Hazaras em Portugal: “o silêncio da comunidade internacional mata-nos”

11 de outubro 2022 - 14:02

No passado sábado, mais de 120 cidades de 70 países manifestaram-se contra o genocídio do povo Hazara no Afeganistão e exigiram ação por parte da comunidade internacional. O Esquerda.net falou com Sediqa, Ali e Samira, que integraram a organização do protesto em Lisboa. Texto e fotos de Mariana Carneiro.

porMariana Carneiro

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Ali explica que o povo Hazara está “a ser alvo de ataques sistemáticos no Afeganistão”. Um dos mais recentes aconteceu a 30 de setembro, no Centro Educacional Kaaj, em Cabul, causando a morte a 56 pessoas e deixando, pelo menos, 115 feridos. “As jovens raparigas Hazara estavam a preparar-se para os exames de admissão à faculdade”, refere.

Agora com 39 anos, Ali lembra que a perseguição contra os Hazaras tem uma longa história: “No final do século XIX, o então Emir do Afeganistão, Abdur Rahman Khan, matou mais de 60% da população Hazara. Nessa altura, os Hazaras, que viviam do Norte ao Sul do país, foram expulsos das suas casas e terras, muitos foram escravizados, e a população foi empurrada para a zona mais inóspita do Afeganistão. É uma zona de montanhas no centro do país onde o clima é muito severo”, relata. De acordo com Ali, o objetivo não foi apenas isolar os Hazaras, mas também pôr em causa a sua sobrevivência.

Sob o regime talibã no final da década de 1990, os Hazaras enfrentaram, pelo menos, nove casos de massacres. Ali dá o exemplo do massacre promovido pelos talibãs em Mazar-e Sharif, que, de acordo com a Human Rights Watch, resultou na morte de 2.000 pessoas. Outras fontes têm registos mais dramáticos, que elevam as mortes para mais de 15.000. “Essas pessoas foram brutalmente assassinadas, incluindo mulheres, crianças e idosos”, lamenta.

Mas os massacres não pararam com a presença da NATO no Afeganistão. Desde 2015, têm sido realizados ataques em vários locais. “Lembro-me que, num ataque a um hospital, foi morto um bebé recém-nascido. Não consigo perceber como é que é possível alguém fazer isso. E os ataques continuaram em várias escolas. Num ataque em Cabul a um centro educativo, morreram cerca de 150 pessoas”, destaca.

Ali aponta que o protesto realizado no Rossio, em Lisboa, tem como objetivo exortar as Nações Unidas a reconhecer que está em curso um genocídio.

“Os Hazaras têm uma cultura distinta. É uma cultura lindíssima, de paz, de beleza, de conhecimento, que se está a perder. Só queremos preservar a nossa cultura”, avança. Ali assinala ainda que tem existido um intenso fluxo migratório do povo Hazara para vários pontos do mundo: “Não porque queremos fazê-lo, mas porque somos forçados a fazê-lo”, frisa.

Ali a intervir na concentração pelo fim do genocídio do povo Hazara.

“Quando eu estava no Afeganistão, sofria todo o tipo de discriminação, e não compreendia porquê. O meu pai aconselhava-me a estar tranquilo e a manter-me em silêncio. A ser invisível para ficar em segurança. ‘Se quiseres viver, não digas nada’, dizia-me. E tantos Hazaras continuam a manter-se em silêncio, para sobreviver. Mas, mesmo assim, continuam a ser mortos”, acrescenta.

Ali menciona ainda que, durante o período em que a NATO e as Nações Unidas estiveram no Afeganistão, os Hazaras deram todo o apoio às missões internacionais. “Mas a NATO e as Nações Unidas mantiveram-se, e continuam a manter-se, em silêncio, e esse silêncio da comunidade internacional mata-nos. O vosso silêncio mata-nos”, lamenta o afegão.

Ali chegou a Portugal em 2019, mas só conseguiu trazer para cá a sua família em 2021. “Foi muito angustiante deixar para trás a minha família. Todos os dias temia pela sua segurança. E continuo triste por saber que existem tantas pessoas no Afeganistão que estão a ser perseguidas e mortas apenas por serem Hazaras”, realça.

Neste contexto, participar nestas iniciativas é, para Ali, “um pequeno contributo para apoiá-las e ampliar a sua voz. Para que o mundo saiba o que é ser Hazara, como é tão duro ser Hazara no Afeganistão”.

