma “rotura imediata com qualquer um no nosso partido, seja ele quem for, a fazer concessões ao social-patriotismo de Kerensky e companhia”. Não era necessário um advogado para esclarecer as palavras de Lenine ou a quem se referia. “Kamenev deve perceber que carrega consigo uma responsabilidade histórica mundial”.

A essência do leninismo de 1905 enfatizava a desconfiança total do liberalismo como uma força contrarrevolucionária e uma forte crítica daqueles socialistas empenhados em tentar apaziguá-lo. No entanto, a formulação feita pelo próprio Lenine em 1905, que chamava à formação de um governo revolucionário provisório para realizar uma revolução burguesa, contrastava com o que ele apelidou de “ideias absurdas e semianarquistas” de Trotsky, que reivindicava uma “revolução socialista”. O próprio Lenine agora avançava para essa ideia absurda de socialismo, enquanto os velhos e conservadores bolcheviques compreensivelmente o acusavam de “trotskismo”.

Em muitos aspectos, o golpe de estado do início de março foi típico dos que ocorreram no último século — um pequeno e não eleito grupo usurpando o poder para os seus próprios interesses de classe, à custa de um movimento que os colocou no poder. Contudo, houve duas grandes diferenças. Uma foi que havia um partido das massas trabalhadoras que lutaria incansavelmente pelos seus interesses. E a segunda foi que existiam sovietes.

A Revolução Russa ainda estava no início.


Publicado originalmente no blog da revista Jacobin.

Tradução de Raquel Siphone e revisão técnica de Fernando Pureza para o blogue Junho. Adaptação para português de Portugal de Mariana Carneiro e Luís Leiria para o Esquerda.net.

 

[i]Analogia com as três baleias sobre as quais, de acordo com uma velha fábula popular, está assente a Terra. (Nota do Esquerda.net)

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