“Quando se é Hazara no Afeganistão, é-se discriminado em todos os campos, não temos futuro. Não somos cidadãos. A insegurança e a discriminação são visíveis. Toda a gente sabe, mas ninguém faz nada. A NATO e as Nações Unidas não fizeram nada mesmo quando estavam no país”, afirma Ali.

“Podemos todos viver em paz. Parem de nos matar”

Samira pergunta “porquê”: “Por que estão a matar o povo Hazara, especialmente as jovens desta comunidade?”. “E por que atacam a educação? A educação não é o problema, os terroristas são o problema”, continua.

A afegã teve de sair do país “porque a situação era muito difícil, não havia dinheiro, trabalho, educação e os Hazaras são permanentemente perseguidos”. Mas também é difícil estar longe do seu país e ter de se adaptar a uma nova cultura, a uma nova língua. Mais difícil ainda é “assistir ao desaparecimento” do seu povo.

Samira reitera o apelo que circula nas redes sociais: #StopHazaraGenocide. E tem esperança que o Afeganistão “viva em paz”. “Somos todos seres humanos, podemos todos viver em paz. Parem de nos matar”, vinca.

Samira.

Comunidade internacional tem de reconhecer genocídio do povo Hazara

Reforçando que o povo Hazara está a ser morto há muitos anos, Sediqa sublinha que, desde agosto de 2021, os ataques genocidas contra os Hazaras aumentaram significativamente, com um padrão emergente de atingir as pessoas mais jovens da comunidade.

De acordo com a afegã, esses ataques sistemáticos põem em causa a existência do povo Hazara, que é atacado em centros educacionais, locais de culto, hospitais, instalações desportivas, reuniões públicas, estradas, escolas e durante casamentos.

Sediqa, que saiu do país há cerca de um ano, explica que a comunidade honra “todas as vítimas, de todos os grupos étnicos, da violência generalizada no Afeganistão”, mas alerta que os Hazara enfrentam “ataques sistemáticos baseados apenas na etnia e na fé”, e por esta minoria “respeitar os direitos humanos, especialmente os direitos das mulheres, a liberdade de expressão e educação”.

Sobre as reivindicações da comunidade Hazara em Portugal, Sediqa é clara: “A comunidade internacional, e, em particular, a ONU, devem reconhecer a natureza dos ataques sistemáticos contra os Hazaras no Afeganistão”, que “cumprem os elementos descritos no Artigo II da Convenção de Genocídio de 1948”. “Isso levou a que organizações internacionais como o Museu Memorial do Holocausto dos EUA e o Genocide Watch alertassem para o genocídio dos Hazaras”, recorda.

Sediqa defende ainda que a ONU, os EUA e a União Europeia devem, “em conjunto com membros do povo Hazara, delinear e implementar ações práticas para a proteção dos Hazaras no Afeganistão, incluindo um mecanismo de proteção internacionalmente assistido, apoiado e monitorizado”.

Por outro lado, a comunidade Hazara em Portugal apela a que “o Tribunal Penal Internacional abra um processo sobre as atrocidades sofridas pelo povo Hazara e inicie investigações sobre os genocídio e crimes contra a humanidade cometidos”.

Sediqa à esquerda na imagem.

Sediqa faz ainda referência ao sistema de reinstalação de refugiados, que deve ter em consideração “as discriminações intersetoriais e as múltiplas razões para a perseguição que os Hazara enfrentam”. E apela a esses países para que priorizem os Hazaras nos seus esquemas de reinstalação, garantindo proteção urgente aos membros desta comunidade, que estão em campos de refugiados, ou estão a fugir do Afeganistão para países terceiros.

Até que se acabe com a invisibilidade a que o povo Hazara está condenado, e as vozes dos Hazaras se façam ouvir e os seus direitos sejam cumpridos, as iniciativas de solidariedade, de protesto, de reivindicação continuarão. É essa a garantia que nos deixaram aquelas e aqueles com quem nos cruzámos no passado sábado.

Mulheres iranianas que também têm realizado iniciativas em Portugal em defesa do seu povo estiveram lado a lado com as afegãs e os afegãos, num protesto que contou ainda com a presença de coletivos feministas e da coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.

Ver Fotogaleria: Concentração pelo fim do genocídio do povo Hazara no Afeganistão

Mariana Carneiro
Sobre o/a autor(a)

Mariana Carneiro

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.